Adaptado à cultura indígena, Hospital Bom Pastor atende no meio da floresta, em Rondônia

Por Carol Gonçalves

De acordo com o censo demográfico 2010 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, há cerca de 890 mil índios no Brasil, divididos em mais de 200 etnias. Como a população indígena vive, geralmente, em locais de difícil acesso, é um desafio levar serviços de saúde, principalmente respeitando sua cultura, fazendo do atendimento também uma missão social relevante.

Uma das instituição que têm foco nesse público é o HBP – Hospital Bom Pastor, localizado em Guajará-Mirim, em Rondônia, no Norte do país, fronteira com a Bolívia. A unidade, pertencente à Pró-Saúde – uma das maiores e mais antigas instituições filantrópicas do país –, é referência para 54 aldeias da região, das quais cerca de 90% só é acessível por meio fluvial. Juntas, essas aldeias concentram uma população com cerca de 6,2 mil indígenas, que possuem características culturais próprias.

“Oferecemos recursos específicos, como profissional técnico em Enfermagem indígena, com fluência no dialeto para facilitar a comunicação, servindo também como intérprete e demonstrando respeito à cultura”, conta Geraldo Elvio Fonseca, diretor do hospital.

Horta medicinal

O HBP, localizado em Guajará-Mirim, em Rondônia, é referência para 54 aldeias da região

O serviço de nutrição passou por aperfeiçoamentos para oferecer uma dieta voltada aos hábitos alimentares indígenas, além da implantação de uma horta medicinal, como parte do tratamento fitoterápico.

Essa horta está sob a responsabilidade de uma profissional da farmácia, que possui conhecimento técnico sobre os benefícios da fitoterapia. É importante ressaltar que houve preocupação em fazer uma pesquisa sobre o uso dessas plantas medicinais na cultura indígena. As mudas foram doadas pelos próprios colaboradores e comunidades da região.

Miguel Paulo Duarte Neto, da Pró-Saúde

“A escolha dessas hortaliças e plantas medicinais integradas em nossa horta foi realizada com muito cuidado, para garantir que não tenha nenhuma interação medicamentosa. Além disso, o tratamento somente é adotado com a autorização médica”, explica Miguel Paulo Duarte Neto, diretor Executivo-Geral da Pró-Saúde.

Hoje, a horta conta com 17 variedades de plantas medicinais e nove tipos de hortaliças. Além das ervas comuns, como hortelã, melissa e capim-santo, há também plantas específicas da cultura indígena, como erva picão, arruda, chapéu de couro, babosa e alfavaca, entre outras.

O acolhimento da oca

Em parceria com o HBP, a Casa de Saúde Indígena realiza o tratamento médico nas aldeias

A unidade também conta com outras adaptações especialmente para acolhimento dos índios, como instalação de redes nas enfermarias, horário livre para visita e permissão para mais de um acompanhante, quando liberado pelo médico e enfermeiros.

Como o acesso ao Bom Pastor se dá em grande parte apenas por meio fluvial, a Pró-Saúde decidiu minimizar os impactos culturais construindo um espaço que se assemelha a uma oca. Sua missão é trazer a típica habitação indígena para o ambiente hospitalar, aproximando os indígenas do hospital durante o atendimento e o período de internação.

“A motivação principal da gestão do Bom Pastor foi a de proporcionar um ambiente agradável, onde os indígenas fiquem mais à vontade para se reunir e conversar conforme suas práticas culturais. A iniciativa foi muito bem aceita pelos pacientes”, garante o diretor Executivo-Geral da entidade. O espaço ainda é utilizado pela equipe multidisciplinar do hospital para realização de rodas de conversas, palestras e atividades.

Tipos de atendimento

A Dra. Márcia Regina Gusmão torna o tratamento ainda mais adaptado às características dessa população

Cerca de 40% do atendimento prestado no Hospital Bom Pastor é voltado para a população indígena. O índice obtido permite traçar características mais relevantes para as necessidades deste público. Na pediatria, a maioria dos pacientes busca assistência para problemas gastrointestinais, respiratórios, desnutrição e também para tratar picada de cobra e de animais peçonhentos.

Em relação à clínica-geral para adultos, a maioria busca auxílio em decorrência de problemas respiratórios, diarreicos e desnutrição. “São problemas diretamente relacionados com os hábitos de vida nas aldeias e dentro da floresta”, destaca Geraldo.

Outra característica da unidade: cerca de 70% dos partos realizados são normais. Esse número revela uma situação melhor do que a média nacional, uma vez que dados do Ministério da Saúde apontam que dos 2,7 milhões de partos realizados no país, em 2017, no serviço público de saúde, 41,9% foram cesarianas. Mais um detalhe, a unidade é a única maternidade do município, por isso, todas as gestantes são diretamente encaminhadas para lá.

Atendimento nas aldeias

Cerca de 70% dos partos realizados são normais, revelando um situação melhor do que a média nacional

Em parceria com o Hospital Bom Pastor, a Casai – Casa de Saúde Indígena, órgão do Ministério da Saúde, realiza o tratamento médico dentro das aldeias, por meio de uma equipe multidisciplinar.

“Quando nossos profissionais se deparam nas aldeias com casos que demandam internação, o paciente é transferido para o hospital. Temos uma diretora técnica fortemente envolvida com o atendimento indígena na região. A médica Márcia Regina Gusmão nos apresenta sempre uma visão da realidade indígena, tornando o tratamento ainda mais adaptado às características dessa população. Seu trabalho é uma missão”, salienta Miguel.

Agregando valor

A equipe multidisciplinar também promove palestras e atividades
na oca do HBP

Desde que a Pró-Saúde incorporou seu hospital próprio, o Bom Pastor, todos os esforços e investimentos têm sido voltados para assegurar um modelo de gestão eficiente, mesmo diante da limitação de recursos. “E isso significa desde as melhores práticas assistenciais, tornando os serviços compatíveis com a realidade local, até a incorporação de práticas de humanização reconhecidas nacionalmente. Não por acaso, a unidade vem trabalhando para obter o selo de Hospital Amigo da Criança”, expõe o diretor Executivo-Geral da entidade. De acordo com ele, inúmeras ações já foram realizadas nas instalações físicas, mobiliários e equipamentos, em busca de melhorias nas condições de trabalho dos profissionais e conforto dos pacientes.

A gestão implantou o Centro de Parto Normal (CPN), que tem como objetivo não só o incentivo ao parto natural seguro, mas também garantir condições ideais para isso, por meio de apartamentos privativos nos quais a gestante conta com acompanhante de livre escolha, do pré ao pós-parto, bem como equipamentos e métodos que aliviam as dores sem uso de medicação.

Desafios

Além dos desafios relacionados à cultura e aos hábitos de vida da população indígena, a maior dificuldade encontrada está em conseguir médicos especialistas para trabalhar na região. Por isso, a Pró-Saúde – presente em 23 cidades de 11 estados brasileiros – promove, através de sua Diretoria Médica Corporativa, o trabalho de captação e desenvolvimento de profissionais médicos para atuação em todo o território.

Especificamente na região de Guajará-Mirim, a entidade realizou uma parceria com o município para viabilizar assistência conforme o perfil epidemiológico da unidade. Mensalmente são realizadas reuniões entre o corpo clínico e o município, a fim de estreitar os objetivos em comum.

“Outra estratégia de destaque da entidade é trabalhar em parceria com prestadores de serviços médicos de atuação nacional, o que potencializa a capilarização de profissionais médicos em todo o país”, conta Miguel.

Cerca de 40% do atendimento prestado no Hospital Bom Pastor é voltado para a população indígena

Ele lembra que, como se trata de uma unidade de atendimento de saúde de baixa e média complexidades, para qualquer atendimento que demande maior complexidade como especialidades de cardiologia, ortopedia, neurologia e outras, é necessário o encaminhamento do paciente para a unidade de referência que, neste caso, está localizada no grande centro urbano mais próximo. A capital de Rondônia, Porto Velho, fica a 350 km de Guajará-Mirim.

Outras dificuldades citadas são: demora no abastecimento de produtos hospitalares, constante falta de internet, carência de mão de obra especializada para manutenção de equipamentos hospitalares e até mesmo para contratação.

Em relação ao abastecimento de insumos e medicamentos, a Pró-Saúde atua com uma central de compras localizada na sede da entidade, em São Paulo, que realiza o abastecimento de toda a sua rede, proporcionando transparência aos processos, além da segurança de reposição dos insumos em todas as unidades, mesmo as mais remotas. O Bom Pastor também realiza localmente uma gestão ativa do estoque, com cobertura média para mais de 30 dias, período suficiente para que a reposição seja realizada em tempo hábil, sem interrupção de atendimentos.

Um fator importantíssimo que contribui para a realização da gestão de unidades localizadas em regiões remotas é o fato de a entidade possuir uma equipe multidisciplinar de consultores — formada por médicos, enfermeiros, administradores, especialistas em hotelaria, custos, entre outros — que promove auditorias e consultorias regulares no hospital, além do monitoramento periódico do desempenho assistencial, econômico e de processos da unidade.

Estrutura

O Hospital Bom Pastor foi fundado pela Diocese de Guajará-Mirim para atender as famílias carentes da região da Madeira-Guaporé, na divisa de Rondônia com a Bolívia, sobretudo os seringueiros e os índios, em meados dos anos 60. Logo, os serviços oferecidos na maternidade, clínica médica e internação pediátrica se tornaram essenciais para a população, especialmente a indígena, até então sem acesso à saúde pública.

Em 2011, com dificuldades econômicas e preocupado em continuar atendendo à população, o bispo emérito de Guajará-Mirim, Dom Geraldo Verdier, transferiu o Bom Pastor para a Pró-Saúde, fazendo com que a instituição assumisse sua missão humanitária naquela região.

Para acolhimento dos índios, a unidade conta tem redes instaladas
nas enfermarias

Embora de medidas modestas, com 3.683 m² de área construída, o hospital possui 68 leitos de internação, sendo cinco leitos do Centro de Parto Normal (CPN), 20 leitos obstétricos e 21 leitos pediátricos, entre outros. O HBP oferece, ainda, um Pronto Atendimento obstétrico e ginecológico e três salas em seu Centro Cirúrgico.

Somente este ano, de um total de 1.282 internações de janeiro até julho, 469 foram de povos indígenas (cerca de 36,58%). A maioria deles busca pelo atendimento na clínica pediátrica (foram 267), seguida pela obstétrica (125), clínica geral (72) e cirúrgica (5). Em 2018, foram atendidos 928 indígenas nas diversas especialidades. A unidade presta atendimento gratuito via SUS, mediante contrato com o município.

Certificações e selos

Sobre a qualificação do Bom Pastor como Hospital Amigo da Criança, Miguel conta que o processo está em fase de implementação. “Para isso, estamos fortalecendo as equipes gestora e assistencial, para que tenham conhecimento da iniciativa e de seu impacto positivo na unidade. Com isso, o atendimento por parte da unidade passa a ser mais consciente, com compromisso, promoção, incentivo e apoio ao aleitamento materno. Esta certificação é importante, pois é um reconhecimento quanto à qualidade e à humanização do atendimento”, expõe.

A Pró-Saúde possui hoje oito unidades de saúde acreditadas pela ONA – Organizacional Nacional de Acreditação, entidade sem fins lucrativos que avalia os serviços de saúde no país, são elas: Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência, em Ananindeua (PA); Hospital Yutaka Takeda, em Parauapebas (PA); Hospital Público Estadual Galileu e Hospital Oncológico Infantil Dr. Octávio Lobo, ambos em Belém (PA); Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém (PA); Hospital Regional Público da Transamazônica, em Altamira (PA); Hospital Estadual de Urgência e Emergência, em Vitória (ES), e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Dra. Corasi Alves de Andrade, em Mogi das Cruzes (SP).

“Há ainda diversas outras certificações e selos, que corroboram a qualidade do atendimento prestado pela entidade em suas unidades de saúde por todo o país. O trabalho de inteligência desenvolvido visa à promoção da qualidade, humanização e sustentabilidade, sempre amparado por seus princípios organizacionais, governança corporativa, política de integridade e valores cristãos”, salienta Miguel.

Veja o vídeo sobre a Bom Pastor:

Matéria originalmente publicada na Revista Hospitais Brasil edição 99, de setembro/outubro de 2019. Para vê-la no original, acesse: portalhospitaisbrasil.com.br/edicao-99-revista-hospitais-brasil

Redação

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