Artigo – MINDSPACE: uma ferramenta de comunicação na saúde

Sabemos que a formulação das políticas de saúde deve sempre levar em conta o comportamento dos indivíduos. A grande questão é que nem sempre nós, profissionais e gestores da saúde, conhecemos a maneira como as pessoas se comportam, o que acaba atrapalhando a efetividade dessas políticas, a começar pela comunicação efetiva com a população. A maior fraqueza das abordagens que visam atrair e manter pessoas engajadas em iniciativas benéficas para a saúde é presumir que todos nos comportamos racionalmente, quando o ser humano está longe de responder sempre dessa maneira. Alguns caminhos plausíveis para fomentar uma real mudança de comportamento das pessoas estão no MINDSPACE, que abordarei neste artigo.

MINDSPACE é o acrônimo de Mensageiro, Incentivos, Normas, Default, Saliência, Priming, Afeto, Comprometimento e Ego, sintetizando em nove fatores os princípios científicos do comportamento. Este framework foi criado pelo Behavioural Insights Team, um grupo de cientista comportamentais do Reino Unido, e vem sendo adotado em campanhas do sistema público de saúde britânico na promoção da saúde e prevenção de doenças associadas ao abuso de álcool, tabagismo, sedentarismo, diabetes, obesidade, gravidez na adolescência e cuidado social, entre outros tópicos.

O diagnóstico de que não nos comportamos como se fôssemos perfeitamente racionais vem da Ciência Comportamental e da Economia Comportamental. A lógica que seguimos geralmente é: “Você me dará a informação, eu processarei essa informação mentalmente e meu comportamento mudará”. Acontece que as abordagens mais convencionais da motivação humana são baseadas na ideia de Educação: assumimos que as pessoas não se comportam como deveriam porque não têm conhecimento suficiente. Ou seja, se elas soubessem o quanto fumar é perigoso para a saúde, jamais fumariam. Historicamente, porém, essa abordagem não tem trazido o resultado esperado. Isso ocorre justamente porque não temos um déficit de conhecimento, mas sim de comportamento. Nós sabemos o que fazer, o problema é que não fazemos.

Os economistas comportamentais têm uma ótima resposta para esse paradigma. Eles reconhecem que somos irracionais e que nossas decisões são baseadas na emoção, ou seja, são sensíveis ao enquadramento e ao contexto social em que estamos inseridos. Nem sempre fazemos o que é de nosso interesse no longo prazo. Entretanto, a principal contribuição da Economia Comportamental não é reconhecer o quanto somos irracionais, mas que somos irracionais de maneira altamente previsível. Mais do que isso, é a própria previsibilidade das nossas fraquezas psicológicas que nos fornece estratégias para superá-las.

Vamos à explicação do acrônimo MINDSPACE, com seus direcionamentos valiosos para uma abordagem mais estimulante para o paciente:

MINDSPACE

M – Mensageiro
Somos fortemente influenciados por quem comunica informações;

I – Incentivos
Nossas respostas aos incentivos são moldadas por atalhos mentais previsíveis, como por exemplo, tentar evitar perdas de todas as formas. Resultados imediatos são muito mais motivadores do que resultados ainda mais importantes no longo prazo. Por isso, muitas vezes tendemos a furar a dieta e detestamos ficar de fora do bolão da loteria;

N – Normas
Somos fortemente influenciados pelo que outros fazem;

D – Default (Padrões de comportamento)
Nós “seguimos o fluxo” de opções pré-definidas;

S – Saliência (Relevância)
Nossa atenção é atraída para o que é novo e parece relevante para nós;

P – Preparação
Nossos atos são frequentemente influenciados por pistas subconscientes;

A – Afeto (Afetar)
Nossas associações emocionais podem moldar poderosamente nossas ações;

C – Compromisso
Procuramos ser coerentes com as nossas promessas públicas e atos recíprocos;

E – Ego
Agimos de maneiras que nos fazem sentir melhor a nosso respeito.

Nunca pensaríamos em usar essas ferramentas se achássemos que todos somos racionais o tempo todo. Apenas para deixar claro, não estou condenando a racionalidade, já que isso seria realmente irracional! Todavia, todos sabemos que são as partes não racionais de nossas mentes que são responsáveis pela coragem, criatividade, inspiração e tudo o que nos desperta paixão. Por outro lado, sabemos que podemos ser muito mais efetivos em melhorar o comportamento de saúde quando usamos as abordagens mais propícias a mudar o comportamento das pessoas. Quando se trata de saúde, entender nossa irracionalidade é mais uma ferramenta em nossa caixa. Tirar proveito dessa irracionalidade pode ser o comportamento mais racional e inteligente de todos.

Ana Carolina Nascimento Raymundo é enfermeira e Head de Care Value da Nilo Saúde, healthtech especializada na oferta de software para gestão de relacionamento e cuidado ao paciente

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