Dia Mundial do Câncer: Pandemia clareia caminhos na busca da cura por meio da vacina

A pandemia do novo Coronavírus trouxe prejuízos ao tratamento contra o câncer. E, surpreendentemente, desencadeou avanços. Na contramão dos tratamentos que tiveram de ser interrompidos ou adiados em razão da crise sanitária, a concentração de esforços para desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19 acabou por clarear os caminhos em direção a um imunizante contra o câncer. Novas terapias aprimoradas com uso da tecnologia e antigas técnicas redefinidas a partir da evolução de estudos trouxeram luz ao tratamento oncológico. A cura definitiva do câncer é uma possibilidade? Sim, acredita o médico Fernando Medina, do Centro de Oncologia Campinas (SP).

Em 4 de fevereiro, quando é celebrado o Dia Mundial de Combate ao Câncer, é certo afirmar que o número de mortes pela doença aumentou nos últimos anos em decorrência da necessidade de priorizar o combate à pandemia. Intervenções foram adiadas e exames de rastreio, fundamentais à detecção precoce, ficaram em segundo plano. Porém, estudos e pesquisas tiveram segmento para ampliar as opções de tratamentos e de novas drogas direcionadas ao enfrentamento do câncer.

Estudo lançado pelo Instituto Nacional de Câncer aponta que 704 mil novos casos de câncer serão descobertos no Brasil a cada ano do triênio 2023-2025. Cerca de 70% destes casos estarão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. Os diagnósticos tardios comprometeram os prognósticos do câncer, só que a pandemia, por outro lado, reacendeu uma esperança alimentada há décadas: a da descoberta de uma vacina contra o câncer.

Pesquisadores que apresentaram ao mundo os imunizantes de RNA mensageiro (mRNA) em tempo recorde para conter o Coronavírus, aproximaram o câncer de uma vacina especifica. A tecnologia de RNA mensageiro já era estudada há décadas, mas o processo foi acelerado a partir de 2020 pela emergência sanitária mundial. O princípio do mRNA sintético de estimular o sistema imune a combater o vírus da Covid se aplica ao processo de incentivar o próprio organismo a reconhecer marcadores do câncer e atacá-los.

“As perspectivas para 2023 no tratamento contra o câncer são muito boas. Estudos mais recentes mostraram que as vacinas desenvolvidas para combater a Covid trouxeram avanços para os imunizantes contra o câncer. O RNA mensageiro pode ser direcionado ao tratamento de vários tipos de cânceres, para identificar e atacar as células cancerígenas que já existem na pessoa”, detalha Medina.

Outras terapias

Neste ano de 2023, Fernando Medina acredita no aprimoramento de outras terapias bem-sucedidas contra o câncer já em uso, uma delas a Terapia Celular Adotiva – ou terapia à base de células CAR-T. O procedimento, explica, consiste em retirar células de defesa do organismo do paciente, reprograma-las em laboratório e reintroduzi-las no organismo para que possam enfrentar o câncer.

“É um campo da área da pesquisa que tenho carinho muito grande porque foi parte da minha tese de doutorado. Essa terapia celular teve origem décadas atrás, mas os estudos foram abandonados e voltaram mais recentemente com excelentes perspectivas”, avalia o oncologista.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no ano passado o registro sanitário no país de uma terapia à base de células CAR-T para leucemia linfoblástica aguda e linfoma difuso de grandes células B, produzida pela farmacêutica Novartis. Em abril, um tratamento do tipo para mieloma múltiplo da Janssen-Cilag Farmacêutica também foi autorizado pela Anvisa. Pesa contra a terapia celular o custo elevado. O preço no Brasil ultrapassa R$ 1 milhão.

Imunoterapia

Outra terapia efetiva que ganhou peso recentemente – e também avanços – é a imunoterapia, que não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), mas é contemplada pela saúde suplementar em determinados casos.

“E esse é um problema muito sério, porque há tumores que têm quase que exclusivamente tratamento por meio de imunoterapia, como certos tipos de câncer de pulmão e o melanoma (tipo mais agressivo de câncer de pele), mas o SUS não custeia esse tratamento”, observa Fernando Medina.

A imunoterapia consiste em estimular o sistema imunológico do paciente a localizar e combater as células cancerígenas. Os imunologistas James P. Alisson e Tasuko Honjo descobriram que as células cancerígenas produzem proteínas que bloqueiam o linfócito T, nossa célula de defesa. Com esse entendimento, criaram medicamentos para romper o bloqueio e permitir que o corpo reaja à doença.

O uso da imunoterapia, indica Medina, é bastante eficiente no tratamento de alguns tipos de câncer de pulmão, bexiga, rins, melanoma, cabeça e pescoço e linfomas de Hodgkin. Por ter como objetivo o fortalecimento do sistema imune para que ele combata as células tumorais, a imunoterapia é menos invasiva que outros tratamentos, como alguns tipos de quimioterapia.

“Essas drogas que atacam o bloqueador do sistema de defesa do organismo têm se desenvolvido muito. Vários medicamentos foram aprovados. Só em 2022, a despeito de todo o problema que enfrentamos com relação à Covid, nós tivemos a aprovação de 40 novos medicamentos para oncologia. Doze eram moléculas inéditas para tratamento do câncer”, salienta o médico do COC, apontando avanços também em estudos e pesquisas para combinação de drogas na obtenção de melhores resultados.

O que mais esperar

Medina destaca ainda o desenvolvimento da medicina de precisão, que nada mais é do que um tratamento “personalizado”, elaborado especificamente para um determinado tipo de tumor.

“Existe uma preocupação muito grande no estudo do DNA tumoral circulante, os biomarcadores e na busca de substâncias que possam ser alvo-terapêuticas de medicamentos. Ou seja, você descobre alterações no DNA para que possa dar medicamentos direcionados especificamente a combater essas alterações”, define. “Por uma alteração genética, as células cancerígenas se multiplicam sucessivamente. Se você corrige essa mutação, as células cancerígenas param de se reproduzir”.

Outra evolução na linha de frente contra o câncer, observa Medina, é a que envolve as técnicas e conceitos de detecção precoce do câncer em geral. “Mais estudos de prevenção estão encaminhados para aumentar o índice de detecção da doença no princípio, porque só assim sabemos que teremos maior possibilidade de cura. Hoje, através de exames de sangue, análises genéticas e exames de imagem muito sensíveis evoluímos e podemos evoluir mais para localizar a doença em fases ainda mais iniciais.”

Nos próximos dez anos, acredita, haverá muitas novidades de técnicas e tratamentos, o que elevará a expectativa de vida do ser humano e as estatísticas de cura do câncer. “Quando comecei na oncologia, na década de 1980, o índice de cura do câncer estava em 40%. Atualmente, as chances de sucesso são de 70%. Estamos cada dia mais próximos de encontrar a cura para o câncer”, compara. “Mas tudo isso passa pela necessidade de adotarmos hábitos saudáveis de vida, de não beber, não fumar, comer alimentos que ajudam a evitar doenças e adotar um estilo de vida mais adequado”.

Medina confia que já a partir deste ano, avanços significativos surgirão no tratamento oncológico. “A evolução atualmente é rápida. Estamos mais próximos de obter a vacina, que trará resultados importantes, principalmente contra melanoma, tumor renal e câncer de mama. O conhecimento que temos hoje será pequeno perto daquele que teremos daqui a 10 anos.”

Redação

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