Projetos do PROADI-SUS fortalecem o cenário de transplantes e doação de órgãos no SUS

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O setembro verde é marcado pela conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos no Brasil. Mas, com o avanço da pandemia da Covid-19, as doações e transplantes de órgãos mostram um cenário preocupante: o primeiro semestre de 2020 registrou uma queda de 17% nos transplantes em comparação ao mesmo período de 2019, consequência também do número de doações, que caiu 6%. Os óbitos na fila de espera aumentaram em 34% em comparação ao ano anterior¹.

O Brasil possui o maior sistema público de transplantes no mundo², e para auxiliar o SUS na qualificação de profissionais e na implementação de técnicas inovadoras na execução de procedimentos complexos, o PROADI-SUS, Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, executa projetos diretamente ligados à promoção de transplantes no SUS.

Conheça abaixo algumas das iniciativas do PROADI-SUS para assistência, qualificação de profissionais do SUS, além de estudos clínicos que avaliam a eficácia da implementação de checklists estruturados durante todo o processo que envolve a doação de órgãos no SUS.

Estudo avalia estratégias para otimizar a doação de órgãos

A doação de órgãos em vida é restrita e cerca de 90% dos órgãos são provenientes de doadores falecidos³. Apesar do Brasil ser o segundo país em números absolutos de doadores no mundo, cai para a 33ª posição4 em proporção ao tamanho da população. Atualmente, mais de 30 mil pacientes aguardam por um transplante. Do total de potenciais doações, cerca 40% não são autorizadas pela família, e outras 10% são perdidas por falhas no manejo clínico do paciente em morte encefálica5.

Com o propósito de contribuir com a Coordenação Geral do Sistema Nacional de Transplantes para aumentar o número de doações de órgãos no Brasil, o Hospital Moinhos de Vento realiza o Projeto DONORS. A iniciativa contempla um estudo que avalia se a utilização de um checklist baseado nas recomendações mais atuais para o cuidado clínico do potencial doador pode contribuir com a redução das perdas de potenciais doadores6. Além disso, qualifica profissionais da saúde que atuam no processo de doação de órgãos, por meio de cursos presenciais e online sobre a comunicação com a família do potencial doador.

O estudo clínico contou com a participação de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de 63 hospitais públicos e filantrópicos de 19 estados e Distrito Federal, e incluiu mais de 1,5 mil potenciais doadores. Atualmente, os dados coletados estão sendo analisados, com previsão para divulgação dos resultados até o final de 2020.

Para a líder do Projeto no Hospital Moinhos de Vento, Caroline Robinson, o DONORS tem o potencial de deixar um grande legado para o cenário da doação de órgãos no Brasil. “Além do estudo clínico, que a depender dos resultados poderá subsidiar a implementação de um método simples e de baixo custo, o escopo do projeto também inclui um curso online que visa qualificar profissionais de saúde para prestar o esclarecimento correto à família a respeito de todas as etapas envolvidas no processo de diagnóstico da morte encefálica e da doação de órgãos”, explica Caroline. O curso, gratuito e totalmente a distância, já capacitou quase 3 mil profissionais e está disponível neste link: edx.hospitalmoinhos.org.br/course/donors .

Outra iniciativa do Projeto é a tradução do Manual de Comunicação em Situações Críticas, produzido pela Organização Nacional de Transplantes da Espanha, país considerado referência por apresentar as menores taxas de recusa familiar para doação de órgãos. A partir de sua 3ª edição, o documento passou a ser um recurso adicional para a qualificação dos profissionais da saúde em geral: bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/comunicacao_situacoes_criticas.pdf

Assistência e qualificação em transplantes e reabilitação intestinal

Com uma abordagem diferente, a Escola de Transplantes, do Hospital Sírio-Libanês foca em pacientes pediátricos. O projeto dá apoio em todas as etapas de execução do procedimento, realizando transplantes de fígado, reabilitações intestinais e intervenções cardíacas, além da qualificação de profissionais para realização de procedimentos e assistência a pacientes já transplantados.

A instituição foi a primeira da América Latina a realizar transplante de fígado intervivos, e atualmente é a única instituição no Brasil a fazer “transplante dominó” de fígado pediátrico para crianças portadoras de leucinose. Essa é uma doença que compromete as funções orgânicas pelo acúmulo de aminoácidos e pode ser corrigida pelo transplante. “Nessa condição, o transplante dominó é possível pois o fígado de uma criança com leucinose pode ser transplantado em outra criança sem a doença, dessa forma, a criança recebe um fígado novo e doa o seu para outras crianças, com outros problemas hepáticos” explica o Dr. Paulo Chapchap, CEO do Hospital Sírio-Libanês e coordenador da área de transplantes da instituição.

Outro resultado importante do projeto envolve a implantação do Centro de Reabilitação Intestinal no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, em São Paulo, que readequou 14 leitos para receber pacientes em acompanhamento pré e pós transplante de fígado, e 14 leitos para acompanhar pacientes em reabilitação intestinal.

Além da assistência, o projeto também promove a qualificação de profissionais no SUS, como explica Tadeu Tomé, coordenador do projeto. “Nossos cursos de qualificação promovem uma aprendizagem adaptada aos diversos cenários presentes no dia a dia, sempre acompanhados de tutores com muita experiência na assistência direta a esses pacientes e na área acadêmica e de ensino”.

Projeto qualifica profissionais e realiza transplantes de órgão e tecidos para o SUS

Outro projeto do PROADI-SUS, liderado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, é o maior projeto de qualificação médicos para a realização de transplantes de órgãos e tecidos no Brasil, e promove a capacitação de equipes multiprofissionais para as melhores práticas assistenciais, visando a plena reinserção do paciente transplantado na sociedade.

O Programa de Transplantes atua em todas as frentes, dando apoio desde a gestão, captação de órgãos e execução do transplante em si, até a qualificação de equipes multiprofissionais do SUS por meio de tutorias e incorporação de novas tecnologias em quatro Centros Transplantadores no Brasil, localizados no Rio de Janeiro (pulmão), Mato Grosso do Sul e Sergipe (rim) e Pará (fígado).

Desde 2002, o Programa de Transplantes do Einstein já realizou 3.737 transplantes em pacientes do SUS em diversas modalidades, com destaque para estômago, pulmão, intestino, coração e pâncreas. “Por meio do projeto, realizamos transplantes de alta complexidade com técnicas que ainda não estão disponíveis no SUS, e atuamos em uma frente educacional muito relevante, que qualifica equipes multiprofissionais do SUS na execução dos procedimentos e no atendimento de pacientes transplantados” explica o líder do projeto, Dr. José Eduardo Afonso Jr.

Um exemplo é o curso sobre morte encefálica, que já qualificou 1.570 profissionais do SUS com base na mais recente resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre o diagnóstico de morte encefálica.

Essa iniciativa também busca melhorar as práticas relacionadas ao acompanhamento de pacientes que necessitam de transplantes no SUS com uso de recursos como a telemedicina. “Para um paciente grave, o cenário ainda é muito dramático. Em regiões remotas, muitos pacientes não têm sequer acesso à fila de espera por um órgão, o que evidencia a importância da qualificação de profissionais um acompanhamento contínuo de pacientes” ressalta o Dr. José Afonso. “Nesse sentido, a telemedicina pode ser uma aliada para acompanhar o paciente, seja na fase pré ou pós transplante, além de diminuir os custos ao SUS”.

Referências:

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