Artigo – Saúde no rumo da perenidade

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A área da saúde ainda tem apresentado muitas preocupações, dentre algumas delas, está o alto custo do setor, principalmente, diante de uma economia que ainda se recupera. Com isso, as organizações do segmento se encontram reflexivas sobre a manutenção da sustentabilidade delas neste mercado, com olhar na perenidade.

Dos diversos desafios do setor de saúde, vale destacar a busca por transparência com a promessa de transformar qualidade e custo ao longo de toda a cadeia do segmento. Mesmo nas organizações mais maduras, em muitas ocasiões, o progresso tem sido simbólico, causando frustrações na expectativa da administração com relação às áreas operacionais. De acordo com estudos recentes, até mesmo os países que lideraram essa transformação estão enfrentando dificuldades em demonstrar o valor capturado para todo o esforço aplicado. Quando se deparam com o volume crescente de dados, por exemplo, as empresas têm encontrado muitas barreiras para coletar, processar, armazenar e, principalmente, analisar as informações e descobrir como utilizá-las estrategicamente.

Há várias definições e interpretações sobre o significado de transparência em saúde, o que torna ainda mais complexa a tarefa de estabelecer e monitorar os indicadores de desempenho entre os gestores e as áreas operacionais incluindo terceiros. Para isso, é preciso utilizar alguns pilares de senso comum visando tornar a comunicação mais clara entre os diversos agentes de transformação de qualidade e custo, capturando valor na busca pela transparência nas organizações.

As literaturas ao redor do mundo sobre o assunto apontam para seis dimensões que endereçam os principais problemas e preocupações do setor de saúde e que podem ser a chave para darmos início a uma jornada de transformação na busca pela transparência. São as seguintes: qualidade do atendimento, experiência do paciente, transparência dos custos, governança, privacidade dos dados e comunicação e análise de dados.

Dessa forma, alguns temas importantes têm entrado, ainda mais, na pauta dos Conselhos de Administração e Diretorias, para melhoria deste cenário. Entre eles, estão a diminuição de custos, realização de processos mais otimizados e eficientes, além da reestruturação da gestão, de modo a torná-la mais profissionalizada, bem como a aplicação de boas práticas de governança corporativa, riscos, controles internos e compliance.

Com foco nesse panorama, no que tange à otimização na saúde, as organizações têm aderido a metodologia de Lean. Trata-se de um processo advindo da indústria automobilística, do sistema Toyota de produção, que tem o propósito de suprimir atividades desnecessárias, desperdícios, maximizando o valor ao cliente através de um método eficiente.

Na saúde, o sistema Lean Healthcare se encontra relacionado a processos assistenciais, de suporte e administrativos. Nesse prisma, podem se destacar uma economia significativa de recursos, além do aumento na qualidade dos serviços, sem deixar de resguardar algo muito relevante, a excelência no atendimento e a segurança.

Salienta-se que o sistema de saúde do Reino Unido (National Health Service – NHS), além do Sistema de Saúde do Canadá, também organizações nos Estados Unidos e algumas no Brasil já aplicam o Lean, que tem efetivamente apresentado resultados excelentes.

Nesse sentido, encontra-se a conexão com as diretrizes de governança e compliance ao tema de gestão. Todavia, quando se refere à área de saúde, convém observar não apenas a governança sob a perspectiva da gestão administrativa, mas, também, a concepção dos aspectos técnicos, clínicos e regulatórios do setor. Com isso, se destacam os aspectos de governança, como a corporativa, a clínica e, agora mais recente, a aplicada às operadoras de planos de saúde, especificada para as empresas do setor, de acordo com aa resolução normativa n.º 443/2019, da Agência Nacional de Saúde Suplementar, que enfatiza sobre controles internos e gestão de riscos, para fins de solvência das operadoras de planos de assistência à saúde, com obrigatoriedade de adequação até 2022.

Ressalta-se que a Governança e o Compliance, na área da saúde, são instrumentos de boas práticas que contribuem para uma maior transparência e integridade auxiliando os dirigentes e a organização na tomada de decisão, além de alcançar uma gestão mais coesa. Perante aos elevados custos que a saúde apresenta, as organizações que atuam na área devem estar conectadas com a visão da profissionalização da gestão, otimização dos processos de modo a promover a economicidade, aliada a eficiência e segurança. Nessa perspectiva, pode-se destacar o grande valor da implementação efetiva e conjunta da governança corporativa, com a que já é aplicada nas áreas operacionais como a clínica, além da advinda de obrigatoriedade regulatória, como no caso da operadoras de planos de saúde.

Por conseguinte, a implementação de um sistema de integridade e gestão em saúde deve ser estruturado de forma a alcançar a otimização e eficiência, aderente à cultura da integridade, com concretização de práticas conjuntas de governança, além do compliance efetivo e estratégico.

Sendo estas diretrizes cruciais para que se assegure, a excelência, qualidade, segurança e humanização, em consonância com os aspectos regulatórios, além da prevenção de riscos, controles internos, fraudes e combate à corrupção, para a construção íntegra e consolidada da perenidade das organizações.

Antonio Gesteira é sócio-líder da área de risco, compliance, forense e proteção de dados na KPMG e Juliana Oliveira Nascimento é gerente de estratégia, risco em compliance da KPMG

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