Setembro verde: projeto de transplantes do PROADI-SUS salva vidas de recém-nascidos

O TransPlantar, iniciativa conduzida pelo Hospital Sírio-Libanês, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS) do Ministério da Saúde, é responsável por realizar transplantes de fígado e intervenções cardíacas a pacientes de todo o país atendidos pelo SUS, além de dar apoio em todas as etapas do processo de reabilitação intestinal. Além disso, é responsável por quase 40% dos transplantes pediátricos no país: só em 2020, a iniciativa salvou a vida de 72 crianças.

Em 25 de junho deste ano, foi a vez de Maísa Kivia, hoje com 11 meses: natural de Catalão, no interior do Goiás, a menina estava em seu terceiro mês de vida quando foi diagnosticada com atresia de vias biliares, uma doença do fígado e ductos biliares que ocorre em recém-nascidos e faz com que a bile se acumule no fígado, podendo levar à lesão hepática irreversível.

A mãe, Alba Kivia, relata que a menina foi encaminhada ao Hospital Menino Jesus, para iniciar seu tratamento pelo projeto TransPlantar. Assim que foi constatada a necessidade do procedimento, seu marido se candidatou imediatamente para doar parte de seu fígado à filha, mas a detecção de um tumor impossibilitou a cirurgia. Enquanto buscavam por uma nova opção, o quadro clínico da menina se agravou consideravelmente e foi por meio de uma campanha nas redes sociais que encontraram a nova doadora: a filha de uma amiga da família.

“O transplante foi autorizado em quatro dias, mas nesse intervalo, Maisa teve mais uma piora e precisou ficar internada por cinco dias, sendo alimentada por sonda. E tudo poderia acontecer com ela a qualquer momento. Quando a cirurgia foi realizada, ela tinha apenas 1% do fígado funcionando. Cheguei a pensar que iria perder a minha filha, mas hoje é outra criança”, relata, emocionada.

Jovem doou parte do fígado à sobrinha

Em maio deste ano, a família de Júlia Franchini, de um ano e meio, comemorou um ano do transplante de fígado também realizado por meio do TransPlantar. Em uma história similar a de Maísa, Júlia começou a apresentar a pele amarelada com dois meses de vida e logo precisou de internação. Sua tia e madrinha Vitória Franchini, de 22 anos, se ofereceu como doadora assim que o cunhado, pai da menina, precisou interromper os processos após ser diagnosticado com tuberculose.

Vitória relata que a sua cirurgia foi rápida e sem complicações. A de Júlia, no entanto, teve oito horas de duração, tornando o dia memorável pela angústia e pelo medo de perder a afilhada. Apesar do sucesso do procedimento, a menina precisou permanecer internada por mais um mês após complicações do pós-operatório, além de algumas semanas por confirmação de Coronavírus. Apesar do susto, dois meses depois Júlia estava em casa, saudável.

“A gente tinha muito medo no início, porque ela era muito nova, mas começou a engatinhar logo depois e não teve nenhuma sequela. Hoje, ela é um bebê completamente saudável. A rapidez da mudança do corpo dela foi brutal, quando ela recebeu o fígado saudável parecia que tinha virado uma chavinha. Ela estava inchada e amarela, era muito ruim olhar, dava vontade de chorar. A gente não podia pegá-la no colo. E, então, ela parecia totalmente saudável, que tinha acabado de nascer. É muito gratificante viver isso”, conta.

Desafios do transplante hepático pediátrico

O Dr. Eduardo Antunes Fonseca, do departamento de Serviço de Transplante Hepático do Hospital Sírio-Libanês e um dos líderes do projeto TransPlantar, explica que diversas doenças podem motivar o transplante hepático. Em adultos, a principal causa é a doença hepática crônica em decorrência da hepatite C, além de outras causas como cirrose pelo álcool, esteatose hepática etc. Nas crianças, a principal indicação é a atresia de via biliares, que acomete recém-nascidos em decorrência de uma obstrução de ductos biliares que causa cirrose, se não tratada a tempo.

No entanto, o procedimento pediátrico traz inúmeros desafios. “Poucos centros no Brasil e no mundo fazem transplantes em crianças de baixo peso (abaixo de 10kg). O principal desafio é a dificuldade da reconstrução vascular de veias e artérias de pequeno calibre nesta população pediátrica. Além disso, existem questões como a gravidade destes candidatos, que chegam para o transplante desnutridos e com risco maior de mortalidade enquanto aguardam”, explica.

Fonseca ressalta, ainda, que um trabalho publicado pela equipe do hospital em agosto deste ano na revista Pediatric Transplanation mostrou que os resultados dos transplantes pediátricos tiveram resultados similares antes e durante a pandemia. “Desta forma, concluímos a segurança da atividade de transplante hepático pediátrico durante a pandemia. Isto evidencia que as doenças não podem ser negligenciadas durante a pandemia com risco de progressão da doença e de mortalidade. Isto foi conseguido graças à construção de fluxos seguros nos hospitais, minimizando os riscos para estes pacientes”, conclui.

Setembro verde

As histórias de Júlia e Maísa fazem parte dos 89.558 transplantes realizados no Brasil nos últimos dez anos e dos 3.195 só do primeiro semestre de 2021 – dados do Registro Brasileiro de Transplantes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Ainda de acordo com a ABTO, em dezembro de 2020, o país contava com 43.643 pessoas aguardando o surgimento de um doador para passar pelo procedimento.

Do total de potenciais doações, cerca de 40% não têm autorização da família, e outros 10% são perdidos por falhas no manejo clínico do paciente em morte encefálica. Neste contexto, a campanha Setembro Verde tem como objetivo sensibilizar a população para se declarar doadora de órgãos e tecidos. Para ser um potencial doador, não é necessário deixar algo por escrito, mas é fundamental comunicar o desejo, visto que, em casos de morte encefálica, é a família quem tem a decisão final.

“Não estou vivendo um luto hoje, porque alguém se entregou para poder salvar uma vida em um ato de amor. Não mudou só a minha, como a de milhares de pessoas que esperaram e ainda esperam por uma oportunidade assim, de ter a vida de um familiar salvo. Não temos muita noção do quanto é importante a doação. Quero conscientizar a quem eu puder sobre a importância de ser doador e dispor às famílias para a doação também. As pessoas precisam saber: a situação é grave, mas que pode e deve ser cuidada”, afirma a mãe de Maísa.

Projeto TransPlantar

Iniciativa conduzida pelo Hospital Sírio-Libanês por meio do PROADI-SUS, o projeto TransPlantar dá apoio em todas as etapas do processo de identificação, diagnóstico e tratamento das hepatopatias pediátricas e falência intestinal, realizando transplantes de fígado e intestino, bem como a reabilitação intestinal. O projeto entrega cuidado de excelência com elevado rigor técnico e ainda mais alto cuidado humano e social.

Além da assistência, o projeto também promove a qualificação de profissionais no SUS e realiza intervenções cardíacas. O Sírio-Libanês é líder em transplante de fígado pediátrico e intervivos no Brasil, além de ter uma das maiores casuísticas mundiais em transplante de fígado em crianças.

Além disto, é a única instituição no Brasil a fazer “transplante dominó” de fígado pediátrico para crianças portadoras de leucinose. Por fim, a iniciativa é responsável por quase 40% dos transplantes pediátricos no país e, no último ano, capacitou seis instituições; treinou 52 profissionais; realizou 72 transplantes pediátricos de fígado; dois procedimentos cardíacos; e três implantes de dispositivo de longa permanência.

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