Cardiologistas brasileiros lançam rede para combater insuficiência cardíaca

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Um grupo de cardiologistas lança, nesta semana, a REBRIC – Rede Brasileira de Insuficiência Cardíaca, associação independente e sem fins lucrativos, que pretende trabalhar pela melhora da linha de cuidados para a doença, que mata quase 3 vezes mais do que tipos de câncer como de próstata e mama.

A REBRIC tem como objetivo unir médicos especializados ou generalistas, entidades e sociedades médicas, profissionais de saúde, agentes das três esferas governamentais e integrantes da sociedade civil, além de empresas de setores farmacêutico e não farmacêutico, associação de pacientes e outras entidades, para aprimoramento ao atendimento e identificação da doença e na criação de linhas de cuidados à insuficiência cardíaca no Brasil.

A ideia é atuar estrategicamente para diminuir os impactos desta doença que faz estimados 240 mil novos pacientes a cada ano, no Brasil. “Precisamos unir esforços. Metade dos pacientes com insuficiência cardíaca morrem em até cinco anos, vítimas de uma doença que, estima-se, cause cerca de R$ 22 bilhões em perda de produtividade, tratamento e despesas hospitalares a cada ano, no Brasil”, explica Manoel Canesin, cardiologista e presidente da REBRIC.

A Insuficiência Cardíaca é uma doença alarmante e que não é devidamente reconhecida, diagnosticada ou tratada no país. No Brasil, as doenças cardíacas exercem significativo impacto financeiro e perda de produtividade da população, acarretando em um custo de R$ 56,2 bilhões apenas em 2015. Deste valor, R$ 22,1 bilhões podem ser relacionados exclusivamente com Insuficiência Cardíaca / Doença do Coração Fraco.

A prevenção e o melhor manejo das doenças cardíacas poderiam resultar em significativos benefícios para melhorar o bem-estar e preservar a economia. Por isso, a REBRIC é lançada com um portal que traz material voltado a profissionais de saúde e que tem como propósito auxiliar na divulgação de informações e na constante melhoria do diagnóstico, tratamento e acompanhamento da Insuficiência Cardíaca.

Informações: www.rebric.com.br

Doenças cardíacas podem custar 18% da renda dos pacientes e seus familiares

Artigo de publicação científica internacional demonstra que o uso apropriado da tecnologia em exames de diagnóstico pode ajudar a salvar vidas otimizando investimentos. Curitiba foi a primeira cidade do mundo a implementar um desses exames.

Não bastasse o drama enfrentado pelas famílias que perdem ou têm parentes afetados por doenças cardíacas, as despesas associadas a essas patologias podem chegar a 18% da renda dessas pessoas. Essa perda financeira ocorre por vários motivos, como faltas ao trabalho, perda de emprego e mesmo mortalidade prematura, além de custos com os cuidados formais e informais de saúde.

As doenças cardíacas ainda causam perdas financeiras ao país: 63% de custos do sistema de saúde, 37% de redução da produtividade e 5% menos impostos com a redução da renda dos indivíduos com problemas cardíacos e seus cuidadores.

Os dados são do estudo O ônus econômico das condições cardíacas no Brasil, publicado neste ano nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia pelo grupo do Dr. Fernando Bacal do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), em parceria com a Deloitte Access Economics, da Austrália. O estudo se debruçou sobre a carga econômica de quatro principais doenças cardíacas no Brasil: hipertensão, insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio e fibrilação atrial.

Em relação à mortalidade por doenças cardiovasculares, o Brasil ainda segue com mortalidade alta se comparado a alguns países desenvolvidos em que já foi constatada a redução da mortalidade por esse tipo de doença nos últimos sessenta anos. Segundo o presidente da Sociedade Paranaense de Cardiologia e diretor geral da Quanta Diagnóstico e Terapia, Dr. João Vítola, isso aconteceu porque alguns países mais ricos do mundo já entenderam como gerenciar fatores de risco para a doença arterial coronariana (DAC), como mudanças no estilo de vida e prevenção, associado a uma forma de abordagem médica abrangente, com uso apropriado de tecnologia para guiar o tratamento.

“Em um cenário de custos crescentes, a otimização de recursos é imperativa em qualquer país”, afirma o Dr. Vitola. “Muitos países com mortalidade alta por DAC usam pouco a tecnologia de imagens cardíacas não invasivas, para prejuízo da população, pois o uso otimizado dessas tecnologias podem selecionar melhor os pacientes para procedimentos mais invasivos como cirurgias, além de contribuir para orientar um tratamento com medicações que comprovadamente reduzem a mortalidade.” Para ele, no Brasil, o uso apropriado da imagem cardíaca e o atendimento com gestão baseada em diretrizes podem ajudar a melhorar a expectativa de vida e a diminuir o ônus econômico que as doenças do coração representam sobre os indivíduos e o país em geral.

Escute o Seu Coração

Dr. João Vitola destaca que alguns exames de imagem, simples e de baixo custo, como o escore de cálcio coronariano, por exemplo, detectam em fase prematura a aterosclerose coronariana, o que pode levar a um tratamento preventivo mais intenso e ajudar a salvar vidas. Curitiba foi a primeira cidade do mundo a implementar esse exame, em nível populacional, para pacientes de risco intermediário como parte do programa Escute Seu Coração. O programa foi citado em um artigo no Journal of Nuclear Cardiology [Jornal de Cardiologia Nuclear], única publicação científica no mundo dedicada a essa especialidade desde 1994: A need to reduce premature CV mortality in the developing world: How could appropriate use of non-invasive imaging help? (É preciso reduzir a mortalidade prematura por doenças cardiovasculares no mundo em desenvolvimento: como o diagnóstico por imagens não invasivas pode ajudar?). Dr. Vitola é também consultor da Agência Internacional de Energia Atômica e da Sociedade Americana de Cardiologia Nuclear.

Entre outras iniciativas, o programa Escute Seu Coração (em inglês chamado de Curitiba Heart Project), que visa combater mortes prematuras, aquelas ocorridas em pacientes com menos de 70 anos, por doenças cardiovasculares, prevê que pacientes que não apresentam sintomas de doenças vasculares e estejam com idade entre 40 e 69 anos, no caso dos homens, e com idade entre 50 e 69 anos, no caso das mulheres, e apresentem determinados resultados de exames clínicos, sejam submetidos ao exame de escore de cálcio. Dependendo do resultado, esses pacientes são encaminhados para tratamento fornecido pelo SUS. “Temos encontrado alguns pacientes do programa Escute o Seu Coração que apesar de ainda não apresentarem sintomas tem sido identificados como de alto risco cardiovascular pelo exame de escore de cálcio”, contou Vitola. Segundo ele, graças a esses resultados o tratamento pode ser intensificado, tendo uma atenção especial para reduzir o risco de morte. Exemplos como esses são citados no artigo publicado no Journal of Nuclear Cardiology.

Dados da OMS sobre mortalidade por doenças cardiovasculares nos países de baixa e média renda

• Estima-se que 17,7 milhões de pessoas morreram de doenças cardiovasculares em 2015, representando 31% de todas as mortes no mundo. Dessas, estima-se que 7,4 milhões foram devidos a doença arterial coronariana e 6,7 milhões, a acidente vascular cerebral.

• Mais de três quartos das mortes por doenças cardiovasculares ocorrem em países de média e baixa renda.

• Dos 17 milhões de mortes prematuras (abaixo de 70 anos) devido a doenças não transmissíveis em 2015, 82% estão em países de média e baixa renda, e 37% são causados, ​principalmente, ​por doenças cardiovasculares.

• A maioria das doenças cardiovasculares pode ser prevenida pelo controle de fatores de risco: tabagismo, alimentação não saudável, obesidade, inatividade física e uso nocivo de álcool, com estratégias de prevenção para toda a população.

• Pessoas com doenças cardiovasculares ou alto risco cardiovascular (devido à hipertensão, diabetes, hiperlipidemia ou doença estabelecida) precisam de detecção precoce e gestão com orientação e medicamentos.

• Pessoas em países de média e baixa renda geralmente não têm o benefício de programas integrados de atenção primária à saúde para detecção e tratamento em comparação com as pessoas em países de renda alta.

• Pessoas que vivem em países de média e baixa renda e sofrem de doenças cardiovasculares têm menos acesso a cuidados de saúde eficazes e serviços igualitários. Assim, as doenças cardiovasculares são detectadas tardiamente e as pessoas morrem mais jovens, muitas vezes em seus anos mais produtivos.

• As pessoas mais pobres, nos países de baixa renda, são as mais afetadas. Estão surgindo evidências suficientes para comprovar que as doenças cardiovasculares contribuem para a pobreza ao afetar a economia doméstica pelo aumento catastrófico das despesas pessoais e com saúde.

• Em nível macroeconômico, as doenças cardiovasculares sobrecarregam a economia dos países de baixa e média renda.

Em 2013, 194 países membros da OMS assinaram um acordo sobre mecanismos para reduzir doenças não transmissíveis, incluindo o “Global action plan for the prevention and controlo d NCD’s” (Plano de ação global para prevenção e controle de doenças não transmissíveis), com objetivo de reduzir mortes prematuras por doenças não transmissíveis em 25% até 2025, baseado em nove objetivos. Dois deles se concentram diretamente em prevenir e controlar as doenças cardiovasculares.

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