Artigo – Medicina Nuclear: muito além da aplicação diagnóstica

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Desde sua primeira aplicação no início do século XX, a medicina nuclear não parou de evoluir. Inicialmente mais utilizada para a detecção e diagnóstico de lesões, ao longo dos anos ela vem ganhando cada vez mais notoriedade em terapias utilizando compostos radiomarcados.

Especialmente no tratamento com radioiodo do câncer da tireoide, linfoma e tumores sólidos com anticorpos monoclonais estão: a introdução de hormônio recombinante e estimulador da tireoide, possibilitando aumentar a captação de iodo, fato que mudou o protocolo de tratamento em pacientes com câncer de tireoide. Também os monoclonais radiomarcados proporcionaram opções de tratamento adicionais em pacientes com linfoma maligno e uma abordagem semelhante revela-se em pacientes com tumores sólidos. Além disso, o uso de sementes radiomarcadas que visam receptores específicos em células tumorais tem possibilitado a aplicação de doses radioativas mais assertivas nos tumores de pacientes com a doença disseminada.

Entre muitos outros exemplos, ainda podemos contar com os derivados de somatostatina radiomarcados, para o tratamento de tumores neuroendócrinos; o cloreto de rádio 223, para o tratamento de pacientes com câncer de próstata resistente a castração com metástases ósseas sintomáticas e sem metástases viscerais conhecidas; o gálio 68 e lutécio, usados também para o diagnóstico e tratamento de câncer de próstata.

Todos contribuem para transformar e – por que não dizer? – facilitar o acesso à medicina nuclear no Brasil, nem sempre vista como a radiação do bem e, por isso, com uso sempre limitado.

Diante de tão expressiva contribuição, é chegada a hora de assumir que a medicina nuclear vai muito além de uma técnica diagnóstica em constante evolução para detecção de lesões. As novas modalidades de tratamento que têm sido introduzidas na prática clínica com expressivo desenvolvimento da aplicação de terapêutica com radionuclídeos juntam-se, agora, à revolução em medicina de precisão, caracterizando a biologia do tumor e dirigindo o tratamento através de marcadores altamente específicos.

Nesse sentido, o termo melhor aplicado à medicina nuclear hoje é o teranóstico, que encapsula a integração de diagnósticos e a terapêutica no manejo individualizado da doença, onde a suposição de que os resultados dos testes podem determinar com precisão se um indivíduo é susceptível de se beneficiar de um tratamento específico tem sustentado o desenvolvimento de novos fármacos para o diagnóstico complementar.

Não há dúvidas de que a medicina nuclear está idealmente posicionada para desempenhar um papel central na terapêutica possibilitando a visualização de alvos moleculares e permitindo, assim, a chamada imuno-histoquímica in vivo, através da qual os biomarcadores não invasivos podem ser fornecidos para selecionar medicamentos-alvo.

Infelizmente, contudo, o freio destas inovações está, ainda, na perceptível falta de dados de ensaios controlados randomizados, comparando terapias de radionuclídeos com outras formas de terapia, bem como a total ausência de testes que permitam a abordagem integrada à teranóstica. Especificamente no Brasil, a situação se agrava ainda mais, já que, além da ausência de pesquisa, a medicina nuclear também tem de enfrentar as excessivas barreiras regulatórias, a falta de empresas voltadas a este mercado e o elevado custo para seu incremento.

Assim, para garantir que tais aplicações no Brasil sejam desenvolvidas em um ambiente científico rigoroso, que defina as melhores janelas terapêuticas, otimize o direcionamento de tumores e o fornecimento radiofarmacêutico, é fundamental que haja, não só uma colaboração mais ativa entre as diferentes disciplinas implícitas no estudo, como também a adequação dos requisitos regulatórios e a flexibilização de mercado com a redução das cargas nele impostos. O crescimento da utilização da medicina nuclear brasileira depende disso.

 

 

Beatriz Leme é economista, consultora na área econômica e de mercado na Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear e executiva-chefe de Serviços de Diagnósticos por Imagem

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