Inteligência artificial transforma documentos em dados e acelera processos na gestão pública

A rotina de órgãos públicos envolve uma quantidade cada vez maior de documentos, processos, formulários e informações que precisam ser analisados e registrados em diferentes sistemas. Mesmo com a digitalização dos serviços, boa parte desse conteúdo ainda chega em PDFs, imagens, documentos escaneados e até arquivos manuscritos, exigindo trabalho manual para transformar informação em dados utilizáveis. É nesse ponto que a inteligência artificial começa a ganhar espaço na gestão pública. Tecnologias de Processamento Inteligente de Documentos (IDP, na sigla em inglês) conseguem identificar informações em diferentes formatos, estruturar esses dados e encaminhá-los automaticamente para os sistemas utilizados pelas instituições. Na prática, a tecnologia reduz etapas manuais e pode aumentar a capacidade de processamento das equipes, com reflexos no tempo de resposta dos serviços.

Um exemplo dessa aplicação está na Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE), que utiliza uma solução desenvolvida pela Di2win, deep tech embarcada no Porto Digital do Recife. A tecnologia de IDP da empresa foi incorporada à Agente Inteligente de Ressarcimento Administrativo (AIRA), criada pela secretaria para agilizar o encaminhamento de pedidos de ressarcimento de recursos da saúde pública.

O resultado mais expressivo até agora aparece no volume de processos. Desde a entrada da solução em operação, em novembro de 2025, o número de solicitações encaminhadas mensalmente ao Ministério da Saúde passou de 276 para 4.506, mais de 16 vezes o volume anterior.

O ressarcimento administrativo ocorre, entre outras situações, quando o Estado precisa custear, por determinação judicial, medicamentos, tratamentos ou procedimentos que, de acordo com as regras de distribuição de responsabilidades do SUS, são de competência da União. Depois de realizar o pagamento, o Estado precisa reunir a documentação, preencher formulários e encaminhar o pedido ao Ministério da Saúde para solicitar a restituição dos valores.

Em Pernambuco, esse processo envolve documentos que tramitam pelo Sistema Eletrônico de Informações (SEI) e estão relacionados a decisões judiciais conduzidas pela Procuradoria Geral do Estado (PGE) e pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).

A AIRA automatiza parte desse trabalho. A solução utiliza a tecnologia de Processamento Inteligente de Documentos da Di2win para identificar informações nos arquivos, inclusive em documentos digitalizados e manuscritos. O conteúdo é convertido em dados estruturados e, com o uso de modelos de inteligência artificial, as informações são organizadas para alimentar os formulários exigidos pelo Ministério da Saúde. A tecnologia da Di2win alcança 98% de acurácia na extração de dados. Antes da implantação, segundo a empresa, foram avaliadas outras soluções que apresentavam desempenho médio entre 70% e 80%. O projeto começou a ser desenvolvido e adaptado para a realidade da SES-PE em junho de 2025 e entrou em operação cinco meses depois.

Mais processos e maior capacidade de recuperação

O ganho de produtividade ocorre em um processo que movimenta valores relevantes para o orçamento da saúde estadual. Quando a AIRA começou a ser utilizada, Pernambuco tinha cerca de R$ 1 bilhão em valores a receber por ressarcimentos. Atualmente, há uma projeção de aproximadamente R$ 780 milhões em recuperação financeira relacionada a processos já submetidos, além de outras solicitações que continuam em andamento.

Segundo Álvaro Pinheiro, diretor de Inteligência Artificial da SES-PE, a tecnologia ajuda a enfrentar um dos principais desafios do processo: lidar com o volume e a variedade dos documentos necessários para cada solicitação.

Para Yves Nogueira, CSO da Di2win, o caso mostra como a aplicação de IA pode contribuir para melhorar processos que fazem parte da rotina de órgãos públicos. “Existe um volume muito grande de documentos dentro do poder público que precisa ser lido, interpretado e transformado em informação para que os processos avancem. Automatizar essa etapa permite que as equipes deixem de gastar tempo com tarefas repetitivas e possam se concentrar em atividades que exigem análise e decisão”, afirma. 

Segundo o executivo, o uso da tecnologia não está restrito à área da saúde. “O caso do ressarcimento é uma aplicação concreta, mas a mesma tecnologia pode ser utilizada em qualquer ambiente que precise identificar e extrair informações de grandes volumes de documentos, especialmente quando esses dados precisam alimentar outros sistemas”, explica.

Prontuários – A experiência com a AIRA também abriu espaço para discutir novas aplicações da tecnologia dentro da própria Secretaria de Saúde de Pernambuco. Uma das possibilidades em avaliação é o uso da solução para leitura e extração de informações de prontuários clínicos.

A ideia é utilizar os dados estruturados para alimentar a Rede Estadual de Dados em Saúde (REDS), plataforma que reúne informações de hospitais, unidades de média complexidade e atenção primária em Pernambuco. A aplicação em prontuários é um exemplo de como a mesma tecnologia pode ser adaptada a diferentes processos: em vez de limitar a IA a uma tarefa específica, a capacidade de interpretar documentos pode ser utilizada em diferentes áreas que dependem da transformação de informação não estruturada em dados.

Desafio – O cenário enfrentado pela SES-PE se repete em diferentes órgãos e níveis da administração pública. Secretarias, autarquias, hospitais, tribunais e outras instituições lidam diariamente com grandes volumes de documentos, muitas vezes produzidos em formatos diferentes e armazenados em sistemas que não conversam entre si.

Para a Di2win, esse é um dos campos com maior potencial de aplicação do Processamento Inteligente de Documentos. A tecnologia funciona como uma camada entre os documentos e os sistemas: identifica as informações relevantes, estrutura os dados e reduz a necessidade de transcrição manual. Além do ganho de produtividade, a automação pode reduzir retrabalho, diminuir o tempo necessário para determinadas etapas e ampliar a capacidade das equipes de processar demandas. Em serviços públicos, esse ganho operacional pode se refletir em processos mais rápidos e, consequentemente, em uma resposta mais ágil ao cidadão.

A experiência de Pernambuco coloca em evidência uma possibilidade que começa a ganhar espaço na administração pública: usar inteligência artificial não apenas para criar novas ferramentas de atendimento, mas também para resolver gargalos internos que impactam a capacidade de entrega do Estado.

Redação

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