O clima seco e seus efeitos sobre a saúde

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Umidade relativa do ar, dispersão de poluentes, índice pluviométrico, reserva técnica da Cantareira são alguns dos termos muito ouvidos nos últimos dois meses nas ruas de São Paulo, todos resultando em preocupações e problemas de saúde com os quais a população da cidade e do Estado convive diariamente.

Sintomas como dores de cabeça, nariz entupido e ressecado, sangramento nasal, olhos vermelhos e secos, crises de falta de ar (rinite, bronquite, laringite) estão prejudicando a saúde e a qualidade de vida de crianças e adultos.

Crianças e idosos são as faixas de população mais afetadas, gerando um aumento de 40% nos atendimentos dos prontos-socorros e consultórios médicos, principalmente os pediátricos, como consequência das alterações e crises respiratórias agravadas pela situação ambiental da cidade.

Alguns desses índices estão preocupando os especialistas e a divulgação de informações mais claras e práticas se fazem necessárias, tanto para a prevenção, quanto para a detecção e atuação precoces.

Umidade relativa do ar

Segundo informações do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências), esse índice (medido em porcentagem) significa o quanto de água na forma de vapor existe no ar, naquele momento, em relação ao total máximo que poderia existir, na temperatura observada.

A umidade do ar é mais baixa principalmente no final do inverno e início da primavera, no período da tarde, entre 12 e 16 horas, mas estamos em uma situação desfavorável já há pelo menos dois meses, muito antes do previsto.

O ideal, segundo a OMS, é que esse índice esteja acima de 60%, estando aceitável entre 30 e 60%. Quando os índices estão abaixo de 30%, adota-se uma escala que aponta os níveis de criticidade da umidade do ar, classificados em atenção, alerta e emergência. Assim, de acordo com cada nível, existem recomendações importantes que são divulgadas e devem ser seguidas para evitar problemas de saúde.

Entre 21 e 30% – Estado de Atenção

• Evitar exercícios físicos ao ar livre entre 11 e 15 horas;
• Umidificar o ambiente através de vaporizadores, toalhas molhadas, recipientes com água, molhamento de jardins, etc.;
• Sempre que possível permanecer em locais protegidos do sol, em áreas vegetadas, etc.;
• Consumir água à vontade.

Entre 12 e 20% – Estado de Alerta

• Observar as recomendações do estado de atenção;
• Suprimir exercícios físicos e trabalhos ao ar livre entre 10 e 16 horas;
• Evitar aglomerações em ambientes fechados;
• Usar soro fisiológico para olhos e narinas.

Abaixo de 12% – Estado de Emergência

• Observar as recomendações para os estados de atenção e de alerta;
• Determinar a interrupção de qualquer atividade ao ar livre entre 10 e 16 horas como aulas de educação física, coleta de lixo, entrega de correspondência, etc.;
• Determinar a suspensão de atividades que exijam aglomerações de pessoas em recintos fechados como aulas, cinemas, etc., entre 10 e 16 horas;
• Durante as tardes, manter com umidade os ambientes internos, principalmente quarto de crianças, hospitais, etc.

Segundo dados do CGE, enviados por e-mail, nos últimos 2 meses, a situação tem se mostrado progressivamente preocupante. Estamos vivendo em estado de atenção e em algumas localidades da cidade de São Paulo já foi atingido o estado de alerta (entre maio e junho).

Em julho, essa situação já se inverteu e tende a mudar novamente, em breve.
Entre os dias 1º de julho, quando a umidade relativa do ar (UR) variou entre 26 e 42%. No dia 9 de julho, quando a UR atinge a marca de 64% tivemos dias entre 30 e 50% de UR. Porém, as previsões para os próximos dias, com a queda da temperatura para cerca de 13º a 18º existe uma tendência de nova diminuição importante das chances de chuva. Os dados apontam para um longo período com poucas chances de chuva (até setembro) o que leva a riscos no abastecimento de água na cidade.

Reserva de água

A água que recebemos pelo nosso sistema de abastecimento provém de 5 sistemas de abastecimento:

Segundo dados do IDEC, a SABESP divide os sistemas de abastecimento por regiões:

Sistema Cantareira: responsável por 55% do abastecimento da região metropolitana do Estado de São Paulo é o maior da Região Metropolitana de São Paulo e o que mais tem nos preocupado recentemente. São tratados 33 mil litros de água por segundo destinados a 8,1 milhões de pessoas das Zonas Norte, Central e partes das Zonas Leste e Oeste da capital, bem como os municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Carapicuíba e São Caetano do Sul, além de parte dos municípios de Guarulhos, Barueri, Taboão da Serra e Santo André. O sistema é formado pelos rios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Juqueri (Paiva Castro);

Sistema Guarapiranga: é o segundo maior sistema de água da Região Metropolitana, localizado nas proximidades da Serra do Mar, com 14 mil litros de água por segundo e abastece 3,7 milhões de pessoas das Zonas Sul e Sudoeste da Capital;

Alto Tietê: o sistema trata 15 mil litros de água por segundo para atender 3,3 milhões de pessoas da Zona Leste da capital e dos municípios de Arujá, Itaquaquecetuba, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mauá, Mogi das Cruzes, parte de Santo André e dois bairros de Guarulhos (Pimentas e Bonsucesso);

Além desses, ainda temos ainda os sistemas do Alto Cotia (1,2 mil litros de água por segundo para cerca de 409 mil habitantes) Baixo Cotia (900 litros por segundos para 360 mil habitantes), Estação Ribeirão da Estiva (100 litros de água por segundo parta 38 mil habitantes), Sistema Rio Claro (4 mil litros por segundo para 1,5 milhão de pessoas) e Rio Grande (5 mil litros de água por segundo para abastece 1,2 milhão de pessoas habitantes).

Em 16/05/2014, devido à situação crítica do Sistema Cantareira, foram adicionados 182,5 bilhões de litros de água da reserva técnica (18,5% sobre o volume total do sistema).

Hoje, a situação está crítica novamente. No Sistema Cantareira, o nível está em 18,8% (em um ou dois dias estaremos entrando na reserva técnica) e só está mantido pelas chuvas (14 mm) dos últimos 2 dias (para uma média histórica de 50 mm no mês). No Sistema Alto do Tietê, já estamos abaixo de 25% (24,2% – com 6,2 mm de chuva no mês – média histórica de 49 mm).

Juntando-se baixa umidade do ar baixa, poucas chances de chuva (índice pluviométrico) com queda intensa dos níveis de reserva do abastecimento de água na cidade, há riscos importantes de afetar a qualidade do ar na cidade.

Qualidade do ar

A CETESB é a responsável pela avaliação do índice no Estado de São Paulo. Segundo o órgão, a qualidade do ar depende de vários fatores e é avaliada pelo nível de poluentes no ar e classificada em níveis e estabelece os riscos à saúde em pessoas sensíveis em caso de cada uma dessas situações:

N1 – Boa qualidade – sem riscos;
N2 – Moderada – tosse seca e cansaço. A população, em geral, não é afetada;
N3 – Ruim – Toda a população pode apresentar sintomas como tosse seca, cansaço, ardor nos olhos, nariz e garganta. Pessoas de grupos sensíveis (crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias e cardíacas) podem apresentar efeitos mais sérios na saúde;
N4 – Muito Ruim – Toda a população pode apresentar agravamento dos sintomas como tosse seca, cansaço, ardor nos olhos, nariz e garganta e ainda falta de ar e respiração ofegante. Efeitos ainda mais graves à saúde de grupos sensíveis (crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias e cardíacas);
N5 – Péssima – Toda a população pode apresentar sérios riscos de manifestações de doenças respiratórias e cardiovasculares. Aumento de mortes prematuras em pessoas de grupos sensíveis.

Chegamos a N-3 em 2 de julho e desde o dia 8 de julho, pela chuva que tivemos nesses dois dias, a cidade de São Paulo se encontra em N-1 com boa qualidade do ar. Mas, como vimos, as condições podem se alterar em breve com a queda da temperatura, a ausência de chuvas e, com isso, uma maior dificuldade na dispersão dos poluentes. Quem quiser, pode acompanhar dia-a-dia e até “hora-a-hora” os índices de qualidade do ar divulgados pela CETESB e as recomendações para a saúde.

É importante conhecer as informações atualizadas sobre a umidade relativa do ar (CGE), sobre a qualidade do ar (CETESB) e os níveis dos sistemas de abastecimento de água (SABESP) na cidade de São Paulo, para que possamos tanto tomar providências no controle do consumo, quanto em relação aos riscos a que estamos submetidos de doenças relacionadas a esses fatores e compreender melhor as causas do aumento da procura pelo atendimento médico por problemas respiratórios e alérgicos e a dificuldade em sua resolução, mesmo com medicação adequada.

Recomendações gerais

Nessa situação, temos que ressaltar como medidas gerais, especialmente para crianças e idosos (grupos de risco), as seguintes orientações:

• Hidratação – tomar mais líquidos de rotina, sem esperar sentir sede (que já pode ser um sinal de uma desidratação leve);
• Se sentir olhos ou nariz ressecados, usar soro fisiológico em nariz ou olhos para umidificar;
• Umidificar o ambiente (quartos) ou com aparelhos umidificadores ou mesmo com bacias de água ou toalhas molhadas estendidas (não encharcadas);
• Cuidados de higiene com a casa e com o ambiente de trabalho (ar condicionado, limpeza com panos úmidos e não com aspiradores ou espanadores);
• Economizar água no banho, na escovação dos dentes, lavagem de carros para que não entremos no risco de rodízio no abastecimento de água em São Paulo;
• Cuidados com a qualidade no ar, evitando poluir mais ainda o ambiente. Carona solidária é uma boa opção.

 

Moises Chencinski (CRM-SP 36.349) é médico especializado em Pediatria e Homeopatia. Autor dos livros “Gerar e Nascer – Um canto de amor e aconchego” e “Homeopatia – Mais simples do que parece”. Redator do blog Mama que te faz bem.

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