Tecnologia blockchain pode ajudar a vencer barreiras da interoperabilidade (PARTE 1)

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Por Carol Gonçalves

É fato que as reformas no sistema de saúde não seguem a mesma velocidade que os avanços tecnológicos, isso acontece no mundo todo. No entanto, a interoperabilidade entre diferentes sistemas de informação – uma barreira que parecia intransponível – pode estar ganhando um novo aliado: a tecnologia blockchain.

O assunto é tratado no white paper “Tecnologia blockchain: dada a largada rumo aos Sistema de Saúde”, publicado pela Comissão Científica do HIMSS@Hospitalar 2017. Acompanhe a seguir o conteúdo editado desse material.

Blockchain (cadeia de blocos) é mais um neologismo que está avançando de forma disruptiva dentro das cadeias de valor. Trata-se de um modelo de banco de dados distribuído que armazena uma contabilidade permanente, partilhando o controle através de uma rede de participantes sem nenhum servidor central. Todos autenticam as informações de todos através de um registro digital único, cujo objetivo é fornecer a verificação do usuário e impedir sua “adulteração”. É um metassistema no qual toda a informação fica à disposição de terceiros (agências reguladoras, controladores de fraudes, entidades certificadoras de empresas e transações, etc.). Todos, enfim, participam como auditores das transações.

Quando uma nova transação é recebida, os “confirmadores” executam alguns algoritmos (existentes no software comum a todos) e avaliam o histórico-blockchain. Quando chegam a um consenso de que a transação é válida, permitem que ela seja aceita. Isso adiciona valor ao próximo bloco, que fará as mesmas checagens. Caso a maior parte dos confirmadores não reconheça a transação, ela é negada e não adicionada à cadeia. Esse modelo permite que o blockchain funcione como um registro distribuído, sem a necessidade de ter uma autoridade central “julgando” quais transações são válidas.

Essa “reação em cadeia”, que na realidade ocorre numa fração de segundos, anula ou valida um registro, certifica a operação e agrega confiabilidade e segurança ao ato que gerou a transação. Permitir que cadeias confirmadoras digitais verifiquem as transações elimina a necessidade de câmaras de compensação e outros agentes de verificação, o que, no mínimo, reduz significativamente os custos e os tempos transacionais.

A criptografia em escala, inclusa no “DNA” de cada um dos blocos, inibe que alguém mal-intencionado possa promover uma fraude ou introduzir rotinas danosas, como vírus, por exemplo, que são difíceis e custosas de sanar. A integridade criptográfica e a validação dos múltiplos nós dentro da engenharia blockchain protege contra hackers e cyber-attacks. Nada mais é do que uma técnica utilitarista, na qual a massa de informações promove mais credibilidade do que alguns poucos concentradores dela.

NA SAÚDE

Mas o que isso tem a ver com os sistemas de saúde? Tudo! Não há qualquer forma de resolver minimamente os problemas operacionais de qualquer sistema de saúde, público ou privado, sem o acesso seguro, sigiloso e efetivo às informações clínicas dos pacientes. Sem compartilhar, integrar e interoperar os dados médicos, vamos continuar praticando uma medicina de poucos para poucos.

Os registros de saúde (EHR, RES ou EMR), entre tantos problemas de implantação, sofrem de um mal comum: a não utilização de arquiteturas e padrões comuns para transferência segura de informações confidenciais. Entidades não confiam em entidades, que não confiam em médicos, que não confiam nos pacientes, que, por sua vez, não confiam em ninguém. Resultado: há meio século rastejamos em busca de soluções que desbloqueiem essa redoma de vidro.

O Brasil é um exemplo mastodôntico dessa realidade: temos um serviço de saúde fragmentado, desintegrado e, acima de tudo, desinformatizado. Ainda que existam ilhas de excelência utilizando, por exemplo, um prontuário médico eletrônico, este não é compartilhado com o resto da cadeia de saúde. Isso ocorre por dois motivos: falta de interoperabilidade dentro da cadeia e falta de compromisso dos players para desbloquear inúmeras barreiras culturais, comportamentais e mercadológicas.

A tecnologia blockchain pode ser uma poderosa resposta a uma miríade de problemas operacionais dos sistemas de saúde. Ela pode permitir armazenamento, manutenção, distribuição e transparência de registros clínicos, mantendo-os imutáveis, privados e seguros.

(Continua…)

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