Artigo – O futuro dos hospitais nos sistemas de saúde

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Quando se pensa no hospital do futuro, pode-se dizer que suas características, em grande medida, já existem potencialmente no presente, mas não para a maioria da população mundial. O otimismo futurista contrasta com a realidade da maioria das regiões do planeta. Em média, uma em cada dez pessoas no mundo enfrentam problemas quando visitam um hospital; 14 em cada 100 pacientes internados contraem infecções hospitalares; 50% das complicações derivadas de internação hospitalar são evitáveis; 5,5% das injeções ministradas em hospitais não usam produtos descartáveis e 20% a 40% dos gastos hospitalares são desperdiçados por má qualidade da atenção.

No contexto atual, vários fatores ameaçam a sobrevivência dos sistemas de saúde e dos hospitais tradicionais. Entre eles estão: a transição demográfica e epidemiológica; o custo crescente das tecnologias e produtos farmacêuticos; a inoperância do pagamento baseado em volume (como é o caso do fee-for-service); as reformas de saúde e as mudanças na disponibilidade de pagar dos financiadores públicos e privados; a necessidade de evitar cuidados cada vez mais fragmentados; e a falta de transparência do custo e da qualidade dos serviços para o paciente e para a comunidade.

Mas a tendência é que os hospitais superem estas debilidades sendo, cada vez mais, uma parte conectada aos distintos sistemas de saúde, deixando de ser instituições autossuficientes e independentes de outras atividades que se desenrolam nesse sistema. Portanto, para entender como será o hospital do futuro, é necessário conhecer quais são as tendências dos sistemas de saúde.

Do meu ponto de vista, três grandes tendências definem o futuro imediato dos sistemas de saúde, não somente nos países desenvolvidos, mas nos elos mais avançados dos países em desenvolvimento. Essas tendências podem ser resumidas em três conceitos: focalização, integração e valor.

Por focalização podemos entender que os sistemas de saúde estarão cada vez mais focalizados em seu entorno populacional, deixando de ser apenas unidades de tratamento para zelar pela saúde da comunidade que está em seu entorno. Isso significa que atividades de promoção e prevenção vão fazer cada vez mais parte das atividades cotidianas dos sistemas de saúde e, quando o tratamento for necessário, as atividades desses sistemas estarão centradas nas necessidades dos pacientes.

Por integração devemos entender que os elos que compõe o sistema de saúde estarão cada vez mais interligados, cumprindo com determinados requerimentos necessários para aumentar a eficiência e os resultados. Por exemplo, gestão clínica e gestão financeira terão de se integrar, trazendo novas ferramentas analíticas, como a necessidade de integrar custos por paciente e por patologia, gestionar pagamentos associados a resultados clínicos e não a etapas dos processos de trabalho médico. As distintas unidades de saúde – no passado atomizadas e descoordenadas – deverão estar integradas com base no cuidado aos pacientes, o qual estará distribuído em distintas etapas por nível de complexidade e segundo a natureza da intervenção. Esse processo exigirá não apenas uma maior participação do paciente, mas também a integração entre domicílio, ambulatório, clínica, laboratório e hospital, como unidades que sejam capazes de se coordenar, evitar a duplicação e garantir a continuidade do cuidado. Para tal, os sistemas de informação deverão estar centrados no paciente e uniformemente instalados em todas as unidades que compõe uma rede de saúde.

A integração também ocorrerá ao nível das habilidades profissionais, através do uso cada vez mais frequente de equipes multiprofissionais de saúde e sua integração com os pacientes. Grupos de trabalho multiprofissionais integrados estarão organizados independentemente de onde se encontram dentro da rede, na medida em que as tecnologias de informação permitirão este processo. Telemedicina deixará de ser uma área de ponta para ser o “pão com manteiga” das redes de saúde e o uso de processos de análise de dados integrará a totalidade dos cuidados, facilitando a tomada de decisões priorizadas e favorecidas pelo uso crescente de inteligência artificial, através da internet das coisas (IoT). O trabalho de equipe em todos os níveis, com ampla informação disponibilizada on-line e estruturada para o processo decisório, se somará à integração dos pacientes informados e com papéis definidos na linha de cuidados.

O terceiro conceito é o de valor, que trocará a lógica da quantidade (volume) pela lógica da qualidade do cuidado a partir da busca da melhor saúde para a população e do melhor cuidado para o paciente pelo menor preço possível. Valor em saúde pode ser reduzido a uma lógica muito simples. Primeiramente se busca maximizar o valor, aumentando a qualidade e reduzindo os custos. Qualidade, por sua vez, deixa de ser um critério subjetivo. Somente se alcança a qualidade quando se maximiza a relevância dos cuidados e o alcance de seus resultados e se minimiza o desperdício dentro de um sistema ou rede de saúde. Portanto, para que se possa avaliar o valor dentro dos sistemas de saúde, uma nova métrica passa a ser necessária em cada ciclo de cuidado, através: da mensuração dos resultados clínicos; da mensuração dos custos; da mensuração da relevância das ações tomadas e da medida do desperdício de recursos utilizados.

Premissas para os hospitais do futuro

Tendo em vista estes novos conceitos de como se estruturarão os sistemas de saúde, podemos dizer que o hospital do futuro estará fundamentado numa transição dos sistemas de remuneração baseadas em volume para os sistemas baseados em valor, como pode ser visto no diagrama a seguir.

Para alcançar este processo, várias recomendações têm sido dadas pelos especialistas. Os hospitais do futuro deverão oferecer cuidados assistenciais seguros e comprometidos com a melhoria da qualidade, cumprindo protocolos e linhas de cuidado definidas, com vistas a aumentar a eficácia clínica que será religiosamente medida, avaliada e incorporada na revisão das práticas assistenciais. O paciente ocupará um lugar central e sua experiência será avaliada sistematicamente. A comunicação entre a equipe médica e o paciente será o eixo central dos cuidados, garantindo a eles acesso efetivo e oportuno aos exames, agendamentos, tratamentos e movimentos para dentro e para fora do hospital quando necessários. O traslado de paciente só deverá ocorrer quando necessário por razões clínicas. Os arranjos para a transferência de cuidados serão sempre robustos e, nos casos onde houver indicação, serão elaborados e controlados os protocolos para facilitar o autocuidado e a promoção da saúde. Ao ser centrado no paciente, o hospital proverá um plano de cuidados para cada paciente, o qual refletirá suas necessidades clínicas e de suporte individual.

Na medida em que os serviços de saúde se estruturarão em redes, os hospitais poderão ser menores e centrados em serviços de alto valor e complexidade. Funcionarão sem déficit, de forma a reduzir custos e investimentos desnecessários. Poderão atender menos pacientes, dado que estes estarão em outros elos da rede, mas os que forem atendidos o serão com a máxima eficiência, segurança e qualidade. Deverão contar com mão de obra altamente especializada e tecnologia de ponta e alcançarão melhores resultados via processos otimizados. Serviços de menor complexidade serão executados por clínicas e ambulatórios integrados em sua rede.

Além de tudo isso, os hospitais do futuro deverão ser centros de inovação em tecnologia dos serviços centrada nos pacientes. Serão os principais centros de pesquisa e capacitação em serviços e administrados por modelos de compartilhamento de risco com os planos de saúde, com a indústria de medicamentos e de equipamentos e com outros provedores. Tal processo será também uma estratégica para inovação dentro de um marco gerencial que permita a redução dos riscos dos pacientes. Para isso, os hospitais deverão estar conectados on-line com os pacientes, com suas redes, com a indústria médica (laboratórios, setor farmacêutico e de equipamentos) e com os sistemas de saúde pública.

Para que tudo isso seja possível, é necessário programar a transição. Os cuidados médicos nos hospitais deverão ser seguros, eficazes e cálidos para todos os pacientes que necessitam de cuidados hospitalares, estando acessíveis com altos níveis de qualidade 24 horas por dia nos sete dias da semana. As equipes médicas deverão ser estáveis e capacitadas, em um ambiente com tecnologia adequada para educar, treinar e estimular a inovação, com uma forte integração e motivação entre distintas gerações de médicos e profissionais. Deverá haver relações efetivas entre as equipes clínicas, administrativas e assistenciais dos hospitais e um equilíbrio adequado entre cuidados básicos e especializados, coordenados de forma efetiva e holística em torno das necessidades dos pacientes.

André Medice é economista de saúde com mais de 30 anos de experiência no Brasil e 20 anos de experiência internacional em temas associados a economia e financiamento da saúde, pesquisa, desenho e negociação de políticas e reformas de saúde em países em desenvolvimento. É editor do blog Monitor de Saúde (www.monitordesaude.blogspot.com)

Matéria originalmente publicada na Revista Hospitais Brasil edição 90, de março/abril de 2018. Para vê-la no original, acesse: portalhospitaisbrasil.com.br/edicao-90-revista-hospitais-brasil

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