
A saúde pública nos 5570 municípios brasileiros é uma narrativa de desafios persistentes, mas também de conquistas que não podem ser ignoradas. O SUS é um marco de inclusão e universalidade, garantindo acesso a milhões de pessoas que, sem ele, estariam completamente desamparadas. No entanto, a insatisfação com o tempo de espera para consultas e exames, apontada por pesquisas recentes, revela uma ferida que precisa ser tratada com seriedade e ação concreta.
Essa demora é fruto de um sistema sobrecarregado, subfinanciado e, muitas vezes, desarticulado. Nos municípios, onde grande parte do atendimento começa, os recursos são escassos e não acompanham a complexidade das demandas. A fragmentação entre os diferentes níveis de atenção cria gargalos que dificultam o fluxo de pacientes, transformando o que deveria ser um cuidado ágil em filas que parecem intermináveis. Isso não é apenas ineficiência; é um reflexo das desigualdades estruturais que ainda permeiam o acesso à saúde no Brasil.
Quando o cuidado é atrasado, as consequências são profundas. Na Atenção Primária, que deveria ser a base do sistema, a prevenção perde força. Doenças crônicas como hipertensão e câncer deixam de ser diagnosticadas precocemente, evoluindo para quadros mais graves e custosos. A falta de acesso contínuo também afasta os pacientes de práticas preventivas, rompendo o vínculo entre o sistema e quem dele depende. Essa ruptura é um ciclo perigoso: o que poderia ser prevenido ou tratado com rapidez torna-se mais grave, exigindo internações e tratamentos de alta complexidade que poderiam ter sido evitados.
Ainda assim, o SUS é uma vitória a ser celebrada. Nenhum outro sistema no mundo consegue entregar um modelo de saúde tão abrangente e inclusivo em um país tão desigual. No entanto, ele precisa de cada vez mais investimento, planejamento e de um maior compromisso político. É necessário encarar a saúde pública como um investimento estratégico. Os gestores municipais têm um papel fundamental nesse processo. Fortalecer a Atenção Primária deve ser a prioridade. Não se trata de gastar mais, mas de investir melhor, com planejamento integrado e foco nas necessidades reais da população.
O SUS deve ser a espinha dorsal de um país mais saudável e mais humano. E cada consulta realizada no tempo certo, cada paciente acolhido, são conquistas que reverberam na construção de um futuro em que a saúde pública deixe de ser um desafio e passe a ser apenas motivo de orgulho.