Gente que gosta de gente: a ciência humanitária como caminho para o bem-estar social

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Por Carol Gonçalves

É com enorme dedicação que o professor Ricardo Valentim fala de seu trabalho como coordenador do LAIS – Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde, da UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, localizado em Natal. Este é o primeiro laboratório instalado em um hospital brasileiro (Hospital Universitário Onofre Lopes) com o propósito de promover a inovação tecnológica em saúde, visando aprimorar a qualidade dos serviços para toda a população. Ricardo já recebeu vários prêmios por sua contribuição ao setor e é constantemente chamado para apresentar palestras sobre ciência humanitária, assunto que aborda de forma empolgante, afinal, ele sabe que só é possível fazer a diferença no mundo movido pelo amor ao próximo. Doutor em Engenharia Elétrica e de Computação pela UFRN, direcionou seus conhecimentos em tecnologia para a área de saúde, que considera estratégica para o desenvolvimento econômico do país. Saiba mais sobre sua história, seus planos e o desenvolvimento do LAIS nesta entrevista que enche nossos corações de esperança num mundo mais altruísta e justo, com foco no bem-estar de todas as pessoas através do trabalho, do estudo, da ciência e da tecnologia.

Conte brevemente sua história como impulsionador do LAIS.

Minha história na UFRN começa como estudante de pós-graduação, com formação na área de computação. No mestrado, trabalhei com sistemas de tempo real para informática industrial, aplicados à área de petróleo. Nesse período, passei em um concurso para um hospital universitário e então entendi que o que é aplicado em termos de controle e automação dentro da área industrial também pode ser aplicado na área de automação hospitalar. E assim fiz meu mestrado e meu doutorado voltados à engenharia elétrica, desenvolvendo e validando protocolos para automação hospitalar. Se olharmos hoje o que está acontecendo na área de saúde, com a quarta revolução industrial, todas as previsões já estavam descritas na minha tese de doutorado, em 2008, quando propus uma arquitetura para a automação hospitalar que integrasse diversos tipos de sistema e plataformas voltadas para a internet das coisas, área que não se falava na época. Minha paixão por desenvolver tecnologias para o setor de saúde veio justamente quando comecei a trabalhar no hospital universitário. Nesse período, passei também em um concurso para professor do Instituto Federal e comecei a desenvolver alguns trabalhos com alunos do ensino médio e do ensino tecnológico. Depois de três anos, passei em um concurso para professor da UFRN e, em 2010, assumi o cargo de professor no Departamento de Engenharia Biomédica, trazendo comigo essa ideia de criar um laboratório de inovação em saúde. Foi através da observação da falta de pesquisa e pesquisadores motivados a produzir inovações em saúde, que eu e mais dez professores criamos o LAIS, que atua até hoje de maneira transdisciplinar em quase todas as áreas que envolvem educação, saúde e tecnologia para melhorar a qualidade dos serviços de saúde no Brasil.

Qual a importância da ciência humanitária para a sociedade atual?

A ciência humanitária é extremamente importante para a sociedade contemporânea, porque vivemos alguns desafios sociais, como o rápido processo de envelhecimento. Em cinquenta anos, se investiu muito em ciência e tecnologia para a saúde no mundo todo, permitindo que o ser humano vivesse mais. Sendo que, com isso, diversos outros paradigmas precisam ser quebrados. Teremos uma sociedade de idosos que vão enfrentar desafios, como previdência social, maiores adoecimentos e o pagamento de planos de saúde. Paralelo a isso, com a quarta revolução industrial e a automação de processos humanizados, que eram antigamente feitos manualmente, se criará um vácuo de pessoas desempregadas. A ciência humanitária vem justamente para dar conta disso, mudar os paradigmas do processo de formação, colocando-o para toda a sociedade ao longo da vida e mediado por tecnologias, visto que os idosos terão de estudar para continuar trabalhando, além dos jovens, que precisarão ter outro tipo de qualificação que se encaixe ao movimento dessa quarta revolução industrial. Somente uma ciência com olhar transdisciplinar, como a ciência humanitária, vai conseguir dar conta desses movimentos no processo do capitalismo, pois ela considera os aspectos sociais, econômicos e humanos, que precisam estar em harmonia para levar ao bem-estar social.

Quais os maiores desafios para a pesquisa em saúde no Brasil?

O Brasil precisa amadurecer e pensar em como conduzir pesquisas que olhem para o segmento da saúde como algo estratégico para o desenvolvimento econômico, trazendo, além de artigos científicos, patentes que possam estar incluídas no setor produtivo, movimentando a economia interna e externa através de exportações, royalties… É necessário fazer cooperações internacionais que vão além das instituições acadêmicas e estejam conectadas com os interesses da indústria, sociais e acadêmicos. Os países que fizeram isso conquistaram projeção econômica dentro do segmento de saúde, que é riquíssimo, e trouxeram grandes valores agregados. Sendo assim, o pesquisador não deve desenvolver pesquisas que são apenas de seu interesse, mas também que vêm de demandas da sociedade, pois elas têm mais sustentabilidade e recursos disponíveis.

“O LAIS desenvolve tecnologias que são demandas do HUOL, como o projeto ‘pacs’, o sistema de pediatria e o GEMA, voltado para o setor psiquiátrico”

Como esses desafios podem ser vencidos?

Existem várias estratégias, mas a principal é a permanência contínua de investimentos em pesquisa. A segunda é que os nossos pesquisadores precisam ser treinados a captar recursos que sejam suficientes para desenvolver pesquisas com profundidade. Brasileiros têm dificuldade nisso. Outra questão é criar centros de referência de pesquisa no Brasil, trazendo isso também para as regiões Norte e Nordeste, potencializando e integrando esses centros, criando multicentros onde os pesquisadores brasileiros possam transitar. Criar essa rede é extremamente importante, tanto quanto a manutenção e o fortalecimento de programas de pós-graduação, principalmente os profissionais, como mestrados e doutorados, que têm um impacto mais rápido no desenvolvimento de ações que possam melhorar a qualidade dos produtos e trazer mais inovação. Esses segmentos de mestrado e doutorado profissionais também são importantes pois são autofinanciados, ou seja, o estado os mantêm. A coordenação dos projetos e os professores vão articular e trabalhar junto ao setor produtivo e a sociedade para dar sustentabilidade a esse programa, colocando a equipe de pesquisadores em outro patamar.

As perspectivas no campo da pesquisa em saúde no Brasil são positivas?

São sempre positivas. Se olharmos para o país de trinta anos atrás, percebemos que o Brasil vem avançando. Nós nunca retrocedemos, porém, isso não quer dizer que andamos com a velocidade que precisávamos para ser referência em saúde. Nós temos todo o potencial, um dos maiores mercados do mundo, posição geográfica estratégica, perto da Europa e muito próximos dos Estados Unidos e fora de problemas ambientais, como catástrofes, ou seja, temos toda a estabilidade necessária para desenvolver ciência em qualquer área. Especificamente no segmento de saúde, temos cientistas com grande competência para desenvolvimento. O que falta no Brasil é um olhar que possa apoiar de maneira profissional o desenvolvimento da ciência, e eu acho que já existe um movimento que está tentando nos levar para esse ponto. Os cientistas brasileiros e as universidades começaram um pouco tarde a observar que a sociedade precisa saber o que estamos fazendo. Acho que vamos crescer bastante, há uma pressão para esse crescimento e isso deverá acontecer, mas, antes disso, deve ser feito todo um trabalho na área da ciência, tecnologia e saúde, para que a gente aponte qual caminho e o quanto o Brasil está disponível a ser uma referência nessa área. O setor da saúde sustenta crises no país, é o espaço onde o cidadão tem segurança. Entretanto, para que cheguemos nesse nível e possamos promover e produzir riquezas, precisamos de outras ações, como investimentos mais fortes na educação e na área de ciência e tecnologia.

Quais os diferenciais que tornam o LAIS um local de excelência em pesquisa?

O LAIS tem se destacado e recebido várias premiações internacionais desde o período de fundação, por ser um laboratório que trabalha em pesquisas de demandas reais do sistema de saúde brasileiro. Ou seja, nós não chegamos com nossos projetos de pesquisa oferecendo à sociedade. Nós buscamos os problemas que a sociedade tem e passamos a resolver, e em cima desses problemas nós utilizamos a evidência científica para desenvolver um trabalho de qualidade que dê respostas a essas demandas. Esse tem sido o grande diferencial do nosso laboratório. Nós posicionamos primeiramente o LAIS em uma área transdisciplinar, que envolve várias áreas do conhecimento: saúde, educação, tecnologia, engenharias, ciências humanas e sociais, incluindo mais de 400 pesquisadores e pontos de articulação na área da ciência em vários lugares do mundo: França, Israel, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Colômbia… Nosso eixo principal de ataque em termos de pesquisa são a atenção primária à saúde e a vigilância em saúde, duas áreas estratégicas onde atuamos de maneira transversal, indo desde a formação humana em saúde ao longo da vida, com a educação mediada por tecnologias, até o desenvolvimento de biossensores e tecnologias para melhorar todo o processo de gestão do trabalho e organização do sistema de saúde brasileiro.

Quais os próximos projetos do LAIS que merecem destaque?

Com o projeto Sífilis Não, o LAIS está apostando, desde 2018, no desenvolvimento de biosensores que trabalham especificamente com proteômica, genômica e com a Teoria das Antenas. Quando iniciamos o desenvolvimento de um biossensor para detecção da Sífilis Congênita, descobrimos que, essa mesma tecnologia – inteligência artificial, redes neurais e uma arquitetura baseada em engenharia de computação – poderia ser aplicada também em outras microbactérias, como hanseníase, tuberculose e gonorreia. O laboratório agora se debruça sobre isso porque são diagnósticos conclusivos com um nível de precisão de 99%, com aplicação direta na atenção primária e que vão melhorar muito a regulação de todo o nosso sistema. Vale destacar que somos o único grupo no mundo interessado em trabalhar com microbactérias em termos de diagnósticos aliados à proteômica. Na área da Teoria das Antenas, estamos fazendo medição de densidade óssea, um projeto com patente depositada e muito importante que veio de um dos nossos pesquisadores. Outro projeto está na área da detecção de cânceres de próstata, de mama e colo de útero, que poderia ser antecipada se a atenção primária tivesse ferramentas e mecanismos para diagnosticar. Além disso, temos o projeto “Autônomos”, para pessoas com esclerose lateral amiotrófica. Estamos desenvolvendo uma série de tecnologias para melhorar a reabilitação, a inclusão e a acessibilidade do paciente, além de aperfeiçoar protocolos clínicos que aprimorem a qualidade de vida, a atenção e o cuidado domiciliar.

Como o HUOL tem se beneficiado das ações do laboratório?

O Hospital Universitário Onofre Lopes é um grande parceiro nosso. Na época de constituição do LAIS, em 2010, o professor Ricardo Lagre, até então diretor do hospital, percebeu que um laboratório dessa natureza poderia contribuir muito para o desenvolvimento do nosso país. A visão dele era que os hospitais e a saúde brasileira deixassem de ser meros consumidores de tecnologia e passassem a produzir e a incorporar tecnologia no seu sistema. O LAIS poderia dar esse start e ser exemplo para todos. E foi o que aconteceu. Hoje somos referência para vários lugares do mundo e somos requisitados para apresentar como foi implantado e como funciona o laboratório. Mas o principal benefício do LAIS é que ele contribui para o credenciamento do hospital universitário como hospital de ensino, o que aumenta a receita da instituição em 70%, ou seja, isso é extremamente estratégico, além de dar visibilidade ao HUOL como centro de saúde que desenvolve pesquisa de impacto nacional. É importante citar que, em uma semana, recebemos visitas estratégicas no HUOL do ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, e do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, que reconheceram o laboratório como um exemplo para todo todo o Brasil.

Conte alguns resultados que o HUOL alcançou com a parceria.

Um deles é o sistema de arquivamento de imagens médicas. Em 2010, o hospital universitário tinha um problema enorme, porque era totalmente dependente de fornecedores com relação ao sistema de arquivamento de imagens médicas, chamado de “pacs”. O primeiro desafio dado pelo diretor do hospital, na época, foi desenvolver um sistema que libertasse o hospital desses fabricantes, e que ele não ficasse dependente de um só. Com a tecnologia desenvolvida no LAIS, o hospital nunca mais dependeu de fabricante para armazenar as imagens dos seus pacientes. Nosso sistema é avaliado em mais de 4 milhões de reais. Se estivesse pagando licença pela tecnologia, o hospital teria gasto muito mais de 6 milhões de reais durante quase dez anos de uso. Outro destaque é o GEMA, desenvolvido pelo LAIS para o setor psiquiátrico do hospital. O projeto ganhou tanto destaque no Rio Grande do Norte que a justiça federal também está usando de forma compartilhada. Mais um resultado muito positivo para o HUOL é o sistema na área de telepediatria, que faz todo o mapeamento de pacientes pediátricos e diabéticos. Com isso, temos um banco de dados com mais de três mil pacientes, melhorando a qualidade da assistência.

Como é sua rotina?

A minha rotina começa muito cedo, às 6h40, quando deixo meu filho na escola. Geralmente trabalho até as 22h todos os dias. Além de coordenar o laboratório, desenvolver ações administrativas na universidade e no hospital, também administro aula, tanto na graduação, quanto na pós-graduação. Por isso, é preciso muita disciplina e foco para dar conta das atividades, que incluem resolver conflitos internos dos grupos, que são grandes, resolver demandas da universidade e tocar projetos que são arrojados e exigem bastante, principalmente pela variação de formação da equipe. Temos uma equipe muito profissional, cada um com a sua idiossincrasia, e é preciso articular e harmonizar interesses dos grupos em função dos propósitos do laboratório e dos objetivos dos projetos. Ainda assim, consigo fazer academia! É importante dizer que de 2010 a 2018, ganhei 27 quilos e fiquei obeso. Mas de 2018 para cá, consegui perder esses mesmos quilos. Não tem como trabalhar com saúde se eu mesmo não consigo cuidar de mim. Apesar de ser uma rotina puxada, é muito apaixonante, eu não sinto que trabalho demais, porque gosto muito do que faço.

“Precisamos olhar para a área de pesquisa no Brasil de forma empreendedora, conectando a academia com os segmentos social e empresarial”

Como você mescla sua vida profissional com a pessoal?

Apesar de ter uma vida de muitos projetos e muito trabalho, de estar em várias ações com muitas viagens, eu nunca abro mão de estar com a minha família. No fim de semana procuro dar prioridade a ela. Tem horas que preciso trabalhar, mas isso é combinado. Faço questão de pegar e deixar meu filho na escola. Faço questão de almoçar e jantar em casa. Faço questão de no fim de semana nos reunirmos com os amigos e sair. Eu priorizo esses horários para que consiga harmonizar a minha vida pessoal com a minha vida de trabalho. Porque não dá para trabalhar bem se não deixar a nossa casa organizada, se não cuidar da nossa família, se não tiver momentos com os nossos amigos para sentar e conversar, comer uma boa comida, tomar um vinho e bater um papo. Esses momentos são muito importantes até para garantir a nossa saúde mental, a qualidade do nosso trabalho e da nossa vida pessoal. Para mim, é um orgulho trabalhar muito, porque é esse tipo de referência que eu quero deixar para os meus filhos e para as pessoas que trabalham comigo. Sempre gosto de dizer que não adianta somente estudar muito, tem que estudar muito e trabalhar muito e cuidar das pessoas que merecem cuidados, como os nossos familiares e amigos.

O que gosta de fazer nos momentos de lazer?

Preparar comida ou ir para um restaurante comer bem com minha família e amigos. Adoro bacalhau e um bom vinho. Isso me deixa muito feliz. Nas minhas férias, gosto de viajar e proporcionar para o meu filho e minha esposa momentos de lazer cultural, conhecendo outras sociedades, como elas pensam e se organizam. Também gosto de ler e estudar.

Quais os valores que norteiam sua vida?

São dois: respeitar as pessoas, sempre fazendo o bem, e trabalhar. É através do trabalho que você consegue realizar aquilo que deseja, não tem outro caminho. Para mim, fazer o bem não é somente a caridade de doar, mas também ajudar as pessoas que estão perto da gente a se desenvolver. Isso tem um enorme valor, tanto que é o lema do laboratório: fazer da ciência um instrumento de amor ao próximo, usar todo o potencial da ciência para que a sociedade seja beneficiada. Não é a ciência pela ciência, é a ciência pelo outro, para o outro. Eu gosto de dizer que nós somos gente que gosta de gente, isso é um pilar muito importante pra quem faz ciência. Procuramos disseminar essa cultura dentro do LAIS.

Quais seus planos para o futuro?

Os meus planos não são meus, são nossos, das pessoas que trabalham comigo. É tornar o laboratório um instituto internacional de ciências humanitárias, que possa ser referência no mundo, colocando a luz da ciência sobre o Rio Grande do Norte, que é extremamente estratégico para o desenvolvimento do nosso país. Estamos próximos da Europa e dos Estados Unidos, temos um clima excelente, temos cérebros e grandes atrativos naturais para que outros cientistas do mundo possam vir para cá trabalhar conosco e, a partir daqui, possamos produzir ciência que agregue valor. É isso que nós estamos mirando para 2020 e já para 2021: desenvolver mais o laboratório, incluir mais pessoas e produzir mais empregos.

Conteúdo originalmente publicado na Revista Hospitais Brasil edição 100, de novembro/dezembro de 2019. Para vê-la no original, acesse: portalhospitaisbrasil.com.br/edicao-100-revista-hospitais-brasil

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