Apesar dos problemas, Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel aposta em saúde pública de qualidade

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Não é fácil desenvolver uma rotina humanizada quando se trabalha na pressão e com pacientes em situação grave chegando a todo momento, mas o HMWG – Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, de Natal (RN), mostra que é possível vencer os desafios e fazer a diferença.

A maior unidade de saúde pública para atendimento do trauma no Rio Grande do Norte recebe pessoas feridas por armas de fogo, armas brancas, acidentes de trânsito, queimaduras, entre outros casos graves e de urgência, que são direcionados ao setor considerado o coração do hospital: o Politrauma. São mais de 250 novos boletins por dia.

Sua estrutura física é composta por 225 leitos clínicos, equipamentos modernos como raios x e tomógrafo digital de última geração, monitores cardíacos multiparâmetros, aparelho de ultrassonografia e 40 leitos de Unidade de Tratamento Intensivo. Conta, ainda, com 63 setores assistenciais e burocráticos.

Apesar de toda a gigante infraestrutura que possui, a dura realidade enfrentada pela saúde pública no país faz com que momentos de dificuldade ganhem maior repercussão e visibilidade que os pontos positivos da instituição. Contudo, por mais alto que sejam os obstáculos, o sentimento de preocupação e entrega no cuidar é facilmente percebido nas palavras dos diversos profissionais que integram o HMWG.

É o caso da enfermeira do Politrauma Adalgiza Carolina Brito. Há três anos no setor, ela conta sobre sua rotina agitada: “Por se tratar de um pronto-socorro de urgência, na maioria das vezes, o contato com o paciente é muito rápido. Porém, mesmo assim, procuro fazer com que seja o melhor possível”.

Ela acredita que um bom acolhimento ao paciente é fundamental. “O primeiro ‘bom dia’ que ele recebe já fará uma grande diferença. Além disso, se for bem atendido, irá aderir melhor ao tratamento”, afirma. A prioridade de Adalgiza ao assumir cada plantão é verificar todas as pendências de cada paciente, pois o principal foco é dar a resposta que ele precisa.

Esse cuidado mais atencioso é fruto, também, de anos de participação do HMWG nos programas e políticas nacionais de humanização, incentivadas durante os últimos 16 anos pelo Ministério de Saúde. Assim, o hospital criou uma cultura de trabalho multidisciplinar, priorizando a assistência e a qualidade do serviço.

Um dos principais setores a prestar atendimento humanizado é o serviço social. As 16 profissionais desta unidade são responsáveis por fazer um contato mais íntimo e pessoal com os pacientes, criando, sempre que possível, um laço de confiança. É o que conta a assistente social Shirley Reis do Rego Rodrigues. “Nossa primeira aproximação é através de uma escuta qualificada. Ficamos a sós com o paciente, ou algum parente próximo, procuramos saber o histórico familiar, fazemos contato com amigos e damos orientações, além dos encaminhamentos necessários, de acordo com cada situação.”

Ela explica que quando o assunto é delicado, a abordagem é mais cuidadosa, nunca realizada em ambiente aberto, para que não se criem constrangimentos e se construa uma zona de conforto. “É preciso que o paciente, ou familiar, se sinta seguro para compartilhar as informações conosco”, acrescenta.

Este, porém, não é o primeiro contato do paciente com a assistência hospitalar do HMWG. Isto acontece ainda no setor de Politrauma, no momento da entrada do usuário, quando ele não está internado. “A avaliação é feita pelo cirurgião geral do plantão, que analisa a necessidade ou não de intervenção das demais especialidades. Neste momento são solicitados os primeiros exames complementares – tipo sanguíneo, hemograma, tomografia e raios x, por exemplo”, explica o chefe da cirurgia geral, Ariano Oliveira.

O cirurgião diz que, em 20 anos de atuação no hospital, já se deparou com diversos casos nos quais somente o conhecimento médico não foi suficiente para prestar a melhor assistência ao paciente. “Apesar da difícil situação vivenciada na saúde pública, o médico acaba atuando de muitas outras formas durante o tratamento do doente. Somos, muitas vezes, conselheiros, ouvintes e, em alguns casos, até nos envolvemos emocionalmente. Essa interação só contribui para a melhora do quadro clínico, pois cria-se um vínculo de confiança”, revela.

A diretora geral, Maria de Fátima P. Pinheiro, antes de estar à frente do HMWG, atuou durante muitos anos no Centro Cirúrgico em cirurgia geral. Ela relembra que durante este tempo nunca conseguiu operar um paciente sem ter a certeza de fazer tudo que estivesse ao seu alcance. “A primeira coisa que me vinha à mente, antes de realizar qualquer procedimento cirúrgico, era: esta pessoa é uma mãe, é um pai de família, é um irmão, tem uma história de vida que precisa continuar. Eu não posso me dar o direito de não fazer o meu melhor”. Apesar de afastada há cinco anos dos focos e bisturis, ela afirma que esse pensamento positivo não a deixou. “Hoje aplico a mesma cobrança nas outras áreas em que estou envolvida, como na posição de diretora, porque sei que sempre é possível fazer melhor”.

Outro profissional que faz a diferença é Gilberto Souza da Silva, técnico de enfermagem que está no HMWG desde 1999. Atuando no Politrauma e nas enfermarias do segundo andar, ele afirma que o relacionamento com os doentes sob seus cuidados é próximo a de um familiar. “Trato cada paciente como se fosse uma pessoa da minha família. Tudo tem de ser em função dele, sempre. Ele está em primeiro lugar, mesmo nos momentos de dificuldade do hospital.”

O técnico garante que também procura interagir com os usuários e fazer com que o período de internação seja o menos desconfortável possível. “Por causa disso, já houve casos em que o contato diário se estendeu e criei laços de amizade que mantenho até hoje”, revela. “Procuro também sempre dar uma palavra de apoio. Muitos deles ficam sem acompanhante, longe de casa e da família”, diz.

Gilberto explica que ao receber seus pacientes no início do plantão, as primeiras providências adotadas são: verificar os sinais vitais e, logo em seguida, o controle de glicemia. De acordo com ele, estas atribuições são comuns a todos os técnicos, porém, seu diferencial é a preocupação com a higiene e a troca de curativos dos pacientes. “São coisas que não podem deixar de ser feitas, pois influenciam na melhora ou piora do quadro de saúde”, alerta.

Nestas mais de quatro décadas, o Walfredo Gurgel passou (e passa) por várias dificuldades. Muitas ainda se repetem, como os pontuais desabastecimentos, a superlotação e a ambulancioterapia. Mas, mesmo diante de tantas barreiras, o hospital mantém sua importância para a saúde pública da região, crescendo ano a ano, tanto assistencialmente, quanto em sua estrutura física e na qualificação de seus profissionais.

Este ano, o HMWG completou 44 anos de avanços, percalços, histórias de derrotas e superação, de fé e esperança, de gente que veste a camisa e que acredita em uma saúde pública de qualidade.

Texto editado do original de Marcelo Soares, da Assessoria de Comunicação da Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte. Matéria originalmente publicada na Revista Hospitais Brasil edição 88, de novembro/dezembro de 2017. Para vê-la no original, acesse: portalhospitaisbrasil.com.br/edicao-88-revista-hospitais-brasil

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