Superlotados, com cirurgias à luz de velas: a realidade dos hospitais públicos brasileiros

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Hospital no Rio de Janeiro. Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Um levantamento divulgado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) na última quinta-feira (9) confirmou aquilo que os usuários da rede pública de saúde sentem na pele: os hospitais do país sofrem com a ausência de equipamentos e insumos básicos. Alguns dos 506 hospitais analisados pelo país não contam nem mesmo com áreas para higienizar as mãos, cenário que pode favorecer a proliferação de infecções.

As camas não tinham lençóis em 63% das 131 unidades de internação analisadas, 26% delas não ofereciam biombos ou cortinas para separar os leitos e 15% não dispunham de poltronas para receber acompanhantes. Já a superlotação era uma realidade em 53% dos quartos.  Nos centros cirúrgicos, o panorama não era melhor. Em 44% deles não havia fonte de óxido nitroso, substância usada em anestesias, e 21% não contavam com fontes de oxigênio. Em 33% das salas, não existia foco cirúrgico com bateria, equipamento que fornece iluminação caso falte luz.

Segundo Emmanuel Fortes, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, a ausência de focos cirúrgicos com bateria pode atrapalhar o trabalho do médico e colocar a vida do paciente em risco. Isso porque o equipamento serve como uma opção em caso de falta de energia, garantindo o prosseguimento da operação. “Não é incomum as pessoas verem notícias de atos heroicos em que o médico fez uma cirurgia à luz de velas ou usando lanternas. Mas isso traz uma insegurança muito grande para a vida do paciente”, disse o especialista. Sobre a ausência de lençóis em 63% dos quartos, ele considera que essa situação não compromete diretamente a assistência médica, mas tem grande impacto sobre a dignidade humana.

Medicamentos também estão em falta. Remédios como brometo de ipratrópio, utilizado para doenças pulmonares, e escopolamina, indicado para tratar cólicas, estavam ausentes em 15% das salas de recuperação. Em caso de piora, o transporte do paciente poderia virar um empecilho: não havia monitor cardíaco para transporte em 29% dos casos. Nas UTIs, o cenário não é diferente: 21% delas não ofereciam macas com suporte para cilindros de oxigênio, em 41%  não existiam monitores cardíacos e 21% delas não contavam com objetos prosaicos como relógios e calendários.

Fortes afirma que uma das causas desse problema é a má gestão dos recursos financeiros. Para ele, a ausência de relógios ilustra bem essa situação, uma vez que esse objeto não gera grandes gastos financeiros. “Deixam de comprar o relógio não por falta de verbas, mas porque as pessoas não estão preocupadas em obedecer aos requisitos mínimos que a legislação prevê. Então é um problema de gestão”, diz ele.

Mas ele ressalta que, antes de aprofundar os debates sobre a falta de recursos, é preciso otimizar os gastos para que a gestão se torne eficiente. De acordo com uma pesquisa do Tesouro Nacional, o Brasil gasta 3,8% do PIB em saúde, o que nos coloca à frente da média dos países latino-americanos, mas muito atrás se comparado com nações desenvolvidas. Elas investem em média 6,5% do PIB na saúde.  “É preciso ter mais dinheiro, mas é necessário antes corrigir as deficiências para saber quanto mais será preciso investir”, explica.

O psiquiatra recorre a uma analogia para explicar a importância dos equipamentos a qualquer centro hospitalar. “Um piloto de Boeing faz um checklist para ver se está tudo funcionando. Se uma dessas etapas não corresponde aos requisitos de segurança, ele não decola com a aeronave. Na medicina é mais ou menos isso.” Ele salienta ainda que a necessidade de fazer múltiplas jornadas e atuar em contextos desfavoráveis prejudica o exercício da medicina e a assistência às pessoas. “Essa situação dos hospitais representa um risco à assistência e um risco à saúde. Em alguns casos, pode até representar um risco à vida”, define Fortes.

Fonte: Época/Globo

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