Gestores hospitalares apontam que evolução digital é o caminho para a eficiência financeira

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O 2º Simpósio de Gestão Hospitalar de Mato Grosso, realizado em 4 e 5 de maio, em Cuiabá, abordou a gestão econômico-financeira com foco nos processos e resultados da gestão de custos e produtividade. A explanação foi mediada pelo médico José Henrique Germann, diretor de Consultoria e Gestão do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo (SP).

A implantação de procedimentos modernos e tecnológicos foi citada como fonte de redução de custos no gerenciamento da dispensa de medicamentos do Hospital Santa Rosa, conforme relatou o gerente de suplementos Cristiano Cardoso. “Em 2011 fizemos um mapeamento dos processos e percebemos que alguns procedimentos aumentavam as despesas, por serem realizados de forma analógica, entre os quais a dispensa de medicamentos”, disse.

Cristiano Cardoso ponderou que a gestão dos procedimentos internos da unidade hospitalar com o uso de novas ferramentas tecnológicas é capaz de mitigar os efeitos contraproducentes do deficit logístico, que por sua vez reflete no cumprimento adequado das demandas.

TRANSFORMAÇÃO DIGITAL – Para o CEO da Bionexo, empresa que atua na área de gestão de saúde, Maurício de Lázaro Barbosa, existe uma mudança mental na sociedade contemporânea. “A forma de pensar e agir está sendo completamente transformada pelas inovações digitais. Na gestão hospitalar não é diferente. Precisamos abandonar o modelo de gestão do século passado e passar a olhar para os desafios do hoje com as possibilidades e vantagens que as mudanças digitais proporcionam”, comenta.

Barbosa pondera que mesmo os profissionais que fazem parte da geração que ainda não tinha a tecnologia como parte do cotidiano estão sendo “empurrados” de alguma forma para o mundo da tecnologia.

“Todas as entidades que não nasceram digitais vão buscar o caminho da transformação digital. A geração contemporânea já é nativa digital. Os hospitais não nasceram digitais, mas vão ter que se transformar”, ressalta Barbosa.

Já o diretor geral do Sistema de Saúde Mãe de Deus, do Paraná, Alceu Alves da Silva, destacou que a eficiência financeira da gestão hospitalar precisa eliminar o abismo entre a gestão assistencial e a gestão econômica dos hospitais.

“As duas áreas precisam tomar consciência da reciprocidade e interdependência que possuem para o bom funcionamento do hospital. Quando isso fica claro na realização dos procedimentos cotidianos, a eficiência acontece”, pontua Silva.

FOCO NO PACIENTE – Se na área da saúde prudência é requisito básico, hoje as acreditações e certificações passam a partilhar esta base. Foi o que evidenciou o eixo “Gestão Assistencial: Processos e Resultados da Gestão do Cuidado do Paciente”.

Para o professor Miguel Cendoroglo Neto, diretor superintendente do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, esta busca por metodologias de excelência fazem parte de um processo que objetiva a prestação de uma assistência adequada aos pacientes.

“Elas são o piso da qualidade que o paciente merece. E ainda podem ir além: formando pessoas que possam vir a disseminar essa cultura e conhecimento em novos projetos”, destaca Cendoroglo Neto.

Segundo a gerente de práticas assistenciais do Hospital Santa Rosa, Amanda Greipel, essas acreditações e certificações simbolizam mudanças essenciais para a evolução da assistência. Ela cita os programas instituídos dentro da instituição que seguem neste sentido como, por exemplo, o programa “Cuidado Centrado no Paciente”.

“Nós ampliamos a visão do ‘cuidar’ por meio de uma nova ótica. Além de ser para o paciente, ele passou a ser feito com o paciente – envolvendo-o no processo. Instigamos e incentivamos ele a aderir ao conceito e questionar mais. Fazendo perguntas como ‘esse é o meu diagnóstico?’, ‘quais exames devo fazer e por qual motivo?’, ‘você lavou a mão hoje?’, entre outras”, explica Greipel.

Para o moderador Ary Costa Ribeiro, o superintendente comercial e de serviços ambulatoriais do Hospital do Coração (HCor), tudo isso também faz parte de uma mudança no foco de poder nas instituições.

“Hoje e daqui para frente, os modelos não estão voltados para quem faz a gestão. Eles são feitos por meio da transferência, dos atores desde lá da ponta chegando ao paciente. Essa é a barreira que devemos incorporar”, pondera Ribeiro.

COMPLIANCE – A crescente preocupação em relação à ética e transparência na área da saúde, que deve levar em conta as diversas formas de relacionamentos entre os agentes envolvidos e os prestadores de serviços do setor, guiou a palestra magna “A Contribuição dos Programas de Compliance para a Sustentabilidade das Organizações”.

De acordo com a diretora de riscos, auditoria e compliance do Hospital Israelita Albert Einstein, Viviane de Souza Miranda, o compliance pode contribuir para melhorar os sistemas já impostos. Para tal, é preciso levar em conta o cenário atual que demonstrar que o dinheiro do setor de saúde está acabando e as operadoras de saúde, por exemplo, estão sofrendo seus reflexos.

“Apesar disso, na crise, existe oportunidade. Ela desencadeia ações que demorariam muito para serem implementadas. Conseguimos melhorias de ambientes e processos por conta delas. Sem contar que as crises vão aparecer e precisamos tirar proveito desses momentos. O primeiro passo em relação ao compliance já foi dado, que é o setor. Agora, é a vez dos executivos acharem importante e destinarem recursos e ações para que as coisas continuem a caminhar e acontecer”, reflete Miranda.

“Hospitais que priorizam apenas o resultado financeiro irão quebrar dentro de cinco anos”, avalia diretor executivo do Hospital Sírio Libanês

As novas tecnologias podem ajudar os departamentos de recursos humanos (RHs) a reunirem dados que traçam o perfil dos colaboradores, bem como o comportamento daqueles que melhor se adaptam à instituição – permitindo uma seleção mais assertiva e direcionando treinamentos para as necessidades individuais dos profissionais.

Buscando novas ferramentas e a atualização desses conceitos o 2º Simpósio de Gestão Hospitalar de Mato Grosso trouxe também o eixo “Gestão de Pessoas: Processos e Resultados de Programas de Atração, Retenção e Capacitação”.

Promovido pelo Hospital Santa Rosa, o simpósio tem como foco reunir gestores da área de saúde, empresários do segmento, médicos e estudantes de medicina. O objetivo é apresentar informações que visem auxiliar os gestores em suas relações comerciais, humanas, sociais e tecnológicas. Em sua segunda edição, o evento traz como tema “A Contribuição dos Modelos de Acreditação Hospitalar para os Resultados da Organização”.   

GESTÃO DE PESSOAS – De acordo com o economista e professor Fernando Torelly, diretor executivo do Hospital Sírio Libanês, pessoas informadas – em qualquer parte do processo – podem contribuir com a instituição. Contudo, esta “usina para gerar resultados” ainda não está sendo bem utilizada.

Fernando Torelly, Diretor executivo do Hospital Sírio Libanês

“Se você é bem atendido, você tende a voltar. A experiência do passado dirige o nosso consumo no futuro. Pessoas inspiradas e engajadas sustentam processos, que atendem as expectativas dos clientes e a empresa continua crescendo e ganhando dinheiro. Aliás, precisamos ter em vista que é no momento de crise que precisamos investir em qualidade. Hospitais que priorizam apenas o resultado financeiro irão quebrar daqui a cinco anos”, prevê Torelly.

Pensamento reiterado pela gerente de recursos humanos do Hospital Santa Rosa, Rosangela Martha Santos, que ressalta que este é um caminho a ser traçado tendo como base um “RH estratégico”. Já que, como pontuou a superintendente executiva do Hospital Santa Rosa, Mara Nasrala, o Brasil passa por um momento ímpar em que se cobra eficiência e redução de desperdícios.

“Este modelo irá contribuir com as estratégias e objetivos da instituição. Também precisamos cuidar de quem cuida. Valorizar as pessoas para que elas tenham em si o espírito de ‘cuidar’. Por meio de diversos programas, buscamos quedas na rotatividade e no absenteísmo, a retenção de talentos, melhorias no clima do hospital e nas taxas de custo-benefício, entre outros indicadores”, explica Rosangela Martha Santos.

DESAFIOS – Segundo a superintendente de qualidade e responsabilidade social do Hospital do Coração (HCor), Bernardete Weber, outro ponto que deve ser destacado diz respeito aos impactos das acreditações e certificações na gestão de pessoas – que deve ser avaliado junto aos desafios que as instituições enfrentam neste processo.

“Antes o foco no paciente era secundário na gestão, hoje isso mudou. Visamos difundir um cuidado integrado. No entanto, uma das maiores dificuldades que enfrentamos é a distância entre o processo educativo formal dos profissionais e as demandas das instituições de saúde. A velocidade do conhecimento na atenção na saúde diverge do que se é praticado nas academias. Cabe aos gestores o papel de trazer para eles a ‘escola da prática'”, pontua Weber.

SAÚDE DO FUTURO – Se por um lado as tecnologias e a educação continuada representam um grande avanço para a gestão de pessoas, o presidente do Conselho de Administração da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp), Francisco Balestrin, enfatiza que não podemos perder a essência do olhar humanizado.

“A assistência à saúde ficou cínica. Estamos nos focando demais em tecnologia ou em nós mesmos – os profissionais da área. Temos que ter o cliente como objetivo. As pessoas entram no hospital e notam três coisas: pessoas, equipamentos e tecnologia de informação. Precisamos de assistências mais humanizadas e propiciar acolhimento. A propósito, a assistência ainda tem sido tratada de forma verticalizada. O novo modelo, do futuro, propõe uma horizontalidade no processo”, contextualiza Baletrin.

Balestrin ainda complementa que discussões acerca da união dos setores de saúde público e privado devem ser valorizadas. “Há uma catarata ideológica na saúde. Não enxergar que o desenvolvimento das instituições se dará pela comunhão entre o sistema público e privado é ter uma visão do século 19. A região da Catalunha, na Espanha, já é um bom exemplo do que pode ser feito a partir da união desses dois setores”, ressalta.

ACREDITAÇÃO – O Santa Rosa é o único hospital do Centro-Oeste certificado pela Acreditação Canadense, nível Diamond – uma das principais certificações de qualidade em saúde no mundo. A instituição também é certificada em Excelência, Nível III, pela Organização Nacional de Acreditação (ONA).

“Desde a abertura do Santa Rosa, há 20 anos atrás, temos como foco um grande objetivo: o paciente, pelo qual temos muito respeito. Uma gestão ética, transparente, inovadora e com compliance são bases que devemos seguir”, comenta o diretor presidente do Hospital Santa Rosa, José Ricardo de Mello.

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