Trupe de palhaças percorre hospitais levando empatia para pacientes em cuidados paliativos

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A figura do palhaço é comumente associada ao riso e ao humor, mas poucos percebem que a arte da palhaçada envolve um processo muito anterior a esse “resultado final”. O palhaço é um medidor do ambiente que vive e historicamente um denunciante do cenário político e social. É com esse conhecimento que as atrizes-palhaças Marina Rodrigues, Marcela Sampaio e Nicole Marangoni percorrem semanalmente, desde 2016, o Núcleo de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas de São Paulo, contribuindo na interlocução e mediação entre pacientes, familiares, cuidadores e equipe multidisciplinar. Com o projeto Palhiare, o grupo usa a palhaçada para se reconhecer, identificar e ressignificar os anseios e medos dos que estão ali presentes.

“Partimos do princípio que a arte tem como objetivo estimular o interesse da consciência de um ou mais espectadores através de percepções, emoções e ideias, por isso utilizamos a figura da palhaça que agrega o humor e o lúdico, elementos que amenizam o sofrimento e confortam os pacientes enfermos, buscando assim a manutenção da autonomia de uma vida ativa enquanto for possível”, afirma Nicole Marangoni.

A vontade de desenvolver um projeto artístico em cuidados paliativos surgiu de uma experiência pessoal do trio com o ambiente, que carinhosamente chamam de “família”. Carlos, pai da Nicole, e Lídia, mãe de Marina e Marcela, (CaLi) passaram pelos cuidados paliativos enquanto enfrentaram doenças terminais. Vivenciar esse momento não foi uma experiência simples. Existe medos, angústias, incompreensões e frustrações que não podem ser generalizados. Cada paciente tem um jeito de receber e lidar com esse cenário e uma bagagem de vida própria para isso.

“A nossa mãe em 1995 foi diagnosticada com um câncer e desenganada pelos médicos. Nesse momento ela decidiu viajar em um ano sabático e buscar tratamentos alternativos, com isso ela viveu 20 anos. Quando se tornou inevitável a realização da quimioterapia e por fim os cuidados paliativos, nossa mãe trazia com ela esse trauma de médicos, hospitais e tratamentos convencionais. Não só pela vivência de ter sido desenganada, mas diversas outras violências verbais que ela vivenciou ao longo da vida. Sempre que ela precisava fazer consultas ou exames, ela sentia um verdadeiro pavor. Ao invés de desacreditá-la na sua angústia, os médicos do setor de cuidados paliativos a ouviram e buscaram entender o que aconteceu. Respeitando a vivência e a atitude da nossa mãe em relação a tudo isso. Além de conversar com a família e amigos próximos para entendê-la melhor”, compartilha Marina Rodrigues.

O que tanto Marina, quanto Marcela e Nicole, encontraram naquele momento delicado de suas vidas, foi o acolhimento de toda a equipe multidisciplinar. Marcela Sampaio relembra que levava diversos objetos para a mãe durante sua internação. “Eram desenhos, livros e demais itens que ela gostava. Os amigos também levavam presentes para ela. E com o tempo aquele quarto de hospital foi se tornando a casa dela. O projeto surge dessa vontade de entrar “nessa casa” de outras pessoas que estão vivendo esse mesmo momento que nós vivemos e entender a forma única que esse paciente e seus familiares absorvem tudo aquilo. E ajudá-los a encarar essa tal morte que ainda se apresenta cheia de vida”, conclui.

Cuidado Paliativo

“Cuidado Paliativo é uma abordagem que melhora a qualidade de vida de seus pacientes (adultos e crianças) e famílias que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida.  Previne e alivia o sofrimento através da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas físicos, psicossociais ou espirituais.” (OMS 2017)

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