Artigo – Healthtechs começam a encontrar a cura para décadas de ineficiência na saúde

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Impulsionado pela pandemia, o setor de saúde, que já vinha se destacando nos últimos anos, aumentou seu foco na inovação. Investimentos em tecnologia e inovação na busca de preencher lacunas que remetem a um longo período de ineficiências do setor, abriu um enorme espaço para as chamadas “healthtechs“. O cenário atual ampliou o número de iniciativas de startups do setor e o aporte feito por hospitais, grupos, operadoras de saúde e fundos de venture capital nunca foi tão grande no país.

Um estudo realizado por uma comunidade independente de inovação e startups do Brasil, levantou informações sobre 542 healthtechs que usam da inovação para resolver diversos atritos e problemas que geram ineficiências e maiores custos para toda a cadeia. O objetivo parece simples – resolver os problemas do usuário. Entretanto, a solução é complexa e exige alto volume de investimento e pesquisas para o setor.

De acordo com estudo feito por uma consultoria de grande porte, as empresas estão buscando entender melhor cinco grandes grupos de informações sobre seus pacientes, utilizando os seguintes dados: situação financeira, convívio social, saúde e hábitos dos pacientes, dados clínicos e informações advindas de provedores de saúde.

É aí que entram as tecnologias desenvolvidas pelas healthtechs ou, até mesmo, pelas grandes corporações. Na tentativa de fazer uma radiografia mais apurada de seus clientes e de suas necessidades, muitos stakeholders estão trabalhando para construir novas tecnologias para colher, armazenar e analisar todos esses dados. Os investimentos em tecnologia para garantir uma maior liquidez e padronização dos dados, além de manter a segurança destes, estão ligados hoje à busca por melhores bancos de dados.

Além de conseguir coletar e armazenar uma grande quantidade de informações de seus pacientes, as empresas precisam entendê-las e analisá-las, o que demanda a implementação de soluções guiadas por meio das análises de dados, as quais exigem grande investimento em capital humano.

Aqui, não só as healthtechs, como todo o ecossistema empreendedor brasileiro encontra dificuldades. A baixa qualidade da mão de obra brasileira aliada à grande competição entre as empresas por pessoas altamente qualificadas acabam sendo, muitas vezes, gargalos para o desenvolvimento e inovação no setor tradicional de saúde.

Por isso, muitas empresas mais tradicionais do mercado estão desenvolvendo estratégias que focam em parcerias no exterior e com startups. Muitas investem em programas de aceleração para jovens startups no afã de obter ideias que se encaixem com seu modelo de negócio atual e consigam complementar suas defasagens operacionais. Outras companhias buscam investimentos em países-chave, conhecidos como polos de inovação em saúde, como Israel, China, Índias, Estados Unidos e Portugal.

Um caso notável é o projeto de aceleração do Hospital Israelita Albert Einstein, que, por meio de sua aceleradora Eretz Bio, possui dezenas de startups em seu portfólio. A Eretz Bio garante suporte e acompanhamento da startup ao longo de toda a sua jornada de teste do MVP em busca do Product Market Fit. No momento em que a empresa consegue provar tração e complementar os serviços do hospital, ela recebe uma proposta para se tornar uma de suas eleitas para receber investimentos.

Outro caso recente foi a criação da Saúde iD, conhecida como um “one-stop shop” da saúde, uma plataforma que acompanha o usuário em busca de um entendimento mais profundo de seus hábitos e necessidades. A Saúde iD faz parte de um dos projetos do Fleury para a criação de um banco de dados de seus clientes e, assim, conseguir prover melhores serviços. Para isso, o Fleury adquiriu participação minoritária em duas healthtechs que foram conectadas ao marketplace – a ProntMed, startup de prontuários eletrônicos – e a Sweetch – startup israelense de inteligência artificial.

Esses dois casos exemplificam bem o futuro do setor de saúde brasileiro e o quanto a utilização de dados na prestação de serviços de saúde torna-se essencial. O entendimento detalhado dessas informações permitirá que as empresas aprimorem o conhecimento sobre os seus pacientes e usuários. Assim, passam a desenvolver serviços focados na saúde primária e soluções específicas para cada uma de suas necessidades reduzindo custos, ineficiências e gerando retornos mais promissores para todos os stakeholders – consumidores, pagadores e prestadores de serviços.

A utilização da tecnologia para romper barreiras e deficiências do setor prova ter adquirido uma intensidade incomparável em décadas. Assim como no caso da telemedicina, que promoveu consultas durante o isolamento social, a inteligência artificial e o machine learning estão cada vez mais presentes na busca por entender melhor essas oportunidades.

Está claro que o setor privado se beneficiará enormemente dessas tecnologias, gerando vantagens crescentes e imensuráveis para a sociedade no longo prazo. Porém, as oportunidades devem ser estudadas à exaustão para se evitar desperdícios. O Brasil é um dos países que computam os maiores gastos em saúde como porcentagem do PIB, chegando a ultrapassar economias vistosas como a da Coreia do Sul. Porém, em território nacional, pouco desse valor é utilizado para incentivar o surgimento de novas tecnologias e inovações dos serviços públicos capazes de se estender à maior parte da população.

Hugo Vivas é consultor da Play Studio, consultoria de inovação e venture builder

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