Viabilidade de serviços de saúde passa por mudança na forma de remuneração

466

A necessidade de mudar a forma de remuneração pelos serviços foi o tema abordado no Seminário de Gestão – Tendências e Inovações em Saúde realizado na sexta-feira (3). A tendência é mudar o atual formato de pagar por volume – ou seja, uma cirurgia, uma consulta, uma diária – por desfecho clínico. Essa mudança vai acarretar que se defina o que é desfecho para cada tipo de atendimento. O benefício dessa alteração é fazer uso mais racional dos recursos, com a tendência de se reduzir procedimentos desnecessários. O modelo atual pode favorecer a realização de mais exames e maior tempo de internação, por exemplo, para aumentar a remuneração.

Realizado pelo Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (SINDIHOSPA), Federação dos Hospitais do Rio Grande do Sul (Fehosul) e Associação dos Hospitais do Rio Grande do Sul (AHRGS), o evento teve como tema ”Performance, resultados e valor em saúde”.

Otimização dos recursos

Na palestra de abertura, o médico Renato Couto, da IAG Saúde/MG, mostrou que o problema na saúde no Brasil não é a falta de dinheiro, mas o desperdício na gestão dos recursos. Parte dessa realidade tem relação com o modelo remuneratório entre operadoras e hospitais.

Couto apresentou a metodologia DRG Brasil, que reúne pacientes em grupos. Com 26 anos de experiência em gestão hospitalar, o médico disse que o uso adequado de recursos garante uma medicina de qualidade. “O DRG é uma metodologia com o foco no paciente”, afirmou.

Gestão para melhorar os resultados

A médica sanitarista Denise Schout, diretora corporativa acadêmica da Associação Congregação Santa Catarina, com sede em São Paulo e unidades em diversos estados, apresentou a palestra “Indicadores de desfechos clínicos”. Conforme a especialista, o desafio do sistema de saúde é ter organização e gestão para garantir efetividade e segurança no atendimento de pacientes. ”Um tempo maior de internação por uma falha na gestão resulta em menos acesso para outros pacientes”, disse Denise, que durante 12 anos foi coordenadora do Projetos Melhores Práticas da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp).

Um levantamento entre hospitais federais no país, e apresentado na palestra, constatou que o maior tempo de internação está em unidades no Rio de Janeiro. Segundo Denise, se houvesse a possibilidade de diminuir em um dia a internação de cada paciente, a oferta de leitos aumentaria 20% sem precisar ampliar a estrutura atual.

Lições do modelo holandês

Diretor do Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde (ComSaúde) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Eduardo Giacomazzi tratou do tema ”Informação que gera valor em saúde”. Ele destacou a importância do uso de indicadores para a segurança do paciente e o impacto nos orçamentos hospitalares. Giacomazzi falou sobre um modelo adotado em hospitais na Holanda que proporcionou redução de custos e melhoria no atendimento ao paciente.

O sistema de saúde do país, que possui área territorial igual ao estado do Rio de Janeiro, foi considerado o melhor da Europa pelo quinto ano seguido. “A Holanda vem investindo na área e, ao mesmo tempo, economizando, porque registra redução no tempo de internação e a necessidade de comprar menos medicamentos”, disse Giacomazzi.

Com especialização em gestão da inovação, o palestrante salientou que não basta ter dados sobre pacientes se não são usados para melhorar processos. Ele se disse preocupado com o fato de médicos terem de dedicar 40% de seu tempo para a inserção de dados em planilhas eletrônicas. No caso da área assistencial, essa atividade consome 60% do tempo. “Se não está se fazendo nada com os dados, perdemos tempo e dinheiro”, enfatizou.

Na parte final da sua palestra, Giacomazzi comentou que, no Brasil, os gastos em razão de eventos adversos em pacientes chegam a R$ 10,9 bilhões anuais. ”Sempre se diz que precisamos de R$ 30 bilhões para construir novos hospitais. Um terço pode vir daí, com a redução no número de eventos adversos”, comparou.

Desafios do envelhecimento populacional

Para encerrar a programação, Fabrício Campolina, coordenador do Grupo Valued-Based Care do Instituto Coalizão Saúde, trouxe um dado preocupante na palestra “Modelos de remuneração baseados em valor”. Conforme ele, hoje o Brasil investe 9,5% do PIB em saúde. Com o envelhecimento da população, em uma década essa proporção tende a saltar para 27,5%. “Para evitar esse impacto, é importante a adoção da forma de remuneração por valor”, afirmou.

Campolina explicou que isso não é exclusivo do Brasil. Diferentes países estão incorporando esse modelo porque os custos podem inviabilizar os sistemas de saúde. ”Se a adoção vai acontecer daqui a três ou 10 anos, eu não sei. Mas vai acontecer”, enfatizou.

Conforme ele, o modelo atual é mais fácil de operacionalizar. Quando passar para a remuneração por desfecho clínico, será preciso codificar o que isso significa em cada tipo de procedimento. “A alta gestão já entendeu que a forma atual é insustentável. Então todos estão comprometidos com essa evolução no sistema”, completou.

Presidente do SINDIHOSPA, Henri Siegert Chazan, apontou que o tema tem papel central na gestão da saúde. “A boa performance das instituições, a excelência nos serviços e a verdadeira humanização no atendimento só serão garantidos quando os resultados derem fôlego a investimentos em qualificação profissional e inovação”.

A próxima edição do Seminário de Gestão será em 18 de outubro, tratando da ”Saúde digital e a telemedicina”.

Deixe seu comentário