Sarampo e gripe desafiam as estatísticas de saúde brasileiras

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Grande parte das ações do pediatra está embasada num ditado bem antigo: “É melhor prevenir do que remediar”.

Entre as principais ações preventivas para uma infância saudável estão um pré-natal adequado, um parto adequado (de preferência via vaginal ou “normal”), aleitamento materno desde a sala de parto, exclusivo e em livre-demanda até o 6º mês, complementado, a partir de então, com alimentação saudável até 2 anos ou mais e a vacinação de acordo com os calendários oficiais do Brasil (público e/ou privado).

Essas informações estão constantemente sendo veiculadas por fontes de informação confiáveis: Organização Mundial de Saúde, Ministério da Saúde, Sociedade Brasileira de Pediatria e as suas filiadas.

“Mas, infelizmente, essas recomendações embasadas cientificamente e comprovadas há décadas não sensibilizam de forma satisfatória a população brasileira (ou mundial).  Constantemente analisamos números. E as estatísticas não estão a nosso favor. Quero aproveitar estudos e artigos publicados nos últimos meses em revistas científicas para alertar aos pais sobre e temas importantes e atuais: sarampo e influenza”, afirma o pediatra e homeopata Moises Chencinski.

Sarampo

Um pouco sobre a história do combate ao sarampo no Brasil, que já foi a maior causa de mortalidade infantil em nosso país (há cerca de 40 anos) e que ainda hoje pode matar, especialmente quem não foi vacinado.

1972: Início do Programa de Vacinação Anti-Sarampo.

1973: Em 18 de setembro, cria-se o Programa Nacional de Imunizações (PNI), junto com campanhas de vacinação contra o sarampo em diversos estados brasileiros.

1982: Mudança do esquema de vacinação contra o sarampo (passa-se a recomendar dose única, a partir dos nove meses de idade).

1992: Implantação do Plano Nacional de Eliminação do Sarampo, com campanha nacional de imunização de menores de 15 anos e da segunda dose da vacina contra sarampo, aos 15 meses, em todo o país.

1995: Primeira Campanha de Seguimento contra o Sarampo.

2000: Realização da Terceira Campanha Nacional de Vacinação Contra Sarampo de Seguimento, para a população de um a 11 anos, com cobertura de 100%. Último caso de sarampo autóctone do Brasil. Desde então, todos os casos de sarampo que apareceram no Brasil vieram de fora do país.

2001: No Brasil, 5.599 casos suspeitos de sarampo são notificados, dos quais apenas um é confirmado, importado do Japão.

2003: MS suprime a dose aos 9 meses e adota a Vacina Tríplice Viral (sarampo, caxumba e rubéola), aos 12 meses.

2016: Em 27 de setembro, Brasil recebe da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) o certificado de eliminação do sarampo.

2018: Em 30 de setembro, Brasil recebe notificação para reverter surtos de sarampo vindo de fora do país até fevereiro de 2.019 para não perder o certificado de eliminação do Sarampo.

2019: Após registrar casos de sarampo desde 2018, o Brasil perdeu a certificação de país livre da doença, conferido pela OPAS.

Mas isso não acontece só no Brasil. Segundo dados da OMS e da UNICEF, os casos de sarampo no mundo aumentaram 48,4% (229.068) entre 2017 e 2018, a partir de dados de 194 países da Organização Mundial da Saúde. Dez países, incluindo as Filipinas (15.599 – 548% e até 23 de fevereiro de 2019 já com 12.763 casos com 203 mortes) e Ucrânia (35.120 – 634% de aumento) e o Brasil (de 0 casos em 2017 para 10.262 em 2018) foram responsáveis ​​por quase três quartos do aumento total de casos de sarampo em 2018, segundo dados divulgados pela agência da ONU para crianças.

Atualmente, os Estados Unidos estão vivenciando, em parte pelos movimentos antivacina e pela não conscientização da população, surtos com mortes comprovadas pelo sarampo. De acordo com dados recentes do CDC, em fevereiro, os casos de sarampo em 2019 (127) já ultrapassaram os dados do ano de 2016 (86) e de 2017 (120).

“A vacina contra o sarampo (MMR) é muito eficaz. Uma dose oferece 93% de prevenção do sarampo se você entrar em contato com o vírus, enquanto que com duas doses essa proteção atinge níveis de de 97%. No Brasil, essa vacina é recomendada em duas doses. A primeira deve ser aplicada aos 12 meses (tanto em calendário público quanto no particular) com uma segunda dose pelo menos 30 dias depois (entre 15 e 24 meses de idade)”, informa o pediatra.

Em julho de 2018, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e a Sociedade Brasileira de Infectologia emitiram NOTA TÉCNICA CONJUNTA a respeito do sarampo, das recomendações de vacinação e dos cuidados a respeito da doença.

Em novembro de 2018, A SBP e a SBIm emitiram outra nota técnica conjunta, alertando pediatras sobre a situação do sarampo na região Norte do país com recomendações.

Em situações de surtos, medidas gerais de controle são fundamentais: aleitamento materno, evitar aglomerações (especialmente crianças pequenas) e vacinação. “A vacinação de rotina de crianças maiores, adolescentes e adultos que não tenham comprovação de vacinação prévia, deve ser fortemente incentivada. São considerados adequadamente imunizados aqueles que apresentarem duas doses da vacina contra o sarampo, com intervalo mínimo de um mês, acima de 1 ano de idade”, destaca o pediatra.

Gripe ou Influenza

“Gripe  não é resfriado. Assim como o sarampo, a gripe (Influenza) mata. Está chegando o momento de mostrarmos que nos preocupamos de fato, vacinando  crianças e todos os grupos de risco para a doença”, diz o pediatra.

Como todos sabem, sofremos no hemisfério sul a influência da influenza do hemisfério norte e enquanto lá a vacinação é feita no segundo semestre, aqui, no Brasil, ela é feita de rotina a partir de abril.

Começa nesta quarta-feira (10), em todo o país, a Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe. Nesta primeira fase, serão priorizadas crianças com idade entre 1 e 6 anos, grávidas em qualquer período gestacional e puérperas (mulheres até 45 dias após o parto). A escolha, de acordo com o Ministério da Saúde, foi feita por causa da maior vulnerabilidade do grupo.

A partir de 22 de abril, todo o público-alvo da campanha poderá receber a dose, incluindo trabalhadores da saúde, povos indígenas, idosos, professores de escolas públicas e privadas, pessoas com comorbidades e outras condições clínicas especiais, jovens de 12 a 21 anos sob medidas socioeducativas, funcionários do sistema prisional e pessoas privadas de liberdade.

De acordo com a recomendação da OMS, para 2019, as vacinas aplicadas no Hemisfério Sul incluem cepas do H1N1 com mudanças nas de H3N2 e na influenza do tipo B. Dois tipos de vacinas contra a influenza são aplicados. A trivalente, que protege contra três subtipos do vírus da gripe que mais circularam no último ano, é a ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a quadrivalente, que possui uma ampla proteção (acrescentando mais um tipo de Influenza B), na rede privada.

TRIVALENTE

(2 tipos para Influenza A e 1 tipo para Influenza B)

A/Michigan/45/2015 (H1N1) pdm09-like virus;

A/Switzerland/8060/2017 (H3N2)-like virus;

B/Colorado/06/2017-like virus (B/Victoria/2/87 lineage).

QUADRIVALENTE

(2 tipos para Influenza A e 2 tipos para Influenza B)

A/Michigan/45/2015 (H1N1) pdm09-like virus;

A/Switzerland/8060/2017 (H3N2)-like virus;

B/Colorado/06/2017-like virus (B/Victoria/2/87 lineage);

B/Phuket/3073/2013-like virus (B/Yamagata/16/88 lineage).

“Infelizmente, mesmo recebendo as informações de que a vacina é fundamental e que a gripe mata, ainda assim os índices de vacinação estão abaixo do desejado e os casos continuam aparecendo”, observa o pediatra.

Atualmente, nos Estados Unidos, as notícias apresentam situação de alerta. Em final de janeiro, com a piora da temporada de gripe, algumas escolas fecharam em pelo menos 12 estados americanos.

De acordo com o CDC, nos relatórios epidemiológicos de 25 de janeiro, a gripe se espalhou por 45 estados, com 24 mortes em crianças. Já no relatório de 8 de fevereiro, eram 48 os estados afetados. O CDC relatou 6.868 hospitalizações associadas à gripe confirmadas em laboratório a partir de 1º de outubro de 2018 até 9 de fevereiro, com seis mortes para a semana que terminou em 9 de fevereiro, elevando o número total de óbitos por gripe em crianças para 34 nesta temporada.

O informe epidemiológico do Ministério da Saúde para 2018 analisa casos de Síndrome Gripal (SG), de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e pela vigilância universal de SRAG. Houve 5.278 óbitos por SRAG e, entre esses, 1.381 (26,2%) confirmados para vírus influenza. O estado com maior número de óbitos por influenza em relação ao país é São Paulo, com 42,1% (581/1.381). Assim, existe a recomendação de vacinação para todos os grupos de risco. Vale ressaltar que a vacina é inativada (feita com partes do vírus morto), portanto, não tem como causar a doença.

O esquema de vacinação recomendado é:

·         Crianças de 6 meses a 9 anos de idade: duas doses na primeira vez em que forem vacinadas (primovacinação), com intervalo de um mês e revacinação anual;

·         Crianças maiores de 9 anos, adolescentes, adultos e idosos: dose única anual.

Há grupos com maior risco para a doença e que têm prioridade na vacinação. São eles:

·         Crianças de 6 meses a 5 anos de idade;

·         Gestantes;

·         Maiores de 60 anos;

·         Profissionais da Saúde;

·         Professores;

·         Pessoas de qualquer idade com doenças crônicas (como diabetes, doenças cardíacas e respiratórias, imunocomprometidos, entre outras);

·         População indígena e privada de liberdade.

“Sintomas como dor, vermelhidão e endurecimento no local da aplicação (15% a 20% dos vacinados) costumam ser leves e desaparecem em até 48 horas após a vacinação. Para aliviar esses sintomas pode-se aplicar compressas frias no local da aplicação, ou, em casos mais intensos pode-se usar medicação para dor, sob recomendação médica. Febre, mal-estar e dor muscular (1% a 2% dos vacinados) podem começar de seis a 12 horas após a vacinação e persistem por um a dois dias, sendo mais comuns na primeira vez em que tomam a vacina. Apenas em caso de quadro febril, não se deve aplicar a vacina, devendo ser adiada”, recomenda Moises Chencinski.

 Sinais e Sintomas  Resfriado  Gripe
Aparecimento dos

sintomas

Gradual Abrupto
Febre Rara Frequente por 3-4 dias
Dores Leves Frequente, severas
Calafrios Raros Muito comum
Cansaço Algumas vezes Comum
Espirros Common Às vezes
Tosse Leve a moderada, seca Comum, pode ser grave
Obstrução nasal Comum Às vezes
Dor de garganta Comum Às vezes
Dor de cabeça Rara Comum

 

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