O lado humanizado da medicina é destaque no Congresso de Oncologia

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As novidades em tratamento e diagnóstico de câncer foram debatidas ao longo do primeiro dia da 7ª edição do Congresso Internacional Oncologia D’Or, que aconteceu na semana passada no Centro de Convenções do Windsor Oceânico, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro (RJ). “Vocês vão poder apreciar uma imersão do que há de mais moderno na oncologia, bem como terão a oportunidade de atualizar o conhecimento”, afirmou o presidente da Oncologia D’Or, Paulo Hoff, durante a abertura, já adiantando a riqueza de conteúdo presente em cada mesa do evento.

Porém, em meio a todas as questões técnico-científicas discutidas em boa parte dos módulos, o lado humanizado da medicina também foi um dos destaques do dia. O tema se fez presente já na abertura, com a palestra de Miguel Srougi, um dos principais cirurgiões do país em câncer de próstata, bem como nos módulos sobre Experiência do Paciente, Cuidado Integral e na Sessão Multidisciplinar. Para o Congresso, o princípio a ser expresso é o de que a doença envolve muito mais do que a enfermidade. Envolve também as dimensões psicológica, moral, social e cultural.

Durante uma profunda avaliação que fez sobre as mudanças que a carreira de medicina vem passando nas últimas décadas, Srougi fez questão de alertar os novos médicos que valores como empatia, solidariedade e compaixão continuam sendo imprescindíveis para o relacionamento com o paciente e construção da reputação do profissional. “São predicados que continuam sendo essenciais para a formação médica”, afirmou.

Essa capacidade do médico de se colocar no lugar do doente, que Srougi ressaltou, foi a diretriz que norteou, por exemplo, boa parte do módulo sobre a experiência do paciente. O público presenciou uma apresentação de casos do projeto da Rede D’Or “O que importa para você”, que realiza desejos de pacientes, bem como uma palestra sobre o papel da equipe multidisciplinar no acompanhamento dos sobreviventes de câncer. Uma terceira mesa colocou em destaque a importância da comunicação para o engajamento do paciente. As dificuldades que muitos pacientes enfrentam por não entender o linguajar médico apontam para a necessidades de o profissional observar certas questões, como o contexto cultural das pessoas e o grau de formação. Para que possa assim avaliar as melhores formas de comunicar mesmo coisas mais simples como a periodicidade de um medicamento.

Mesmo no módulo sobre Gestão e Inovação a atenção com o bem-estar do paciente foi apontada como prioridade. O norte-americano Felix Tran, analista da equipe de Estratégia de Investimentos Temáticos, observou que a incorporação da Inteligência Artificial oferece diversos benefícios, um deles é agregar valor para o paciente, através de bases genéticas, e codificar o atendimento de uma maneira mais sofisticada. Ele ainda acrescentou a importância da interligação entre a saúde e as tecnologias de informação e comunicação. “O avanço da tecnologia ajuda na democracia e no controle de qualidade, conquistando melhorias e oferecendo benefícios diretos ao paciente”, afirmou.

As necessidades de mudança na pesquisa sobre câncer

Em meio às mesas que debatem os avanços em diagnóstico e tratamento de câncer, o Congresso Internacional Oncologia D’Or colocou em discussão, na manhã deste sábado, segundo e último dia do evento, a necessidade de investir mais em pesquisa, bem como sobre rever a forma como os estudos são feitos. Presidente da Oncologia D’Or, Paulo Hoff, afirmou que um dos objetivos da Rede D’Or São Luiz é proporcionar um legado de desenvolvimento na sociedade através da pesquisa e ensino. “Essa pode ser a maior contribuição que podemos oferecer para a sociedade a longo prazo”, observou.

Para o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) Luiz Eugênio Mello há uma necessidade do mundo científico rever a metodologia dos estudos sobre câncer. Ele observou que, apesar das pesquisas que vêm sendo realizadas, a sobrevida dos pacientes, em diversos tipos de câncer, aumentou muito pouco nos últimos 20 anos. “Precisamos desenvolver pesquisas que ajudem efetivamente essas pessoas cujo o relógio de vida está diminuindo”, ponderou. Para ele, alcançar melhores resultados passa necessariamente pela mudança da forma como as pesquisas são feitas. “Hoje, um estudo é feito tendo apenas um alvo, sugiro que se tenha dois ou três alvos simultâneos”.

O oncologista Claudio Ferrari comentou que também é preciso aproveitar melhor os dados fora da pesquisa clínica que dizem respeito à saúde, para que eles tragam um melhor retorno no cuidado com o paciente. “Hoje, os Estados Unidos são responsáveis por metade dos estudos clínicos feitos no mundo, mas só 5% dos pacientes oncológicos de lá são tratados dentro de um contexto de pesquisa”, comentou Ferrari, ao expor a distância entre a pesquisa e a prática clínica.

Para ele, um item que precisa ser revisto para mudar esse cenário é o prontuário médico. O oncologista avalia que o formato atual corrompe a qualidade dos dados, o que prejudica o uso em estudos clínicos. “É preciso criar um sistema que sirva realmente de apoio ao médico e não seja visto apenas como mais trabalho, permitindo o preenchimento rápido e com informações de qualidade”, afirmou.

Estreia no Congresso

Novidade nesta edição, o módulo Open Talks trouxe um espaço descontraído para a discussão de temas relevantes para o universo da saúde atual. O primeiro palestrante foi o jornalista Vinícius Dônola, que contou algumas de suas experiências profissionais e falou sobre medo e coragem. “Quando a gente tem necessidade, descobre uma coragem que nunca imaginou que pudesse ter. Os desafios que vivi na vida profissional, fizeram que eu encarasse os meus medos”.

A radiologista Fabiola Kestelman e o coordenador científico, Daniel Herchenhorn, abordaram os medos do paciente. Para Herchenhorn, o grande aprendizado do câncer é viver um dia de cada vez. “Eu sempre digo para os pacientes que a quimioterapia tem que ser uma paixão, intensa e durar pouco. A doença crônica é como uma grande maratona, você tem que ir dando um passo de cada vez, acreditando que vai chegar ao final”.

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