O modelo hospitalar brasileiro passa por uma transformação relevante. Estudo da ADVISIA OC&C Strategy Consultants aponta que o setor avança para uma lógica em que o foco se desloca do volume assistencial para a gestão integrada de risco, custo e desfecho.
Essa mudança aparece em diferentes níveis de maturidade. Modelos baseados em pacotes já são comuns no Brasil, especialmente em procedimentos com maior previsibilidade clínica e operacional. Já formatos com remuneração vinculada a desfechos, performance ou maior compartilhamento de risco ainda estão em estágio inicial e exigem sofisticação significativamente maior.
Na prática, isso altera profundamente a forma como as instituições operam. Esses modelos demandam rastreabilidade de custos por linha de serviço, especialidade e episódio assistencial. Também exigem protocolos clínicos consistentes, indicadores de qualidade, governança médica e maior capacidade de acompanhar a jornada do paciente antes, durante e depois da internação.
“O avanço dos modelos baseados em valor exige uma relação mais sofisticada entre hospitais e fontes pagadoras. Instituições que demonstram custo, qualidade e desfecho com consistência tendem a ganhar relevância nas redes assistenciais e maior poder de negociação”, afirma Marcio Fernandes, sócio da ADVISIA OC&C Strategy Consultants.
Outro vetor relevante é a reconfiguração do modelo assistencial. A migração de procedimentos para formatos ambulatoriais e day hospital reduz a permanência média e muda a lógica de utilização de recursos críticos. Esse movimento aumenta a importância da gestão dinâmica de leitos, centros cirúrgicos, equipes, insumos e ativos de alta complexidade.
O estudo também aponta que o monitoramento remoto e a extensão da jornada assistencial ampliam a responsabilidade dos hospitais sobre continuidade do cuidado. Com pacientes mais complexos e maior prevalência de doenças crônicas, protocolos clínicos orientados por custo e desfecho tornam-se instrumentos relevantes para reduzir variabilidade e preservar qualidade.
Segundo Márcio, a transição exige maior integração entre governança médica e desempenho econômico. “A sustentabilidade desse modelo depende de uma governança que conecte decisão clínica, produtividade e impacto econômico. Esse alinhamento reduz variabilidade, fortalece protocolos e cria condições mais robustas para contratos com maior compartilhamento de risco”, diz.
A transformação também afeta o posicionamento competitivo. Em um setor com maior concentração, verticalização e sofisticação contratual, hospitais precisam demonstrar com mais clareza sua proposta de valor para fontes pagadoras, médicos e pacientes. A capacidade de combinar qualidade assistencial, eficiência operacional, gestão profissional e relacionamento comercial torna-se decisiva para preservar relevância e rentabilidade.
Entre as alavancas apontadas pela ADVISIA OC&C estão a gestão da jornada assistencial, com maior coordenação entre internação, alta e continuidade do cuidado; a padronização de protocolos clínicos e materiais para reduzir variabilidade; a governança médica orientada por qualidade, produtividade e desfecho; o uso mais eficiente de leitos, centros cirúrgicos e ativos críticos; e a integração de indicadores clínicos e financeiros para apoiar decisões sobre contratos, linhas de cuidado e posicionamento.
Nesse cenário, eficiência hospitalar, disciplina econômica e maturidade assistencial tornam-se essenciais para instituições que buscam competir em um setor com maior pressão contratual, crescente compartilhamento de risco e valorização de resultados mensuráveis.

