Artigo – Nos bancos ou nos leitos?

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Nos últimos oito anos, 1727 hospitais privados fecharam as portas e perderam-se no mínimo 32.000 leitos hospitalares, de acordo com relatório recentemente divulgado pela Federação Brasileira de Hospitais (FBH) e pela Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde). Uma parte da explicação para o fato de tantos hospitais irem mal num mercado em que a demanda e as receitas crescem reside em uma sigla que é quase uma onomatopeia: ROIC.

Pois bem, ROIC é um dos vários indicadores utilizados para medir o desempenho das empresas. Significa Retorno Sobre o Capital Investido ou Return Over Invested Capital. Ele nos mostra o lucro que o empresário obtém sobre o total de recursos próprios e de terceiros (empréstimos) que coloca à disposição da empresa. Representa, portanto, o retorno que se obtém sobre o capital disponibilizado aos gestores da empresa para que façam investimentos, tenham capital de giro, renovem estoques, entre outras coisas.

Na cadeia produtiva da saúde suplementar, que abriga empresas com características bastante diferentes quanto ao uso de capital, o ROIC também varia muito. E nessa cadeia não há dúvidas que são os prestadores aqueles que mais precisam investir para manter de pé suas operações. A construção de um hospital de 200 leitos, que emprega mais de 1.500 pessoas, por exemplo, depende do comprometimento de capital de pelo menos R$ 200 milhões.

Prestadores precisam investir pela necessidade de constantes atualizações de seus profissionais de saúde. Além disso precisam de recursos, que muitas vezes são buscados em empréstimos, para manter um fluxo de caixa que permita prestar o serviço hoje para só receber 60 dias ou mais depois.

Hospitais têm de aumentar incessantemente sua capacidade produtiva para diluir custos fixos e expandir suas operações na forma de redes, contribuindo assim com uma infraestrutura que facilite a integração do cuidado. Laboratórios precisam de maquinário e de novas tecnologias, em especial nesse momento de tantas possibilidades com o desenvolvimento de testes genéticos sofisticados.

Nesse sentido, olhar simplesmente margens de lucro para analisar o desempenho de uma empresa ou setor pode levar a comparações indevidas. Uma empresa com margem de lucro líquida igual à de outra pode ter um ROIC bem menor se empregar proporcionalmente mais recursos para fazer a empresa funcionar. E, tendo um retorno pequeno, o empresário pode decidir que o melhor a fazer é… colocar o dinheiro no banco.

Se for analisado de perto o fenômeno do fechamento de hospitais privados, é certo que encontraremos ROICs pouco atrativos ou negativos entre as suas causas.

Esse fato nos alerta para a importância do retorno adequado para o futuro de todo um setor. Certamente os recursos aplicados na saúde privada farão mais bem ao desenvolvimento do país se, em lugar de dormir no banco, se transformarem em mais hospitais, mais leitos, mais laboratórios em um setor que tem o desafio de cuidar, com qualidade, da saúde de quase 50 milhões de brasileiros.

Bruno Sobral é consultor econômico da Conf. Nacional de Saúde (CNS) e da Federação Brasileira de Hospitais (FBH)

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