Tecnologia blockchain pode ajudar a vencer barreiras da interoperabilidade (PARTE 2)

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Leia a primeira parte desta matéria em: portalhospitaisbrasil.com.br/tecnologia-blockchain-pode-ajudar-a-vencer-barreiras-da-interoperabilidade-parte-1

Por Carol Gonçalves

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Um sólido relatório produzido em 2015 pela Deloitte Consulting mostrou como esse contexto-tecnológico pode reinventar o ecossistema da saúde. “O blockchain poderia revolucionar as arquiteturas de troca de informações em saúde, mudando o tratamento da indústria de healthcare quanto aos registros médicos eletrônicos”, explicou Dan Housman, diretor-gerente da Deloitte, em artigo publicado em novembro de 2016 no The Wall Street Journal.

Enquanto numa ponta o volume de dados dos pacientes cresce de forma exponencial, noutra cresce a necessidade imperativa de interoperar esses dados com eficácia e segurança. Se o uso do prontuário eletrônico cresce em quase todas as instâncias, não cresce menos o seu armazenamento centralizado. Ilhas de dados médicos se multiplicam dentro de cada sistema de saúde, com instituições erguendo catedrais-repositórios individuais, que muitas vezes não se comunicam internamente e que possuem pouco intercâmbio de informações com outros players do sistema. Silos de dados clínicos monolíticos impedem a colaboração dentro e fora do ecossistema.

É muito animador trazer as tecnologias de Big Data e AI para a cadeia de saúde. Brilham nossos olhos, e somos projetados a um ambiente de grande expectativa. Ocorre que os mesmos olhos continuam a enxergar grandes dificuldades para ter essa massa de dados de forma segura (com todas as garantias de privacidade do indivíduo), disponível para um ambiente de Data Analytics.

Estudo publicado em 2016 pela Ark Invest e GEM avalia que “uma infraestrutura de EHR solidamente projetada facilitaria muito o compartilhamento de informações em saúde”. Segundo o documento, as partes autorizadas estariam protegidas, permitindo que os profissionais de saúde se envolvessem melhor com os pacientes, tomando decisões mais eficientes e precisas. O documento parte de uma premissa rotunda: “na indústria de healthcare, a informação não é privada, é proprietária”. E continua não menos assertivo: “um ecossistema de saúde totalmente interoperável ainda tem de ser montado e realizado, e ainda não foi porque os information rails são antiquados, não seguros e opacos para compartilhar dados. ‘Trilhos’ velhos e obsoletos tornam quase impossível para os softwares acompanhar a mudança tecnológica, assim como um trem bala não poderia correr nos trilhos enferrujados do século XIX”.

O estudo sustenta que a infraestrutura para o compartilhamento e interoperabilidade em saúde precisa ser suficientemente flexível para permitir o acesso instantâneo aos EHRs. Mas, da mesma forma, precisa oferecer segurança contra acesso não autorizado ou malicioso, sendo essa uma demanda tão importante que, segundo o documento, só pode ser resolvida com a tecnologia blockchain. “Usando blockchain, três características principais dos sistemas EHRs podem ser melhoradas: a imutabilidade dos dados, promovida através da integridade de arquivo; a cybersecurity via gerenciamento do acesso aos dados; e a interoperabilidade via controle colaborativo de versão”.

Além disso, a pesquisa apregoa que os pacientes poderiam monitorar suas próprias informações clínicas, aprovando, negando ou compartilhando alterações de seus dados, garantindo um nível alto de privacidade e envolvimento. Pesquisadores poderiam se beneficiar de uma melhor integridade e fiabilidade dos dados, criando uma platform of trust para a partilha de informações. As fontes pagadoras seriam beneficiadas pela melhoria na conciliação dos dados, reduzindo os erros e fraudes, sem falar na redução dos custos de processamento administrativo.

O interesse pelo tema é tão grande que o próprio governo dos EUA vem promovendo ações nessa direção. Um exemplo foi o desafio “Use of Blockchain in Health IT and Health-Related Research”, promovido pelo Office of the National Coordinator for Health Information Technology (ONC), com resultados publicados em setembro de 2016.

Mais de 70 projetos foram submetidos por indivíduos, organizações e empresas, abordando maneiras como a tecnologia blockchain pode ser utilizada na saúde. O alvo foi estudar como proteger, gerenciar e permitir a troca de informações eletrônicas.

Pesos pesados, como MIT Media Lab, Accenture, Deloitte, Humana, entre muitos, estão com equipes dedicadas a sair na frente dessa jornada. Quando todos apostavam em compartimentar o conceito de blockchain ao universo da moeda digital, eis que surge uma frenética corrida em direção aos desafios de privacidade, segurança e escalabilidade na gestão dos EHRs.

(Continua…)

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