Artigo – Além do Coronavírus: como a telemedicina vai transformar a saúde nos próximos anos

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Saúde e Inovação caminham de mãos dadas há um bom tempo. Dos esforços de Hipócrates na Grécia Antiga até os estudos para tratamentos de câncer, todas as descobertas que trouxeram mais qualidade de vida aos cidadãos dependeram de pessoas capazes de usar a melhor tecnologia disponível para antecipar cenários, testar experimentos e evoluir rumo à cura. Hoje, somos capazes de testemunhar a força dessa combinação na prática, observando de perto os estudos para combate ao coronavírus.

O mundo todo acompanha os esforços da comunidade científica e dos hospitais para lidar com a pandemia. A busca por equipamentos cada vez mais eficazes para salvar vidas é observada dentro de lares equipados com TVs, computadores e dispositivos móveis, na melhor das hipóteses. É possível saber o que acontece no mundo todo a um clique de distância – bem como trabalhar, consumir e interagir por meio das telas.

Se antes grande parte disso era baseada no toque, no olho-a-olho, hoje a tecnologia é a base das relações que mantemos. Dentro desse convívio virtual, estão as visitas à família, happy-hours com amigos, vídeo chamadas para resolver questões corporativas… e, cada vez mais, também as consultas médicas.

Neste último caso, há até um nome específico para designar as consultas à distância: telemedicina. Um recurso extremamente eficaz e com claro potencial de ganhos financeiros e de qualidade de vida – principalmente no período atual, é claro, mas essencialmente em médio e longo prazo.

Plataformas desse tipo estão populares nesse momento pela capacidade de aproximar médicos de pacientes. Isso não deixa de ser válido, mas há capacidades muito além dessa que podem ser exploradas no Brasil futuramente: a troca de informações e o aprendizado entre profissionais de saúde, eliminando barreiras de distância, por exemplo. Um ponto fundamental em um país de dimensões continentais, contribuindo para transpor barreiras culturais, socioeconômicas e principalmente geográficas com o objetivo de salvar vidas.

Para ter uma ideia, há cinco anos, uma cirurgia pioneira de joelho foi transmitida ao vivo da Espanha para cerca de 300 universidades e hospitais dos cinco continentes, com o objetivo de formar profissionais neste novo tipo de procedimento. Essa “Master Class” contribuiu para que o uso da técnica cirúrgica estivesse disponível em novos âmbitos e zonas de recursos escassos: centros de saúde, ambulatórios, zonas rurais, hospitais de campanhas em missões de paz e clínicas veterinárias.

Recentemente, a plataforma TELEA, desenvolvida pela Minsait, uma empresa Indra, para o Serviço Galego de Saúde (SERGAS), facilitou o monitoramento em tempo real de quase 4.000 pacientes isolados com Covid-19 durante a pandemia, ajudando assim a detectar casos graves e reduzindo imediatamente a saturação de hospitais e centros de saúde na comunidade galega. A única condição necessária para funcionar era que o paciente tivesse um dispositivo móvel ou um computador conectado à Internet para registrar suas informações três vezes ao dia.

Isso tem um custo de implantação, é claro, mas o payback vem rapidamente e em uma escala que merece ser analisada. Estudos do setor de saúde já mostram que é possível reduzir internações de pacientes crônicos pela metade e diminuir urgências em 40% a partir do uso da telemedicina. Ao mesmo tempo, pesquisas da Market Research Future apontavam que era um mercado capaz de crescer 29,8% até 2023 (em um levantamento pré-pandemia).

E já existem casos práticos do funcionamento da telemedicina. Na Espanha, um projeto da Minsait em conjunto com a Bidafarma facilita a detecção de câncer de pele em 48 horas a partir desse tipo de serviço; na Andaluzia, já estão em operação plataformas que ajudam pacientes crônicos a realizarem cuidados preventivos de saúde com acompanhamento médico à distância; e, para regiões carentes como a África Subsaariana, estão em desenvolvimento soluções com o objetivo de instalar serviços de telemedicina por meio de satélites.

Aproveitar esses benefícios em escala global depende, essencialmente, de regulação. No Brasil, por exemplo, o uso da telemedicina não era regulamentado até à chegada do Coronavírus – e, vale lembrar, foi permitido em caráter extraordinário durante o período de pandemia. Mesmo com o atraso, o país também colhe benefícios significativos: no dia 6 de abril, notícias mostravam que o aumento por teleconsultas já havia aumentado sete vezes em 15 dias. Alguns hospitais planejavam contar com 500 profissionais de saúde especialmente dedicados a esse serviço.

Sem dúvidas, essa situação já representa um avanço significativo. Mas, ainda é necessário lembrar que hoje chamamos e reconhecemos por telemedicina o atendimento remoto – via Skype por exemplo – e estamos longe de ter plataformas e ferramentas adequadas, que permitam a expansão dos serviços prestados à distância com eficácia. É necessário que se invista nos sistemas de saúde para que possam contar com tecnologia avançada para uma prática ampla e eficaz, conquistando benefícios úteis como o acesso a um histórico único do paciente.

Nesse sentido, um projeto desenvolvido pela Minsait em parceria com nossa vizinha Colômbia salta aos olhos em questão de interoperabilidade. Recentemente, a capital do país, Bogotá, implantou um projeto para integrar informações de pacientes em 22 hospitais públicos da região. A solução empregada é baseada em FHIR (Fast Healthcare Interoperability Resources), o último padrão de interoperabilidade desenvolvido e promovido pela organização internacional HL7 (Health Level Seven), empresa responsável por alguns dos protocolos de comunicação mais utilizados na área da saúde.

A partir desta iniciativa, os profissionais da assistência obtêm respostas rápidas e precisas que os apoiam nos processos de tomadas de decisão clínicas, além de outras ferramentas que auxiliam em projetos de pesquisa clínica e trabalhos científicos.

Aproximar pessoas, melhorar o atendimento a comunidades carentes e facilitar diagnósticos são tarefas demandadas com exaustão agora, mas continuarão a ser – cada vez mais – importantes no futuro. Cumpri-las é o próximo passo para evoluir no tratamento de saúde global. Se hoje elas parecem representar um fim em si mesmas, nos próximos anos poderemos observar que se tratava apenas da superfície de tarefas que foram impulsionadas com o auxílio da telemedicina. A popularização e o desenvolvimento de novas tecnologias com certeza ganharão cada vez mais força, em ritmo acelerado, nos próximos anos.

Se um dia acreditamos que o avanço do setor de saúde seria lento e gradual rumo às novas descobertas, hoje temos a certeza de que a inovação é essencial para manter a saúde de um número cada vez maior de cidadãos, que vão viver por cada vez mais tempo. Viver a história e ver esse processo acontecer na prática está longe de ser fácil, mas se existe algo que não muda desde o início dos estudos sobre a medicina é que avançar exige fundamentalmente um atributo: coragem. A telemedicina é mais um passo rumo ao futuro, e temos de estar preparados para encorajá-lo e recebê-lo.

Antonio Carlos Pereira Júnior é gerente de Governo e Saúde da Minsait no Brasil