Melhorias consistentes em diferentes indicadores de segurança do paciente
Ao longo dos nove anos analisados, a maior parte dos indicadores apresentou evolução favorável. Os pesquisadores observaram redução das infecções primárias da corrente sanguínea associadas ao uso de cateter venoso central, das infecções do trato urinário relacionadas ao uso de cateter vesical, das lesões por pressão e das quedas de pacientes internados. Também houve aumento da proporção de pacientes com sepse que receberam antibióticos na primeira hora após o reconhecimento da doença — um dos indicadores mais importantes para reduzir a mortalidade nesses casos — e diminuição do tempo entre a chegada ao hospital e a realização da angioplastia em pacientes com infarto agudo do miocárdio, procedimento cujo sucesso depende diretamente da rapidez do atendimento.
Embora alguns indicadores tenham permanecido estáveis ao longo da série histórica, nenhum apresentou piora consistente. Na avaliação dos autores, esse comportamento reforça a hipótese de que a combinação entre protocolos assistenciais padronizados, monitoramento sistemático, auditorias periódicas e acompanhamento permanente dos resultados contribuiu para consolidar uma cultura de melhoria contínua em toda a rede hospitalar.
“O ponto mais evidente e já refletido no título diz respeito à governança clínica unificada e à tendência dos indicadores de qualidade técnica ao longo do tempo. Observa-se, de forma consistente, uma melhora progressiva da maioria desses indicadores na série histórica analisada. Alguns permanecem estáveis, mas nenhum apresenta piora”, afirma Helidea.
A pandemia colocou o modelo de gestão à prova
O estudo também permitiu observar o comportamento dos indicadores antes, durante e após a pandemia de Covid-19, período que representou um dos maiores desafios já enfrentados pelos sistemas de saúde em todo o mundo. Em diversos países, hospitais registraram aumento de infecções relacionadas à assistência, sobrecarga das equipes, escassez de profissionais e dificuldades para manter protocolos assistenciais durante os momentos mais críticos da emergência sanitária.
Na Rede D’Or, alguns indicadores também sofreram impacto temporário nesse período. Houve aumento das infecções relacionadas à assistência e das lesões por pressão, comportamento semelhante ao observado internacionalmente. No entanto, após a fase mais aguda da pandemia, esses indicadores voltaram a apresentar tendência de melhora, retomando a trajetória observada antes de 2020.
Para os pesquisadores, esse resultado demonstra a capacidade de recuperação de programas estruturados de qualidade assistencial mesmo diante de situações extremas. Segundo o estudo, a existência de protocolos padronizados, auditorias permanentes, benchmarking entre hospitais, compartilhamento de boas práticas e acompanhamento sistemático dos indicadores contribuiu para preservar a cultura de segurança do paciente durante todo o período analisado.
Outro aspecto considerado relevante foi o crescimento da própria Rede D’Or ao longo da pesquisa. Enquanto novas unidades eram incorporadas ao grupo, os indicadores assistenciais mantiveram comportamento semelhante ao observado nos hospitais que já integravam a rede anteriormente. Na avaliação dos autores, isso sugere que um modelo estruturado de governança clínica pode facilitar a integração de novos hospitais, reduzindo diferenças assistenciais e acelerando a disseminação de padrões comuns de qualidade em organizações de grande porte.
Além da qualidade assistencial, os pesquisadores investigaram se o investimento contínuo em protocolos, auditorias, treinamento das equipes e monitoramento de indicadores poderia comprometer o desempenho financeiro das instituições. A análise não identificou associação consistente entre a melhora dos indicadores assistenciais e pior desempenho econômico ao longo do período estudado. Embora o desenho da pesquisa não permita estabelecer relações de causa e efeito, os resultados sugerem que investir em qualidade não significa, necessariamente, comprometer a sustentabilidade financeira dos hospitais.
“Considerando-se que houve evolução positiva da performance econômica ao longo do período analisado, é razoável inferir que a qualidade contribuiu para o fortalecimento global da organização”, pondera Helidea.
Além de acompanhar a evolução dos indicadores assistenciais, o estudo procurou responder a uma questão cada vez mais relevante para gestores hospitalares: é possível investir continuamente em qualidade sem comprometer a sustentabilidade econômica das instituições?
Segundo os pesquisadores, os resultados apontam que sim. Embora o estudo não permita estabelecer uma relação direta de causa e efeito, a melhora sustentada dos indicadores assistenciais ocorreu paralelamente à evolução positiva do desempenho econômico da organização. Na avaliação dos autores, essa combinação reforça que programas estruturados de governança clínica podem contribuir para organizações mais eficientes, capazes de ampliar a segurança do paciente sem abrir mão da sustentabilidade.
Para Helidea, o principal legado da pesquisa vai além da evolução individual dos indicadores.
“Assim, mais do que apresentar resultados isolados, este estudo oferece uma análise histórica consistente da trajetória da Rede D’Or: sua consolidação, expansão, enfrentamento de desafios críticos e entrega sustentada de resultados de qualidade técnica, o que repercute necessariamente em melhores desfechos aos pacientes atendidos”, conclui.
Segundo Leandro Reis Tavares, vice-presidente executivo da Rede D’Or São Luiz, o estudo reforça que qualidade assistencial deve fazer parte da estratégia de crescimento de qualquer organização de saúde.
“Expandir uma rede hospitalar preservando padrões assistenciais elevados exige planejamento, monitoramento permanente e uma cultura organizacional voltada para a melhoria contínua. Este estudo demonstra que investir em governança clínica, protocolos baseados em evidências e acompanhamento sistemático dos indicadores é fundamental para fortalecer a segurança do paciente e garantir a sustentabilidade da organização.”
Os autores destacam que novas pesquisas poderão identificar quais componentes da governança clínica exercem maior influência sobre a evolução dos indicadores assistenciais, além de avaliar se estratégias semelhantes produzem resultados comparáveis em hospitais públicos, instituições filantrópicas e outras redes hospitalares, no Brasil e em diferentes países.
Para os autores, o trabalho amplia as evidências de que modelos estruturados de gestão clínica, baseados em padronização de processos, monitoramento contínuo dos resultados e disseminação de boas práticas, podem sustentar melhorias permanentes na qualidade da assistência mesmo em cenários de expansão organizacional e diante de crises sanitárias de grande magnitude.

