Dra. Silvia Regina Brandalise: uma leoa com aura de anjo

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Por Carol Gonçalves

Uma das especialistas em câncer infantil mais conhecidas no exterior, considerada a melhor da América Latina, a Dra. Silvia Regina Brandalise é daquelas pessoas que encantam, capazes de transformar a vida não só das crianças que trata e seus familiares, mas também daqueles que simplesmente a veem falar. Sua história já foi contada em muitas entrevistas: o medo de enfrentar o câncer infantil no começo da carreira, o ponto fraco de não poder ver ninguém chorando, ter descoberto uma doença que acabou levando seu nome: Síndrome Brandalise e outros fatos curiosos. Sem falar na extensão de seu currículo: tem doutorado em Pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, é membro fundador e presidente do Centro Infantil de Investigações Hematológicas Dr. Domingos A. Boldrini, de Campinas (SP), foi presidente do Continente Sul-Americano da Société Internationale d’Oncologie Pédiatrique e membro da American Society of Pediatric Hematology and Oncology, foi professora do Departamento de Pediatria da Unicamp, recebeu 121 prêmios e reconhecimentos no Brasil e no exterior, publicou dezenas de artigos em periódicos especializados em onco-hematologia pediátrica como autora e/ou coautora, possui 87 publicações e 172 resumos apresentados em Congressos Nacionais e Internacionais, é parceira de várias entidades e membro de diversos grupos de pesquisa. Nesta entrevista, vamos saber, entre outros assuntos, o que a médica está fazendo atualmente, como é sua rotina, as lições que aprendeu com as crianças que trata, a passagem mais marcante de sua carreira e o que prefere fazer nos momentos de lazer.

Como é seu dia a dia?

Muito rico. No período da manhã, tenho contato com os novos médicos que fazem estágio no Boldrini, discutindo os casos clínicos. Muitas vezes, atendo pessoalmente os pacientes no ambulatório. Pela proximidade da minha residência, sempre almoço em casa. No período da tarde, além de ir a reuniões clínicas, participo das rotinas diagnósticas no Laboratório da Hematologia. Os assuntos administrativos me consomem cerca de uma hora por dia.

Com quais atividades está envolvida no momento?

Com a redação de dois novos projetos de pesquisa clínica: um estudo na área da doença falciforme e outro relacionado ao novo Protocolo de Tratamento da Leucemia Linfoblástica Aguda.

Quais os mais recentes avanços no tratamento de leucemia?

Eles estão direcionados ao sequenciamento genômico massivo, ao campo da imunologia e estudos do proteoma, metabolômica e às terapias alvos e personalizadas, conforme o farmacogenoma de cada paciente.

Sobre o medicamento chinês LeugiNase, usado no tratamento da leucemia linfoide aguda, qual sua avaliação de toda essa polêmica?

O LeugiNase traduz para o nosso país a mais absoluta irresponsabilidade dos gestores em trazer um medicamento somente testado em animais de experimentação. Para a China, é a certeza de que o Brasil ainda é povoado pelos tupiniquins. Não há polêmica sobre isso. Há várias certezas de improbidades administrativas, como também, de expressiva quantidade de impurezas. Este é um produto bruto, que necessita ser purificado e, posteriormente, testado em estudos clínicos prospectivos, sistematizados e devidamente monitorados, conforme as normas técnicas internacionalmente recomendadas, incluindo a publicação em revistas técnico-científicas indexadas. Estas tarefas, entretanto, são de total responsabilidade do laboratório produtor, de Pequim.

Cite uma passagem marcante de sua trajetória profissional.

Talvez o episódio mais marcante tenha sido vivenciar a tentativa de suicídio de um garoto chamado Amilton de Lima, de cerca de 10 anos de idade. Ele tinha apresentado uma recaída da leucemia linfoide aguda. Estava internado na Santa Casa de Campinas, num quarto de isolamento. Decidiu não mais viver, cortando os seus pulsos. Indagado sobre os motivos, me respondeu sobre a feiura do seu quarto de internação, além do sofrimento ao ver a mãe dormindo no chão. Foi com enorme emoção que lhe prometi fazer um hospital especializado em leucemia, onde cada quarto teria uma janela para a criança ver o céu, o sol e as plantas do jardim. As mães também teriam um quarto com cama. Ninguém mais dormiria no chão. Eu não tinha ideia do que estava prometendo. Anos após, nasceu o primeiro prédio de internação do Hospital Boldrini. O Amilton já havia falecido, mas sua mãe teve a felicidade de constatar a promessa cumprida.

Quais as recentes novidades do Centro Infantil Boldrini?

A inauguração do Instituto Zeferino Vaz, de Engenharia Celular e Molecular, ainda neste segundo semestre de 2017.

Que profissionais foram fundamentais em sua trajetória?

Os que mais influenciaram na minha formação foram os professores da Escola Paulista de Medicina, com destaque para Jairo Ramos, da Clínica Médica; Pimenta, neurocirurgião; e Silvio Carvalhal. Eles me ensinaram como raciocinar através das histórias clínicas, interpretar os exames laboratoriais, anatomopatológicos e de imagem, sempre buscando, pessoalmente, interpretar cada achado. Depois, verificavam se os laudos batiam com os meus diagnósticos. Aprendi, assim, a argumentar, discordar, concordar ou acrescentar frente aos outros especialistas.

Como sua vida profissional e pessoal se entrelaçam?

Elas se mesclam harmonicamente. Interessante foi o momento da aposentadoria, em março de 2013. Não queria sair da Unicamp. Mas, sendo compulsória (aos 70 anos), tive de retirar todos os “penduricalhos” do mundo acadêmico: os cargos, os títulos, o currículo, enfim, coisas que alimentam o nosso ego. Me deparei, então, comigo mesma: desprovida da aura de ser professora de uma das melhores universidades do país. Foi aí que encontrei a essência da minha vida pessoal: a Medicina. Aquela prática assistencial que me traz um profundo prazer ao auxiliar o próximo. Cada sorriso ou abraço da criança ou da sua mãe nos enche de graça. E, sem esperar, os alunos da graduação da Medicina e outras áreas da saúde, espontaneamente, buscaram uma fonte de aprendizado no Boldrini, me fazendo descobrir outra essência da minha vida: o compartilhar as experiências vividas. Assim, hoje estou aposentada e sem emprego. Todavia, meus dias são muito mais ricos de alegria e encanto.

Que mensagem você gostaria de deixar para os jovens médicos?

Para sempre olharem para a Medicina como uma paixão! Ela não pode ser sentida como um emprego.

Quais os valores transmitidos por seus pais que até hoje a acompanham?

A verdade, a ética, a cidadania, o respeito pela vida, fazer o melhor em tudo a que se propõe ou realiza. Amar o próximo e compartilhar.

Quais as maiores lições que você aprendeu com as crianças que trata?

Com as crianças aprendi a ser corajosa, ter esperança e fé em Deus. Aprendi, também, que a beleza, a alegria, a poesia, a música e o sorriso transformam nossa dor, tornando-a mais suportável.

O que gosta de fazer nos seus momentos de lazer?

Gosto de ler e estudar.

Quais seus planos para o futuro?

Já tenho estruturado alguns projetos, inclusive com os layouts arquitetônicos. São eles: construir o Instituto de Engenharia Celular e Molecular, criando um Fundo Patrimonial perene, para financiamento das pesquisas voltadas ao câncer da criança e do adolescente; construir e equipar um serviço de Protonterapia, uma nova modalidade da radioterapia; construir um Centro de Inserção Social dirigido aos pacientes portadores de doenças crônicas; construir um borboletário nas proximidades do hospital que permita que as crianças brinquem e passeiem no seu interior; e construir um Hospital da Criança voltado para doenças complexas (não câncer nem doenças hematológicas). Acho inaceitável uma região como Campinas não ter um “Children’s Hospital”.

Em minhas pesquisas, vi muito seu nome associado à palavra “anjo”. O que você acha desse “título”?

Considero inadequado. Me sinto mais próxima da figura da leoa: calma, atenta, mas que cuida ferozmente dos seus filhotes!

Matéria originalmente publicada na Revista Hospitais Brasil edição 86, de julho/agosto de 2017. Para vê-la no original, acesse: portalhospitaisbrasil.com.br/edicao-86-revista-hospitais-brasil

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