Hospitais de transição ganham espaço em vista à nova realidade social (PARTE 1)

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Por Carol Gonçalves

Já não é novidade que o envelhecimento da população impacta e vai impactar ainda mais os serviços de saúde. Em 2016, apenas 11% dos brasileiros estavam acima dos 60 anos, mas em 2030, este número subirá para 34%.

Segundo o Dr. Carlos Alberto Chiesa, diretor-presidente do Placi, esse fato gera um novo perfil epidemiológico em que predominam doenças crônico-degenerativas em uma população fragilizada pela idade avançada e pelas sequelas dos tratamentos recebidos. “Daí surge a necessidade de modelos assistenciais voltados para esse perfil, com oferta de cuidados prolongados, processos voltados para a necessidade do paciente e seu entorno, oferecidos por profissionais de saúde de formação diversas, estendendo-se à assistência social”, conta.

Conforme explica, o modelo “hospitalocêntrico” tradicional não está preparado para a extensão do cuidado. A população idosa e frágil necessita de um prazo maior para se recuperar, com técnicas de cuidados especializados, com objetivos de resgate de sua autonomia e melhoria na qualidade de vida. “É preciso organizar o fluxo dos indivíduos de acordo com suas necessidades, permitindo que cada um seja tratado no local certo, com recursos tecnológicos adequados e com equipe profissional preparada para aquele atendimento. É neste contexto que se inserem os cuidados de transição”, expõe o Dr. Chiesa.

De olho nessa realidade, o Ministério da Saúde brasileiro publicou uma portaria sobre cuidados prolongados em dezembro de 2012, definindo como objetivos de uma unidade dedicada dentro de um hospital ou de um hospital especializado a recuperação clínica e funcional, a avaliação e a reabilitação integral e intensiva da pessoa com perda transitória ou permanente de autonomia potencialmente recuperável e que não necessite de cuidados hospitalares em estágio agudo. “Este conceito já está implantado em países da América do Norte e Europa, alguns estruturados em grandes redes prestadoras deste modelo de assistência”, declara o diretor-presidente do Placi.

De acordo com o médico Yussif Ali Mere Júnior, presidente da Fehoesp – Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo, os hospitais de transição são uma ótima alternativa a pacientes que possuem um quadro estável, necessitando apenas de um cuidado extensivo para sua recuperação ou adaptação a sequelas decorrentes de processos clínico, cirúrgico ou traumatológico. “Estima-se que até 25% dos leitos hospitalares privados no Brasil estejam ocupados por internações de longa permanência, o que onera muito o sistema. Um hospital geral que possui leitos de alta complexidade tem custos altíssimos, e esses leitos devem ser direcionados aos pacientes que requerem cuidados intensivos. Sem contar que uma unidade geral, via de regra, não se encontra preparada para recuperar os pacientes”, opina.

Mere Júnior diz, ainda, que o hospital de transição possui menos recursos tecnológicos que hospitais gerais, porém conta com equipes humanizadas, que tratarão da reabilitação, dos cuidados paliativos – se for o caso – e de toda a assistência necessária.

Para o Dr. Chiesa, apesar da concepção lógica deste modelo, ainda é preciso conscientizar todos os atores do cenário da saúde sobre esta etapa do cuidado. “São necessárias articulações entre hospitais, operadoras de saúde e prestadores de serviços para realizar um trabalho educativo junto às famílias e pacientes, bem como uma compreensão maior do médico – como formador de opinião – da lógica de rede articulada, referenciada e integrada na assistência à saúde”, aponta.

(Continua…)

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