Abordagem inédita com terapia gênica pode auxiliar no tratamento do câncer

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Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) desenvolveram uma terapia gênica inédita que apresentou resultados promissores no tratamento de câncer de pulmão. Ao lado de estudiosos da Faculdade de Medicina da USP e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, Eugenia Costanzi-Strauss, pesquisadora do Laboratório de Terapia Gênica do ICB-USP, apontou que a combinação de dois genes específicos dentro de um único vetor viral pode diminuir e até parar o crescimento de tumores. O artigo foi publicado na revista Gene Therapy, editada pelo grupo da Nature.

Os estudos, realizados tanto in vitro quanto in vivo, utilizaram uma abordagem clínica conhecida como terapia gênica, que busca tratar diversas doenças a partir da transferência de sequências de DNA ou RNA. O gene de interesse é inserido em um vetor, que atua como um veículo de transferência do gene com potencial terapêutico para as células do paciente – geralmente, o vetor é um vírus modificado em laboratório que não apresenta risco de infecção.

Os genes utilizados para o tratamento em animais foram o CDKN2A e o p53, ambos com ação supressora de tumor. Estes genes defendem as células em situação de risco oncológico – por exemplo, quando a célula sofre uma mutação que resulta em estímulo extra para proliferação celular. CDKN2A bloqueia a divisão celular, geralmente de modo irreversível, e o p53, além de inibir a proliferação, também pode induzir a morte celular. Praticamente qualquer tipo de câncer apresenta mutações que direta ou indiretamente afetam CDKN2A e p53, por isso eles foram escolhidos como alvo da pesquisa.

A utilização dessas partes específicas do DNA na terapia gênica do câncer já é conhecida na literatura, porém a inovação que o laboratório de Costanzi-Strauss trouxe foi o vetor. Normalmente, nos estudos de terapia gênica, são utilizados vetores monocistrônicos – cada vetor carrega apenas um gene de função terapêutica, cuja expressão é controlada por uma sequência promotora. A nova técnica apresenta um vetor bicistrônico, onde um único promotor dirige a expressão de dois genes. Trata-se de um adenovírus capaz de transferir e expressar simultaneamente CDKN2A e p53.

Os testes in vivo utilizaram camundongos imunocomprometidos, nos quais foram implantadas células do câncer de pulmão humano. Em um dos grupos, foi administrado o adenovírus bicistrônico diretamente nos tumores e, após 72 horas, os pesquisadores começaram a notar a diminuição do crescimento dos tumores. O monitoramento dos animais durante 30 a 45 dias mostrou que os tumores que receberam o adenovírus bicistrônico diminuíram 80%, em comparação com o grupo controle (não tratado). Já em outros grupos de animais tratados com adenovírus monocistrônicos, portadores de apenas um gene supressor (CDKN2A ou p53), os tumores tiveram uma redução de 20 a 40%. O tratamento combinado faz com que as células tumorais reestabeleçam a capacidade de reagir contra a perda de controle da divisão e passem a responder com indução de morte ou parada do ciclo de divisão.

Segundo a pesquisadora Eugenia Costanzi-Strauss, a terapia gênica com CDKN2A e p53 pode ser aliada à quimioterapia, otimizando o tratamento do câncer. Nas próximas etapas da pesquisa, o grupo pretende verificar o efeito da terapia em outros tipos de tumor, tratando diferentes linhagens celulares, e posteriormente realizar testes em amostras tumorais frescas coletadas de pacientes.

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