Saúde financeira entra no radar das empresas após impacto direto em afastamentos emocionais

Durante a Hospitalar 2026, um case apresentado no estande da Milmedic e do Grupo IBES chamou atenção ao relacionar diretamente endividamento, saúde mental e impacto operacional dentro das empresas. A apresentação foi conduzida por Tania Machado, CEO do movimento Somos Longevos, dentro do eixo “Pessoas, Inovação e Tecnologia”.

O estudo revelou que, em uma empresa brasileira da área da saúde, quase metade dos colaboradores enfrentava algum nível de endividamento. O diagnóstico interno mostrou que 45% dos profissionais estavam endividados e outros 12% já viviam situação de superendividamento.

O sinal de alerta apareceu quando a empresa começou a registrar aumento simultâneo de absenteísmo, presenteísmo, quando o profissional está presente, mas sem conseguir manter foco e rendimento, afastamentos emocionais e queda de produtividade.

Tania Machado explicou que o peso financeiro já chegava junto com o colaborador ao ambiente de trabalho: “Muitas pessoas chegam emocionalmente esgotadas. A cabeça está na dívida, na cobrança, no empréstimo. O colaborador está presente fisicamente, mas mentalmente consumido pelo problema financeiro.”

O levantamento envolveu aproximadamente 1.500 colaboradores, além de 500 terceiros e 300 médicos. A análise também identificou aumento recorrente de pedidos de adiantamento salarial, empréstimos consignados e solicitações de aumento motivadas por desorganização financeira pessoal.

A partir desses resultados, a empresa implantou o Projeto Longevidade Financeira, com ações de educação financeira, terapia financeira, apoio emocional preventivo, workshops e acompanhamento individual de profissionais considerados em situação crítica.

A empresa também passou a oferecer conteúdos e ferramentas voltados à organização financeira e à prevenção do superendividamento.

Ao longo da apresentação, Tania destacou que o impacto financeiro começou a aparecer diretamente no comportamento das equipes e nos indicadores operacionais da empresa: “Quando a pessoa perde o controle financeiro, ela perde foco, toma decisões sob estresse, reduz produtividade e começa a adoecer emocionalmente. Em muitos casos, isso acaba refletindo inclusive no aumento da utilização de recursos assistenciais.”

Depois da implantação do projeto, a empresa registrou redução estimada de 18% no absenteísmo e queda de 22% nos afastamentos emocionais.

Os reflexos também apareceram nos custos da operação. A estimativa interna aponta economia anual de aproximadamente R$ 420 mil relacionada à redução do absenteísmo. Já a diminuição dos afastamentos emocionais representou impacto estimado de R$ 680 mil ao ano em custos assistenciais, substituições e perdas operacionais.

O estudo ainda identificou ganho estimado de produtividade entre 9% e 12%, associado à redução do presenteísmo e ao aumento da estabilidade emocional das equipes. Com isso, o impacto indireto calculado pela empresa chega a aproximadamente R$ 1,2 milhão ao ano.

Outro ponto que chamou atenção durante a apresentação foi o fato de que o problema financeiro atravessava diferentes perfis profissionais dentro da organização.

Na avaliação de Tania Machado: “A questão financeira não aparecia apenas entre profissionais de baixa renda. Ela atravessava diferentes níveis da organização, inclusive profissionais altamente qualificados e lideranças.”

O tema vem ganhando espaço dentro das empresas após as atualizações da NR-1 e o avanço das discussões sobre riscos psicossociais no ambiente corporativo.

Dados apresentados pelo movimento Somos Longevos mostram que 80,2% das famílias brasileiras estão endividadas e que, em média, cerca de 30% da renda familiar está comprometida com dívidas.

Para o movimento, profissionais sob pressão financeira tendem a utilizar mais recursos assistenciais, aderir menos a programas preventivos e apresentar maior risco de afastamentos relacionados à saúde mental. O impacto começa a atingir diretamente indicadores ligados à sustentabilidade das operações de saúde, incluindo retenção de profissionais, inadimplência, sinistralidade e custos assistenciais.

Tania Machado afirmou que, durante muitos anos, as empresas concentraram esforços apenas na gestão dos efeitos do adoecimento emocional, sem aprofundar a discussão sobre o que estava na origem desse desgaste.

Para a executiva: “Durante muito tempo, as empresas olharam para ansiedade, burnout e afastamentos como problemas isolados do ambiente de trabalho. Agora começa a ficar mais claro que, muitas vezes, o adoecimento já chega junto com o colaborador. A pressão financeira virou um fator silencioso de impacto emocional, produtividade e sustentabilidade dentro das organizações.”

Redação

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