Dia Mundial da Hepatite inspira iniciativas globais da OMS

Às vésperas do Dia Mundial da Hepatite, celebrado em 28 de julho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma pesquisa global para investigar os casos da hepatite de origem desconhecida registrados em crianças em 35 países.

A entidade explica que a intenção é entender a incidência da doença, suas possíveis causas e consequências, que até o dia 8 de julho somou mais de mil casos prováveis. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, há apenas um caso provável de hepatite aguda grave de origem desconhecida, registrada no município de Ponta Porã (MS), que segue em monitoramento. Ainda de acordo com Boletim emitido pela pasta, 76 casos e seis óbitos são investigados.

O surto também acendeu alerta para as outras infecções agudas por hepatite viral. Segundo a OMS, a maioria das infecções agudas por hepatite tem quadro assintomático e sem diagnóstico correto, por isso, a entidade anunciou uma mobilização global para despertar junto à sociedade a importância do cuidado com a doença.

A doença pode ter diversas causas, entre as quais estão as infecções virais, e pode causar consequências graves e até a morte, como mostram os números da entidade. Em 2019, estima-se que mais de 78 mil óbitos mortes ocorreram por complicações de infecções agudas de pacientes com diagnóstico de hepatite A e E. Ainda de acordo com a organização, a campanha também vai dedicar esforços globais para sensibilizar para a prevenção de infecções por hepatite B, C e D, que causam inflamações crônicas no fígado e já provocaram a morte de mais de 1 milhão de pessoas no mundo.

O médico infectologista e consultor do Grupo Sabin, Alexandre Cunha acompanha os indicadores da doença e destaca a importância de movimentos como o da OMS para uma provocação social sobre os cuidados com com a hepatite.

“Iniciativas como esta servem de alerta para os riscos de exposição populacional aos vírus que causam as diferentes hepatites e também para que as pessoas não negligenciem os cuidados com a saúde. Um diagnóstico tardio de hepatite, por exemplo, pode ser um grande complicador da jornada de pacientes. Ao detectar a doença uma fase muito tardia, as sequelas da doença podem ser graves, muitas vezes só um transplante do órgão salva o paciente, se as funções do fígado estiverem seriamente prejudicadas pelo vírus. Por isso é importante que as pessoas adotem comportamentos preventivos e façam o exame pra descobrir precocemente e iniciar o tratamento correto”, afirma.

Ainda segundo o infectologista, a gravidade e o prognóstico da hepatite podem variar bastante, de acordo com o agente que desencadeia a doença e as comorbilidades que acompanham os pacientes. Outro alerta do especialista é para o fácil acesso às formas de diagnóstico e prevenção da doença. “As redes pública e particular disponibilizam testes rápidos para descobrir se o organismo está infectado pelos o vírus da hepatite e em diversos casos, se diagnosticada precocemente, as chances de cura são maiores. Além disso, é possível se prevenir contra alguns tipos da doença de forma eficaz com as vacinas que podem ser encontradas também no sistema público e privado”, explica.

Doença pode ser silenciosa e requer cuidados específicos

De acordo com dr. Alexandre, diversos fatores estão associados às causas da hepatite, como o consumo de bebida alcoólica. “A ingestão de álcool pode acelerar o desenvolvimento da doença e causar progressão até quatro vezes mais rápido que o normal, dependendo da quantidade ingerida. Outras atividades que podem ser consideradas de risco são uso de drogas injetáveis ou inaladas, já que as agulhas e canudos utilizados podem transmitir sangue de uma pessoa para outra, relação sexual sem proteção”, listou.

O especialista explica que a hepatite é provocada pela inflamação das células do fígado e a medicina atual lista 5 etiologias associadas aos vírus: Hepatite A, Hepatite B, Hepatite C, Hepatite D, Hepatite E), sendo a hepatite A, B e C as mais comuns.

Vacinação é aliada no combate ao vírus

O médico explica que, ao contrário da hepatite viral aguda (A e E), a hepatite crônica que pode durar anos, por isso “buscar orientação e cuidados ajudam a diagnosticar, tratar e prevenir a hepatite viral crônica”. O especialista observa ainda que também é imprescindível disseminar a importância da vacinação para conferir proteção contra os vírus.

“A vacinação é a estratégia de saúde mais eficaz da atualidade e podem ajudar a reduzir novas infecções e consequentemente diminuir as mortes relacionadas à hepatite por cirrose hepática e câncer”.

As diferentes formas da doença

Em termos de apresentação clínica, as hepatites podem ser classificadas de duas maneiras:

Hepatite aguda – São casos em que os sintomas perduram por até 6 meses

Hepatite crônica – Casos em que a inflamação do fígado dura mais de 6 meses

Podendo ser causada por vírus, a chamada hepatite viral, ou fatores externos como ingestão excessiva de substâncias tóxicas (álcool, drogas, abuso de alguns fármacos, por exemplo), alteração no sistema imune e presença de gordura no fígado (esteatose), a doença é dividida em tipos distintos:

Hepatite A Causada pelo vírus VHA, a doença é transmitida, na maioria dos casos, via fecal-oral, usualmente, de pessoa para pessoa ou por meio de alimentos contaminados com o vírus. Nas crianças, é habitualmente assintomática e em adultos os relatos são sintomas semelhantes ao da gripe e costumam ocorrer um mês após ocorrer a infeção. Em grande parte, a infeção evolui sem grandes complicações e sem problemas hepáticos;

Hepatite B – Causada pelo vírus VHB, a infeção é viral e pode evoluir para a forma aguda ou crônica. O vírus é transmitido de pessoa para pessoa por meio de fluidos corporais, principalmente em relações sexuais sem proteção ou compartilhamento de seringas. Os sintomas em quadros de hepatite B aguda são semelhantes ao da gripe e a maioria dos pacientes não precisam de tratamento. No entanto, cerca de 5% dos casos podem evoluir para quadro crônico, que pode ocasionar cirrose ou câncer do fígado. Neste caso, não há cura, são recomendados tratamentos com antivirais para manter a carga do vírus negativa. Tem vacina de proteção;

Hepatite C – Causada pelo vírus VHC, a transmissão se dá por meio do contato sangue de pessoas infetadas, principalmente em situações de compartilhamento de seringas, agulhas, escovas de dentes, máquinas de barbear e objetos cortantes, além de transfusões de sangue. A infecção pode também ocorrer por via sexual, mas o percentual de casos é menor. A maioria dos pacientes não apresenta sintomas e não desenvolve alterações hepáticas, mas os relatos apontam recorrente evolução para quadros crônicos. Muitos infectados convivem de forma assintomática geralmente nos primeiros 20 anos de contato com o vírus, e a partir daí costumam aparecer sintomas como cansaço, falta de apetite para comer, náuseas ou vómitos, dores musculares ou articulares, emagrecimento, além de principais complicações relacionados à hepatite crônica, como câncer e cirrose. O tratamento varia de acordo com o grau de lesão do fígado. A hepatite C tem cura e ainda não tem vacina;

Hepatite D – Causada pelo vírus VHD ou Delta, este tipo de hepatite é menos frequente e a transmissão é por via sexual. O tratamento recomendado é feito com interferon. Por enquanto, não há vacina disponível, no entanto, pacientes vacinados para VHB, da hepatite B, não desenvolvem essa infeção;

Hepatite E – Causada pelo vírus VHE, a doença é menos frequente e tem infecção sem sintomas, além de não evoluir para quadros crônicos (exceção em casos de pacientes imunodeprimidos – doentes HIV+ ou que façam medicação para a imunidade, como os doentes transplantados). Pacientes que precisam de acompanhamento e internação são tratados com antiviral. Em países endêmicos, há vacina;

Hepatite autoimune – A doença atinge o sistema imunológico, atacando as células do fígado e provocando a inflamação. Progressiva, essa hepatite vitima principalmente as mulheres e geralmente não apresenta sintomas, mas as alterações podem ser detectadas em exames de rotina. Na fase mais avançada, a hepatite autoimune pode progredir para a cirrose e, neste caso, o diagnóstico é feito em exames sanguíneos e biópsia ao fígado. O tratamento é feito com corticoides e outras substâncias;

Hepatite tóxica – Inflamação do fígado provocada pelo consumo de produto tóxico, como: álcool, drogas, medicamentos, suplementos à base de plantas ou produtos químicos. A hepatite tóxica causada pelo álcool é uma das principais causas de cirrose e de transplante hepático. A doença pode ser evitada com rotinas simples de cuidados, como evitar automedicação, além de reduzir a ingestão excessiva de álcool e drogas.

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