Após um ano de pandemia, novo normal traz à tona transtornos mentais

Em meados de março de 2020, algumas capitais do Brasil decretavam o fechamento do comércio não essencial e o distanciamento social. Mais alguns dias e toda a extensão do país vivia o “novo normal” que não trouxe somente o uso obrigatório de máscara e álcool em gel. O novo normal também impôs o home office, o ensino virtual, a restrição de atividades de lazer, o distanciamento afetivo, desemprego, o medo do contágio e a incerteza do que, muitas vezes, era óbvio. Durante a pandemia, a violência doméstica também ganhou holofotes. O Brasil registrou 649 feminicídios durante a primeira metade de 2020, de acordo com cifras do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – uma alta de 2% em relação ao mesmo período de 2019. Seguindo com os índices, dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, apontam que o país registrou 105.821 denúncias de violência contra a mulher em 2020.

O cenário atual não é favorável para a saúde mental da população, uma vez que o estresse em potencial é um fator de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais. Segundo pesquisa recente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) os atendimentos psiquiátricos cresceram 25% nos primeiros meses da pandemia. O médico psiquiatra e Coordenador da Comissão de Emergências Psiquiátricas da ABP, Leonardo Baldaçara, afirma que casos de ansiedade, depressão, burnout e uso abusivo de substâncias estão aumentando.

“A rotina mudou e foi de repente. Agora as pessoas estão há um ano em distanciamento social, a falta do convívio com familiares e amigos, com alto fluxo de notícias sobre covid-19, home office, filhos em casa e sem a rede de apoio familiar, uma vez que muitos pais contam com familiares para a rotina com os filhos. Ao longo desses 12 meses é notável o aumento de pacientes com depressão, ansiedade, síndrome de burnout e uso abusivo de substâncias. Neste último, psiquiatras identificaram pacientes que buscaram auxilio em vícios como, por exemplo, bebidas alcoólicas, e também em medicamentos para o distúrbio do sono”, acrescenta ele. Baldaçara ainda alerta para o risco de suicídios casos esses transtornos mentais tenham o acompanhamento de um psiquiatra e o tratamento adequado.

A Diretora Secretária Adjunta da ABP, a médica psiquiatra Miriam Elza Gorender, ressalta a síndrome de burnout que acomete principalmente os profissionais de saúde que trabalham na linha de frente neste período da pandemia. “Muitos profissionais de saúde foram diagnosticados com a síndrome de burnout durante esta pandemia. Esse grupo vive uma sobrecarga física e emocional com a rotina do aumento de número de casos e mortes de Covid-19, distanciamento social, a saudade de amigos e familiares já que muitos profissionais se afastam da família para evitar a transmissão do vírus, expediente de trabalho estendido em função da demanda de casos, entre outros fatores. Eu tenho pacientes que estavam de alta há anos e a pandemia foi o gatilho para o retorno do transtorno. Tenho também novos pacientes que, se não fosse esta pandemia, nunca apresentariam doenças mentais”, afirma Gorender.

O presidente da ABP, Antônio Geraldo da Silva, ressalta a quarta onda da Covid-19, que impacta na saúde mental da população. “A quarta onda, que é a onda das doenças mentais, já chegou e não temos mais tempo a perder. Temos que atuar firmemente para minimizar os prejuízos que todos terão deste momento, monitorando a saúde mental da população e o atendimento psiquiátrico”, finaliza o presidente.

Redação

Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.