40% dos erros médicos acontecem durante consultas, aponta OMS

Casos como o de um homem que teve um testículo removido erroneamente em Santa Catarina, da jovem que teve a ponta dos dedos amputada pela má administração de um medicamento, no Rio Grande do Sul e da cantora Anitta, que durante anos acreditou sofrer de cistite quando na verdade tinha endometriose, são comuns no noticiário brasileiro. A maioria desses e de outros erros médicos acontece no primeiro contato do paciente com o médico. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 40% dos tratamentos errados são indicados durante as consultas. Para o médico especializado em saúde pública, Dr. Wilderi Sidney Guimarães, quando o tempo destinado ao paciente é menor do que ele realmente precisa, a chance de errar o diagnóstico ou a prescrição de remédios cresce.

“As consequências disso são catastróficas. O paciente sai do consultório insatisfeito, porque não foi acolhido e com grandes chances de não ter compreendido o seu problema ou tratamento que lhe foi passado. Além disso, o médico pode ter feito o diagnóstico de forma errada e com isso, o paciente seguir sentido dores. Tudo isso, enfraquece a relação médico-paciente. Já para o sistema de saúde isso também é ruim, uma vez que esse paciente vai procurar outro profissional ou outra unidade de saúde, pode realizar exames desnecessários e ainda assim, não ter o seu problema resolvido e culminar em uma internação hospitalar. Todo esse processo onera financeiramente os planos de saúde e o SUS”, afirma.

De acordo com Wilderi, diversos estudos já foram feitos no Brasil a respeito da duração média de uma consulta médica. “Entre o bom dia e a despedida do profissional e paciente, passam-se apenas 20, 15 e, às vezes, inacreditáveis três minutos. Dificilmente, dentro desse curto período, o médico é capaz de avaliar com a precisão necessária o estado clínico de quem lhe procura”, ressalta. A realidade, frequente inclusive em consultórios particulares, contribui para o aumento dos casos de erros médicos e, consequentemente, das estatísticas judiciais”, comenta o médico.

Não à toa, um estudo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), divulgado em 2021, mostra que os erros médicos são um dos principais motivos que levam as pessoas a procurar a justiça para tratar de questões relacionadas à saúde. Outros dados do CNJ, revelam que no último ano antes da pandemia do cCoronavírus, a justiça brasileira tratou de quase 460 mil casos de pessoas que tiveram problemas quando precisaram do sistema de saúde público ou particular.

“No Brasil, não há uma regulamentação que determine o tempo mínimo que uma consulta deve ter. O Conselho Federal de Medicina (CFM), que é o órgão que normatiza e regula a atuação do profissional médico no Brasil, não define um tempo ideal de duração para uma consulta. A regra da entidade diz que o médico deve usar o período necessário para a perfeita execução de todas as etapas do atendimento, como levantar o histórico do paciente, realizar o exame físico, fazer o diagnóstico, prescrição e orientar a conduta. E é o médico que deve definir tempo ideal para cumprir esse protocolo”, explica o Dr. Wilderi Sidney.

No entanto, o Ministério da Saúde estabelece no Manual de Auditoria de Atenção Básica que o tempo máximo de uma consulta no SUS deve ser de 15 minutos. O que para o especialista em comunicação médico-paciente é um dos principais problemas da saúde pública brasileira. “Isso é um grande absurdo. Desrespeita um dos pilares do atendimento médico que é a autonomia do profissional. Estipular um tempo máximo para todos os pacientes desrespeita o trabalho do médico e a dignidade do paciente”, pontua o especialista em saúde pública.

Wilderi ainda explica que o objetivo de uma consulta é conseguir identificar a principal queixa do paciente e se possível resolver esse problema. “A maioria dos estudos mostra que isso não acontece. O tempo médio de atendimento nas unidades básicas no brasil é de 5 minutos. Imagina, 5 minutos para escutar o paciente, examinar, explicar o problema e o tratamento. Às vezes, o médico não consegue nem identificar qual é o problema do paciente”, lamenta.

Para o médico, um dos caminhos para melhorar a saúde pública no Brasil passa pelo retorno da autonomia dos médicos na atenção primária. “Quando a gente fala de atenção básica, a coisa mais importante é fazer um atendimento de qualidade, preventivo, para criar um relacionamento médico-paciente, para que o profissional consiga indicar o tratamento correto e outros cuidados, como mudança de hábitos, para que o paciente não precise de atendimentos mais complexos. Nos países desenvolvidos, onde a atenção primária funciona, isso desafoga o sistema secundário e terciário. Aqui no Brasil, estamos distantes dessa realidade”, finaliza.

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