Saudáveis e sustentáveis: mais que um diferencial, uma obrigação dos EAS

Por Carol Gonçalves

Ser sustentável envolve a execução de estratégias ecologicamente corretas, economicamente viáveis e socialmente justas. E isso tem tudo a ver com saúde: tanto dos seres vivos quanto dos ambientes onde eles vivem.

Felipe Faria, CEO do Green Building Council Brasil

Boa parte das doenças que acometem as pessoas são adquiridas durante o curso de suas vidas, de acordo com seus hábitos e os espaços frequentados. Como passamos cerca de 90% de nosso tempo em locais fechados, aspectos diversos da edificação contribuem para deixar uma pessoa mais suscetível ou não a doenças crônicas, de acordo com Felipe Faria, CEO do Green Building Council Brasil.

De fato, o ambiente é o grande responsável pelo estado de saúde humano, principalmente quando falamos de hospitais, pois esses espaços são frequentados por pessoas debilitadas e sensíveis às mais leves variações das condições do local que as envolve. Dessa forma, é fundamental discutir a edificação saudável como influenciadora do bem-estar físico e mental das pessoas e, porque não, de sua cura.

Segundo o estudo “O edifício doente e o edifício saudável”, do prof. doutor Antonio Pedro Alves de Carvalho, da UFBA – Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, pode-se qualificar um edifício como ambientalmente equilibrado se não provocar doenças. É a famosa frase de Florence Nightingale, referindo-se aos hospitais, no prefácio de seu livro: “Pode parecer um princípio estranho declarar como o primeiro requisito em um hospital que não deve fazer ao enfermo nenhum dano”.

No entanto, só isso não é suficiente. “O ambiente deve ser agradável, convidativo, indutor do relaxamento, tranquilidade e alegria, deve ser um espaço curativo, saudável. De meados do século XIX até o início do século XX, quando da implantação do partido pavilhonar em hospitais, observou-se um período em que as edificações eram consideradas verdadeiras ‘máquinas de curar’, dando-se o devido destaque à questão ambiental”. O progresso tecnológico, no entanto, acabou por sufocar esse paradigma.

De acordo com Jain Malkin, consultora sobre a metodologia evidence based design (design baseado em evidências) e especialista em instalações de saúde, é possível listar diversas características ambientais como de influência comprovada no restabelecimento de pessoas internadas, como o uso da iluminação natural, que diminui os erros médicos; as vistas da natureza, que diminuem a dor; e a redução de ruído, que auxilia no tratamento de casos de depressão.

Ainda em seu estudo, o prof. doutor Carvalho diz que os fatores que afetam positivamente a saúde dos usuários de um EAS – Estabelecimento Assistencial de Saúde podem ser englobados em três setores: higiene, conforto e sustentabilidade.

No que se refere a higiene, o primeiro ponto que se destaca é a necessidade de controle de infecção, sendo a principal ação a correta higienização das mãos. Correlacionado a esse assunto, está a escolha de materiais de acabamento de pisos, paredes e tetos, bem como dos móveis, que determina a facilidade de limpeza, a durabilidade e a eficiência da manutenção. Deve ser acrescentada, ainda, a absorção acústica, que interfere no conforto, principalmente de pacientes internados; a aparência estética, que influencia decisivamente no bem-estar dos usuários; e o custo, que permita sua aquisição e reparo.

Uma característica particular dos EAS é a geração de resíduos sólidos contaminados ou especiais, que exigem, na maioria das vezes, coleta e tratamento diferenciado. A RDC no 222/2018, que substituiu a RDC no 306/2004, dispõe sobre o Gerenciamento dos RSS – Resíduos de Serviços de Saúde. Segundo a resolução, todo serviço gerador deve dispor de um PGRSS – Plano de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde, documento que aponta e descreve as ações relativas ao manejo de resíduos sólidos, que corresponde às etapas de: segregação, acondicionamento, identificação, transporte interno, armazenamento temporário, armazenamento externo, coleta interna, transporte externo, destinação e disposição final ambientalmente adequada. O planejamento do programa deve ser feito em conjunto com todos os setores, definindo-se responsabilidades e obrigações de cada um em relação aos riscos. A RDC comentada pela Anvisa, está disponível no endereço goo.gl/KmRtkU.

Já o conforto, segundo item que interfere na saúde dos pacientes, deve atender aos aspectos ambiental, ergonômico, de acessibilidade, segurança, sinalização e, principalmente, valorizar as questões subjetivas do usuário, dando confiança àqueles que os utilizam.

De acordo com Clare Marcus, educadora em arquitetura, são tendências nos estabelecimentos de saúde a adoção de áreas verdes e o cuidado paisagístico, induzindo ao contato com a natureza. A deambulação precoce é incentivada com a criação dos chamados “jardins terapêuticos”, que apresentam vantagens nas unidades de internação hospitalar, como permitir o recebimento de luz solar, o treinamento dos sentidos e a socialização com outros pacientes, diminuindo a tensão nervosa e aumentando a aceitação do tratamento.

Outro fator essencial no conforto é sua adequação ergonômica. Os espaços, o mobiliário e os equipamentos devem estar adequados ao uso, de modo que proporcione a manipulação correta e não gere sequelas.

Por fim, a sustentabilidade na arquitetura faz toda a diferença no bem-estar dos pacientes. O prof. doutor Carvalho diz que a exploração desenfreada dos recursos naturais e a produção de resíduos, notadamente na geração de energia, demonstram uma atuação predatória do ser humano em relação ao meio ambiente, fazendo com que o seu equilíbrio se torne insustentável.

Na verdade, a sustentabilidade envolve também os itens já elencados em higiene e conforto, como reaproveitamento e reciclagem dos resíduos sólidos, aproveitamento da ventilação e iluminação naturais, além de incentivo à geração de energia de forma limpa. “Não poderá ser esquecido o processo de gerenciamento da construção dos edifícios. As obras deverão atender às condições da construção ‘mais limpa’, de forma a proporcionar a mínima geração de resíduos e a utilização de produtos ecologicamente atestados. Uma edificação saudável deverá garantir a utilização de materiais cujas condições de fabricação e transporte sejam ambientalmente corretas.

O H9J trocou a caldeira por aquecedores de passagem e bomba de calor, reduzindo 50,34% no consumo de gás natural, de 2013 para 2014

Fábio Bitencourt, doutor em arquitetura de ambientes de saúde, destaca que o impacto ambiental dos estabelecimentos de saúde está atrelado a características como: funcionamento intensivo nas 24 horas, geração de circulação de pessoas em grande número e possuir distintos centros de trabalho, com demandas de insumos e energia diferenciados, exigindo reserva e grande magnitude de instalações. Pode-se acrescentar ainda: os sistemas construtivos, sua manutenção, fatores de humanização e de segurança sanitária ou biossegurança.

Em seu estudo, o prof. doutor Carvalho mostra que as edificações de saúde são grandes consumidoras de insumos, como energia e água. Por frequentemente funcionar 24 horas por dia e possuir diversos setores que não podem ficar sem abastecimento energético, as unidades mais complexas são obrigadas, por norma, a possuir geradores, baterias e condição segura de fornecimento. Essas características induzem a adoção de sistemas alternativos de geração de energia, como solar e eólica. “O pré-aquecimento da água por energia solar já pode ser considerado comum em grandes hospitais, bem como a geração por combustíveis alternativos, como o GLP”, comenta.

Em relação à economia de energia, também se deve buscar a utilização de meios naturais de aquecimento e ventilação. Devido à importância do gasto energético de equipamentos de controle de temperatura, ventilação e umidade, qualquer alteração nessas variáveis representa grande economia. Soluções arquitetônicas, como a boa orientação do edifício, brises, vidros especiais, teto verde, fachadas ventiladas, isolamentos térmicos em paredes e tetos, podem ser decisivas em relação aos custos de manutenção e à contribuição social aos esforços de menor emissão de CO2.

A arquiteta e urbanista Doris Vilas-Boas ressalta que os tetos verdes, em especial, auxiliam no isolamento térmico e na captação de água da chuva, além de proporcionar espaços adicionais para o lazer de funcionários e pacientes.

Já sobre o alto consumo de água, é importante que sejam considerados como essenciais o seu tratamento para reúso, as diversas formas de economia e o aproveitamento de água da chuva. O tratamento dos efluentes líquidos, principalmente os provenientes de laboratórios, lavanderias e de cuidados com os pacientes, é uma medida imprescindível para a diminuição do impacto ambiental.

“Algumas unidades de saúde, como hemodiálise e laboratórios, necessitam de tratamento adicional da água antes do consumo, o que pode ser estendido a toda edificação, a depender da fonte de fornecimento. Seus reservatórios devem ter controle frequente de qualidade, garantida por exames laboratoriais. A quantidade e o volume de câmaras de reserva de água potável deverão permitir o fornecimento contínuo, mesmo nos momentos em que se efetuar a manutenção, a limpeza, a desinfecção e o controle de qualidade”, explica o prof. doutor Carvalho, no estudo.

No caminho certo

Eleonora Zioni, diretora da Asclépio Consultoria

“Hoje a sustentabilidade é um diferencial, mas logo será essencial”. Esta frase está entre as favoritas de Eleonora Zioni, diretora da Asclépio Consultoria, certificada LEED AP BD+C, WELL faculty, DGNB consultant, consultora GBC Brasil Casa.

Segundo ela, existem muitos passos que os EAS devem seguir para se tornar sustentáveis e saudáveis, mas, primeiramente, eles precisam compreender que a sustentabilidade é o equilíbrio entre os aspectos ambientais, sociais e econômicos. “Todos devem se preparar para atender os 17 ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU. Os EAS se tornarão saudáveis ao também valorizarem as pessoas, a saúde, o bem-estar e a produtividade. A saúde deve ser entendida como o perfeito estado de bem-estar físico, mental e social”, ressalta.

Os ODS fazem parte da Agenda 2030, plano de ação desenvolvido por líderes mundiais durante reunião na sede da ONU, em Nova York, em setembro de 2015. O objetivo é promover vida digna para todo o mundo dentro dos limites do planeta. Os temas abordados são: pobreza; nutrição; saúde; educação; igualdade de gênero; água potável e saneamento; energia limpa e acessível; trabalho e crescimento econômico; indústria; inovação; infraestrutura; redução das desigualdades; cidades sustentáveis; consumo e produção sustentáveis; mudança do clima; oceanos e mares; e meio ambiente.

Todos devem se comprometer a cumprir a agenda. Na construção civil, por exemplo, a sustentabilidade tem ganhado cada vez mais espaço ao usar soluções que não apenas reduzem o impacto ao meio ambiente como também proporcionam crescimento e produtividade com custos mais baixos.

Entre as certificações com foco em saúde e sustentabilidade estão a LEED e a WELL. “A LEED é a única certificação ambiental vigente no Brasil que possui uma modalidade específica para edifícios de saúde, a LEED Healthcare. A WELL é bastante nova e ainda estamos desenvolvendo o piloto para edificações de saúde”, explica Eleonora.

A LEED foi criada em 1993 pelo United States Green Building (USGBC). É uma ferramenta que pretende incentivar a transformação dos projetos, obra e operação das edificações, sempre com foco na sustentabilidade. Em 2007 foi criado o Green Building Council Brasil, em São Paulo.

A Torre E da Unidade Paulista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz está entre as construções da área de saúde que possuem a certificação LEED. Foto: Lalo de Almeida

Já a WELL Building Standard foi desenvolvida em 2014, pela International WELL Building Institute, para atender a demanda na busca por qualidade de vida, saúde e produtividade dos usuários aliada à sustentabilidade ambiental dentro dos espaços construídos, além de ser uma ferramenta complementar à LEED. A WELL é administrada em parceria com a Green Business Certification Inc., como o LEED, apenas para os processos de certificação.

Eleonora salienta que implantar processos de certificação causa menos interferência do que obras de reforma, mas exige o comprometimento de muitos departamentos. “É importante que as pessoas entendam o que estão fazendo e sejam líderes que possam multiplicar os conceitos com a sua equipe”.

Para a certificação LEED devem ser organizados grupos com líderes: arquitetos, consultores, engenheiros de climatização, paisagistas, luminotécnicos, engenheiros elétricos, engenheiros hidráulicos, construtores, gerenciadores, instaladores, administradores, equipe de qualidade, equipe de infraestrutura, equipe de gestão e o cliente. Para a WELL, além de todos os citados no LEED, acrescentar nutricionistas, educadores físicos, psicólogos, recursos humanos e muitos outros, a depender da equipe do cliente.

Para conquistar essas certificações, os EAS precisam se registrar através das plataformas on-line do Green Building Council Brasil. A partir de 110 estratégias disponíveis, o certificado será fornecido de acordo com o nível de pontos obtidos. São necessários de 40 a 49 pontos para o Certificado, de 50 a 59 para o nível Prata, de 60 a 79 para o nível Ouro e mais de 80 para o nível Platina.

Os edifícios terão seus desempenhos analisados nos seguintes aspectos: localização e transporte, espaço sustentável, eficiência no uso da água, uso racional de energia e atmosfera, materiais e recursos, qualidade ambiental interna, inovação e processos, além de respeitar as prioridades regionais. “É aconselhável possuir um consultor ou profissional certificado LEED AP para auxiliar no processo de certificação”, afirma Eleonora.

Para a consultora, o engajamento de pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde precisa ser incentivado constantemente com ações reais, campanhas nas mídias sociais, avisos internos e publicações. “Deve haver reuniões internas para acompanhar e controlar os processos, pois eles são complexos, longos e demandam a participação de equipes multidisciplinares. Por isso a conscientização é muito importante.”

Eleonora acredita que o manejo consciente de resíduos recicláveis alinhado ao PGRSS é um passo inicial e bastante tangível para os EAS que estão começando a pensar no assunto. Entretanto, destaca que existem muitas outras opções de uso de água, economia de energia, melhoria no conforto térmico e acústico, entre outras já citadas.

“Quando se analisam os benefícios advindos de uma edificação certificada sustentável e saudável, percebe-se que o investimento nos processos de certificação tem retorno em menos de cinco anos. Em alguns casos recentes de EAS, aconteceu em dois ou três anos”, conta.

De acordo com dados da GBC Brasil, há mais de 500 projetos certificados no país, nos mais variados setores. Na área Hospitais/Saúde são 41 registrados no sistema LEED, sendo 12 certificados e 29 em processo. Importante lembrar que o Brasil está em 4º lugar no ranking anual dos 167 países e regiões com o maior número de projetos LEED.

De forma geral, a redução de consumo de energia por mês é em torno de 25%, já a da água é cerca de 40%, embora a porcentagem da diminuição de custo dependa do tipo de projeto, como conta Faria.

O ponto principal que leva à redução de energia é a utilização de iluminação natural, bem como trabalhar com determinantes para manter a carga térmica da edificação baixa. “Por exemplo, se a fachada escolhida é de vidro, esse vidro precisa ser especial para permitir a entrada da iluminação e abafar o calor. Também convém utilizar coberturas frias ou tintas claras reflexivas, que refletem a radiação solar e não deixam aquecer o prédio. Vale lembrar que a iluminação fria é mais eficiente e diminui o aquecimento do ambiente interno, reduzindo o uso do ar condicionado”, expõe.

Além disso, ele cita a importância da tecnologia para automação do consumo de energia e de água. “Soluções tecnológicas tornam a edificação mais eficiente”.

Com relação ao valor da construção, Faria diz que o acréscimo de custo é baixo, e o retorno do investimento se dá em curto prazo, através da redução de custos na operação. O determinante não é o uso das tecnologias implantadas, mas, sim, a antecedência com que as ideias começaram a ser desenvolvidas. Quanto mais se investe na fase do projeto, mais é possível viabilizar a inserção de tecnologias e verificar a melhor opção em termos de eficiência”, afirma.

A manutenção custará de 8% a 12% ao ano do valor do equipamento, mas, se não for bem negociada, poderá custar muito mais

Em se tratando das instituições de saúde, conforme cresce a incidência de doenças, aumenta a responsabilidade em investir em edificações sustentáveis. Sem falar que acelerar a recuperação dos pacientes é uma forma de redução de custos. É um tema que, além de uma oportunidade, se torna uma pressão para quem não remar nessa direção.

“Conseguimos, com muita facilidade, através de construções sustentáveis, lidar com o tema sustentabilidade, mostrando que este tipo de edificação é sempre a melhor opção para se alinhar ganhos ambientais, sociais e econômicos. É o tripé do progresso”, salienta Faria.

A escolha certa dos equipamentos

Ao adquirir equipamentos e tecnologias voltados para a área de saúde, os EAS também devem buscar aqueles que tenham viés sustentável, seja por serem menos agressivos ao meio ambiente, seja por proporcionarem redução de custos para a instituição.

Guilherme Xavier, diretor geral da Equipacare Engenharia

Quem trata desse assunto é o engenheiro clínico Guilherme Xavier, diretor geral da Equipacare Engenharia e consultor do Sistema Unimed. Ele diz que uma característica comum no setor é escolher equipamentos mais por gosto do que por razão. “O processo de incorporação tecnológica deve observar critérios de viabilidade, performance técnica e custos. Além disso, quando se fala em sustentabilidade, temos de considerar, além do critério econômico, o lado socioambiental. É importante que a avaliação da engenharia observe aspectos de eficiência energética, consumo de água, poluição sonora (nível de ruído), geração de resíduos, ergonomia para o trabalhador/operador, dentre outros itens”, expõe.

Em artigo, Guilherme diz que é muito importante que o hospital tenha um Comitê de Incorporação com equipe multidisciplinar, composta por gestores médicos ou enfermeiros, setor de qualidade e CCIH, por exemplo. Contudo, ao menos três pontos de vista precisam estar presentes neste comitê: médico, financeiro e de engenharia.

Cada equipamento tem suas peculiaridades, mas de uma forma geral, é importante verificar os custos de: contrato de manutenção, peças não cobertas pela modalidade do contrato, consumo de água, energia, gases, acessórios e insumos, se houver.

O engenheiro clínico ilustra o processo de aquisição como um iceberg, em que a maior parte dos custos, em especial a manutenção, está escondida, “submersa” no momento da compra. A decisão é, portanto, um processo de curto prazo com impacto no longo prazo, pois equipamentos duram em média dez anos. “Incorporações malfeitas colocam a sustentabilidade do negócio hospitalar em risco se não realizadas de forma criteriosa. A manutenção custará de 8% a 12% ao ano do valor do equipamento. No entanto, se não for bem negociada, poderá custar muito mais que isso. Significa que o custo de manutenção, ao longo da vida útil, é maior do que o valor de aquisição em si, portanto é um grande fator de sustentabilidade e viabilidade de negócio”, alerta.

A principal técnica para avaliação tecnológica do produto é a metodologia do RFI/RFP, com posterior elaboração do Custo Total de Propriedade. “RFI/RFP são, respectivamente, os formulários de qualificação técnica e qualificação comercial, que empregamos como rotina dos processos de aquisição que gerenciamos – a Equipacare já movimentou mais de R$ 1 bilhão em aquisições, atendendo mais de 80 hospitais com esta técnica. Após preenchidos pelos fornecedores, os documentos permitem comparar dezenas de itens de performance mais os itens de eficiência em custos”, expõe Guilherme.

O estudo comparativo de fornecedores é então consolidado em relatório de Custo Total de Propriedade, no qual todos os gastos previstos na vida útil são expostos em um único gráfico, normalmente de 10 anos. Nele, são considerados insumos, principais peças, valor de manutenção, consumo energético e de água, etc. “O melhor fornecedor é aquele que atende plenamente aos critérios médicos, às vezes com diferenciais, pelo melhor custo total de propriedade”, acrescenta.

Há normas específicas que estabelecem quantidades e características dos equipamentos que são obrigatórios para determinados setores hospitalares. Mas o que melhor garante a qualidade dos aparelhos comercializados no Brasil é o trabalho da Anvisa, que realiza diversos testes de desempenho e segurança antes de liberar o registro que autoriza a venda. “Por este motivo é fundamental só considerar na cotação equipamentos registrados”, avisa Guilherme.

A importância da tecnologia

Emerson da Silva, presidente da ABDEH

 

O cenário atual de investimentos na área da saúde e em especial os movimentos de fusões e aquisições no setor, inserindo players cada vez mais competitivos e em busca de rentabilidade, trará com certeza para a mesa de discussões a busca incessante pela performance nas operações e, neste caso, a redução nos gastos com a “máquina” deve ser a tônica dos próximos tempos. É o que expõe Emerson da Silva, presidente da ABDEH – Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar.

Neste sentido, ele acredita que a maior tendência em termos de infraestrutura não está somente nos materiais e métodos construtivos existentes para o edifício hospitalar, mas também nos sistemas inteligentes que irão operar de forma eficiente estas estruturas.

“Hoje temos vários sistemas BMS – Building Management System que já operam nas instalações de forma preventiva, no entanto, os sistemas de gestão preditiva irão revolucionar esse processo, não somente com os sistemas de automação, mas também com o uso de inteligência artificial, que garantirá maior assertividade no dia a dia da instituição”, conta Emerson.

A redução de custos é apenas uma consequência no processo de eficiência pensando em sustentabilidade, pois todo estabelecimento de saúde deve buscar o benefício ambiental e a responsabilidade social. “Já estão disponíveis sistemas autossuficientes que otimizam os processos dos EAS, tornando-os mais ‘amigáveis’ e menos ‘impactantes’ nos diversos pontos de contato do edifício com o entorno”, explica. Ele cita um movimento que já acontece em outros países, os chamados Hospitais Amigos da Vizinhança. São centros de saúde com modelos de planejamento e design saudável para a comunidade.

Emerson acredita que os EAS brasileiros, infelizmente, ainda não têm grande preocupação com sustentabilidade, mas que existe cada vez mais a tendência de projetos novos serem mais eficientes, o que estimula os estabelecimentos de saúde a se preocuparem com o conceito de sustentabilidade devido aos altos custos operacionais envolvidos. “Além, é claro, do grande apelo social relacionado a negócios que demonstram preocupação com o meio ambiente, trazendo benefícios à marca e ao patrimônio imaterial da empresa.”

Quanto às barreiras para maior investimento em sustentabilidade, Emerson analisa que hajam poucas, além da regulação do setor. “Apesar de os investimentos em eficiência serem altos, diversos stakeholders já estão ofertando sistemas alternativos, em modelos como o BOT – Building Operation Transfer, forma de financiamento de projetos pelo qual o investimento inicial para o EAS é zero, e a performance da solução é que será o pagamento da solução implantada. Dessa forma, há muita oportunidade de garantir a eficiência e, consequentemente, ter um edifício sustentável”, explica.

Para o presidente da ABDEH, o setor de saúde brasileiro é um dos mais regulados do mundo, o que dificulta e encarece muito a implantação de sistemas e processos sustentáveis, ocasionando um atraso muito grande com relação a outros países. Um bom exemplo citado por ele é o estado da Califórnia, que obriga os municípios a empregarem estratégias de sustentabilidade para todos os edifícios construídos nas cidades, não sendo mandatária a obtenção de uma certificação, porém, com a obrigatoriedade de seguir critérios de construção sustentável.

“Aqui no Brasil, a ABDEH, entidade de atuação nacional, sem fins lucrativos, faz sua parte como grande motivadora e promotora do debate sobre a sustentabilidade e os benefícios de edifícios de saúde amigáveis”, ressalta Emerson. Os objetivos da entidade são contribuir para a contínua qualificação dos ambientes de saúde e promover a divulgação do conhecimento técnico e científico sobre os diversos aspectos relacionados a essas edificações.

Projeto Hospitais Saudáveis

Instituições brasileiras receberam o prêmio “2020 Challenge Climate Champions 2017” por estabelecerem ações na temática da mudança do clima

O PHS – Projeto Hospitais Saudáveis é um movimento internacional, organizado pela Saúde sem Dano, dedicado a transformar o setor da saúde em um exemplo para toda a sociedade em aspectos de proteção ao meio ambiente e à saúde do trabalhador, do paciente e da população em geral. Ele é importante pois está alinhado à Agenda Global de Hospitais Verdes e Saudáveis com o objetivo de reduzir as emissões de GEE – Gases de Efeito Estufa.

Vital Ribeiro, arquiteto da Divisão de Meio Ambiente do Centro de Vigilância Sanitária e presidente do Conselho do PHS no Brasil, conta que, há três anos, a associação desenvolve o Desafio A Saúde Pelo Clima e, há dois anos, o Desafio Resíduos. As duas campanhas, que envolvem centenas de unidades de saúde em todos os continentes, obtiveram resultados expressivos no Brasil, com mais de 100 unidades de saúde medindo e gerenciando suas emissões de gases de efeito estufa pela metodologia GHG Protocol e controlando 100% dos resíduos gerados ao longo de cada ano.

Em dezembro de 2018, ocorreu o pré-lançamento da nova campanha, chamada Compras Sustentáveis na Saúde, ou Desafio Compras, que está construindo, juntamente com organizações de mais 10 países e sob a coordenação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, metodologia para orientar o consumo consciente entre as organizações de saúde.

“Também estamos trabalhando no que se tornará em breve o Desafio Energia, envolvendo o controle de todos os tipos de energia utilizada numa unidade de saúde de forma a fomentar decisões em direção a fontes limpas e renováveis”, acrescenta Ribeiro.

Em dezembro de 2018, o PHS entregou o prêmio “2020 Challenge Climate Champions 2017” para as instituições brasileiras que se destacaram por estabelecerem ações na temática da mudança do clima, estando lado a lado com outras 19 instituições premiadas no mundo. “O Brasil segue sendo um dos países líderes e um dos mais premiados entre as dezenas de participantes”, expõe.

Os vencedores foram: Hospital Estadual Américo Brasiliense, na categoria Liderança Climática; Hospital Geral de Pedreira (SPDM), em Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa de Fontes Não-Energéticas; Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, em Eficiência Energética; Hospital Nossa Senhora da Conceição (Associação Congregação de Santa Catarina), em Resiliência Climática; e Hospital Santa Izabel (Santa Casa da Bahia), em Energia Renovável.

O presidente do Conselho do PHS no Brasil acredita que os hospitais estão mais atentos a essas questões. “Quando iniciamos o projeto, o único tema que realmente atraia atenção era resíduos sólidos, devido à forte pressão legal e social que mobilizava. Muitas organizações tinham apenas medo de serem autuadas. Atualmente, contamos com mais de 200 instituições membros e 10 sistemas de saúde, que têm como base  fazer mais do que apenas cumprir a legislação, agindo proativamente pela sustentabilidade do setor e, inclusive, advogando por políticas que preservem o meio ambiente”, explica.

A participação no PHS e na Rede Global Hospitais Verdes e Saudáveis é totalmente gratuita e requer o compromisso com seus valores e o comprometimento com as campanhas. A adesão pode ser feita por meio do site www.hospitaissaudaveis.org, no menu “Participe”, opção “Adesão Institucional”. Cumpridas as exigências iniciais, como o cadastro e o envio de uma carta assinada por um diretor da instituição, o novo participante deve se envolver em ao menos um dos desafios para se manter na relação de membros ativos, que é disponibilizada no site.

O PHS e a rede global HVS estão desenvolvendo várias novas ferramentas e projetos para promover ainda mais a sustentabilidade na assistência à saúde. “Até meados de 2019, anunciaremos novidades que possibilitarão melhores decisões na escolha de produtos para higiene hospitalar ou gases medicinais, instrumentos mais precisos para mensuração das emissões de gases de efeito estufa e da geração de resíduos e muitos outros recursos que permitirão melhor gestão ambiental, redução de impactos e custos”, finaliza Ribeiro.

Cases de sucesso dos hospitais

Segurança, saúde, meio ambiente e energia

O Einstein é signatário do Pacto Global, do Projeto Hospitais Saudáveis e da Rede Global de Hospitais Verdes e Saudáveis. Foto: Ramede Felix

A jornada da SBIBAE – Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein em sustentabilidade começou no final da década de 1990 com a acreditação da Joint Commission International, que propunha um olhar para questões ambientais, como resíduos e produtos químicos. “Hoje, o Einstein é signatário das principais iniciativas relacionadas à sustentabilidade, como o Pacto Global, o Projeto Hospitais Saudáveis e a Rede Global de Hospitais Verdes e Saudáveis”, conta Neilor Cardoso, coordenador de Meio Ambiente e Sustentabilidade da SBIBAE.

Desde 2003, a instituição possui a certificação ISO 14.001, que especifica os requisitos de um Sistema de Gestão Ambiental, e, em 2010, conquistou o certificado LEED Gold do U.S. Green Building Council para o Pavilhão Vicky e Joseph Safra, em São Paulo – desde 2006, todos os novos edifícios do Einstein seguem as diretrizes dessa certificação. Desde 2010, os inventários de Gases de Efeito Estufa estão disponíveis na Plataforma do Registro Público de Emissões do Programa Brasileiro GHG Protocol. Em dezembro de 2018, a Unidade Morumbi do hospital conquistou a certificação ISO 50.001, que estabelece diretrizes e guias para a implementação de um sistema de gestão de energia.

Entre as premiações, conquistou o primeiro lugar no 2020 Challenge Climate Champion Awards – 2016, na categoria Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa de Fontes Não-Energéticas com o projeto de redução do uso de Óxido Nitroso. Já em 2018, ganhou o Prêmio Amigo do Meio Ambiente, promovido pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, com o projeto Segunda Sem Carne, do Hospital Municipal Vila Santa Catarina (SP), com atendimento dedicado ao SUS.

“O tema sustentabilidade é considerado estratégico, pois uma boa gestão dos aspectos ambientais contribui para a redução dos custos operacionais, riscos de operação e reputação. Atualmente, estão mapeados os principais riscos ambientais, os mais significativos possuem medidas de controle e monitoramento”, expõe Neilor. Há, na organização, dois comitês que reportam o desempenho de sustentabilidade à alta direção. Para aumentar a eficiência energética e hídrica, são realizados investimentos de forma sistemática em projetos.

Um dos destaques é a já citada conquista da certificação ISO 50.001. Para obtê-la, o Einstein passou por uma série de adequações documentais e procedimentais, além de se comprometer com uma constante melhoria no desempenho energético.

A nova norma estabelece procedimentos específicos para o planejamento da utilização de energia elétrica, gás natural e óleo diesel que permitem identificar, mensurar e controlar os principais usos finais de energia, além de projetos para reduzir o consumo ou mesmo otimizá-lo. Embora a certificação seja limitada à unidade Morumbi, as práticas de otimização de energia são adotadas em todas as unidades do Einstein.

Já a gestão hídrica é realizada conforme o modelo de gestão energética, ou seja, compõe o SGI – Sistema de Gestão Integrada. Os dados comparados de 2015 a 2018 mostram uma melhora de 17,6% na intensidade hídrica. Em termos de volume, cerca de 73 milhões de litros de água foram economizados nos últimos três anos.

Além disso, atualmente, estão em andamento dois projetos de logística reversa: bags de álcool em gel e películas radiográficas. Desde 2013, época da implantação, 19 toneladas destes materiais receberam destinação ambientalmente adequada. “Outros dois projetos estão em estudo, que envolvem o retorno de caixas de papelão e bolsas de soro para a indústria farmacêutica”, revela.

Sobre o programa de gerenciamento de resíduos, sua implantação ocorreu em 1998 e, desde então, vários avanços foram realizados, que vão desde a criação de uma área específica, que é responsável pela gestão desse processo, até a implantação da coleta seletiva, projetos de logística reversa, apoio à conquista das certificações ISO 14.001 e Joint Commission International, entre outros.

Todas as unidades possuem um Plano de Gerenciamento de Resíduos implantado e há uma área responsável pela manutenção e atualização, bem como pelo controle de documentações legais, como CADRIs, licenças e cadastros. As exigências ambientais são definidas e incluídas na fase de projeto das novas unidades.

“Em relação ao tratamento de resíduos, um projeto de tratamento interno de resíduos infectantes na unidade Morumbi acaba de ser concluído, estando apto a operar com 100% de capacidade a partir de janeiro de 2019”, conta Neilor.

Mensalmente são monitorados indicadores de gerenciamento de resíduos, que são a base para a implantação de ações de redução e melhoria do descarte. Em 2018, o indicador de reciclagem apresentou um aumento de 23% em relação a 2017, resultado da manutenção de projetos existentes, além do desenvolvimento de novas ações, com destaque para a ampliação do projeto de compostagem dos resíduos orgânicos, que existe desde 2013 na unidade Morumbi e, em 2018, foi estendido para a unidade Vila Mariana. Ambas destinaram 344 toneladas para a produção de adubo, evitando a remessa para aterros sanitários.

“Na época da implantação, poucos hospitais no Brasil faziam gerenciamento de resíduos. O assunto ainda é incipiente no país, o que resulta na dificuldade de comparação de indicadores e na aceitação dos resíduos recicláveis por empresas do ramo. Há poucas licenciadas para fazer a destinação de determinados resíduos”, diz Neilor.

A outros hospitais que pretendem investir em sustentabilidade, ele recomenda começar pelo básico, ou seja, gerenciar melhor os resíduos produzidos, garantindo que os materiais perigosos sejam encaminhados para o tratamento antes da destruição final.

Outras dicas são: avaliar os processos para identificar desperdícios e buscar alternativas para adequação; eliminar vazamentos de água; e conscientizar os profissionais e usuários para o uso racional de água e energia. Já durante obras e reformas, o profissional sugere adotar soluções que contemplem a eficiência energética e hídrica. “Um passo importante é ter uma área para as questões ambientais e de sustentabilidade”, acrescenta.

Foco na modernização das instalações

Entre os atributos da Torre E da Unidade Paulista do HAOC estão arquitetura direcionada para maior captação de luz solar e climatização de alta eficiência. Foto: Lalo de Almeida

Entre os hospitais que merecem destaque está o Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo (SP), que tem explorado temas-chave para o setor – como o consumo energético, a disposição adequada de resíduos hospitalares, a racionalização do uso da água e a modernização das instalações prediais.

Segundo o Relatório de Sustentabilidade 2017, o mais recente publicado pela instituição, durante o ano em questão foram empreendidos esforços em diferentes projetos, como a obtenção de outorga de captação de água para um poço artesiano na sede, localizada na região da avenida Paulista; a construção de uma nova entrada de energia e de uma usina de emergência com capacidade de 7 Megawatts, conferindo maior segurança ao fornecimento de energia para o hospital; e um programa de eficiência voltado às centrais de ar condicionado, também na Unidade Paulista.

Melhorias na concepção das novas instalações prediais também preconizam aspectos de ecoeficiência. Na Unidade Referenciada Oswaldo Cruz Vergueiro, por exemplo, as instalações foram modernizadas obedecendo a critérios de racionalização do uso de recursos naturais.

Já a Torre E da Unidade Paulista acolheu, desde as obras até sua inauguração, em 2013, conceitos de eficiência no uso de energia e água que lhe renderam a certificação LEED, após análise de projeto e auditorias do Green Building Council. Entre os atributos da torre estão um sistema solar de aquecimento de água; aplicação de água de reúso coletada das chuvas e de minas no subsolo para banheiros e jardins; arquitetura direcionada para maior captação de luz solar; climatização de alta eficiência; e presença de bicicletários e vagas adaptadas para veículos de baixa emissão e baixo consumo energético (como os elétricos e híbridos).

Ainda de acordo com o relatório, a gestão de resíduos do hospital está alinhada ao PGRSS – Programa de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde, baseado em requisitos da Anvisa. O processo é monitorado pelas auditorias internas de qualidade, pelo SCIH – Serviço de Controle de Infecção Hospitalar e também é verificada pela Joint Commission International, por meio das visitas e dos processos de certificação.

Em 2017, foram gastos R$ 822.768,18 com tratamento e disposição final dos resíduos. Boa parte do valor se relaciona às despesas com material perigoso. No ano em questão, houve aumento na quantidade de resíduos encaminhados para reciclagem. Um dos motivos é o fornecimento, em regime de comodato, de um equipamento de fragmentação de papel por parte da empresa de coleta e destinação de resíduo comum, com maior geração de aparas. Também colaboraram campanhas de conscientização e incentivo à coleta seletiva nas unidades.

Segundo o relatório, o total de resíduos gerados também foi maior do que no ano anterior em função de, entre outros fatores, obras de perfuração de um poço artesiano na Unidade Paulista, que geraram aumento no peso de material descartado (terra).

Mais de R$ 1 milhão em redução de custos

Em 2018, o Moinhos de Vento consolidou o primeiro ano operacional da nova Central de Transformação de Resíduos

O Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS), está entre os seis hospitais de excelência do Brasil e oferece atendimento clínico e hospitalar, com ênfase na alta complexidade.

O ano de 2018 foi de grande relevância para a área de Gestão Ambiental da entidade. “Consolidamos o primeiro ano operacional da nova Central de Transformação de Resíduos, provando que um hospital de excelência médico-assistencial também pode ser referência em áreas de apoio. Mantivemos desde maio de 2017 a lógica do tratamento interno de 100% do resíduo infectante gerado e, com isso, alcançamos uma redução de custos superior a R$ 1 milhão”, conta Evandro Moraes, superintendente administrativo.

A visão inovadora e o caráter disruptivo desse projeto renderam ao HMV três premiações em 2018: o Prêmio Saúde 2018, do Grupo Mídia, na categoria Responsabilidade Socioambiental, e a dupla premiação no TOP de Marketing da ADVB/RS, nas categorias Gestão em Processos e Sustentabilidade Ambiental.

A sustentabilidade é uma das diretrizes que norteiam o planejamento estratégico do hospital. A responsabilidade socioambiental está presente no DNA do Moinhos de Vento desde a sua fundação, há 91 anos. “A área de Gestão Ambiental responde diretamente à Superintendência Administrativa e possui pauta prioritária na gestão executiva”, garante Moraes.

Além da Central de Transformação de Resíduos, o HMV mantém um Bosque Sustentável um mais de 3.000 m² de área verde preservada na área central de Porto Alegre e abriga mais de 20 espécies de pássaros nativos e com perfil migratório. Junto a isso, em parceria com a Prefeitura Municipal, adota praças e áreas verdes complementares na cidade.

Com o tratamento interno do resíduo, o Moinhos de Vento alcançou uma redução de custos superior a R$ 1 milhão

Na estrutura física, utiliza redutores de vasão para estimular o consumo consciente de água nas torneiras e chuveiros do hospital; também substituiu todas as lâmpadas fluorescentes por led. “Temos ainda a migração para o Mercado Livre de Energia Elétrica e a criação de uma planta-piloto de energia fotovoltaica para aprendizado quanto ao tema, bem como projeto para criação da maior planta fotovoltaica hospitalar do país com geração de 1 MW de energia”, ressalta.

Moraes diz que os principais obstáculos encontrados na adoção de ações sustentáveis foram o foco e a priorização numa pauta de apoio. “Tão logo os projetos ganharam corpo, projetando seus ganhos e impactos sociais, ambientais e financeiros, eles passaram a ser a menina dos olhos de toda a instituição, gerando orgulho e pertencimento.”

Com relação ao engajamento e à conscientização de pacientes e colaboradores, o superintendente administrativo conta que a gestão de resíduos, por exemplo, é uma pauta trabalhada como matéria de treinamento obrigatório a todos os colaboradores. Além disso, as redes sociais do hospital são constantemente abastecidas com reportagens, cases e matérias de conscientização e comprometimento de toda sociedade quanto ao tema. “O processo de engajamento se faz por meio do contato e divulgação, presença e participação em eventos de sustentabilidade pelo país”, expõe.

Para outros hospitais que pretendem investir no assunto, Moraes dá a dica. “Além de ser uma questão de humanismo e bem comum, pensar em sustentabilidade é garantir a perpetuidade das próximas gerações. É chegar à conclusão de que não podemos deixar para amanhã. Devemos encarar esse tema como gerador de empregos, redutor de custos e preservação do planeta. Para isso, a Consultoria Moinhos de Vento em Gestão Ambiental está à disposição para ajudar”.

Aliando o crescimento à preservação ambiental

Troca de lâmpadas comuns pelas de led, uso de energia solar e de iluminação natural auxiliaram na economia de energia elétrica no H9J

Eficientes e variadas ações sustentáveis foram adotadas pelo Hospital 9 de Julho, da Rede Ímpar, localizado na capital paulista. Tanto que a instituição recebeu, em 2017, a certificação internacional LEED, da Green Building Council, pela construção do Bloco A.

“Isso mostra que o prédio foi elaborado de forma sustentável, pensando em não prejudicar o meio ambiente. Apenas 3% dos hospitais no Brasil possuem esse reconhecimento”, demonstra Andrea Souza, diretora de operações do hospital.

Para receber o selo LEED, a obra do Bloco A precisou atender a alguns pré-requisitos. O item com maior pontuação foi o de terrenos sustentáveis, em que o objetivo foi minimizar os impactos da obra e da demolição nos arredores da construção. “O hospital criou um plano de controle de poluição com o menor impacto possível para a região, evitando, por exemplo, o assoreamento do solo em dias de chuva e incluindo receptores de água”, salienta.

E como tecnologia também tem a ver com sustentabilidade, vale ressaltar que o hospital conquistou, em 2018, a certificação nível 6 da HIMSS – Healthcare Information and Management Systems Society, confirmando os padrões internacionais de qualidade no emprego de tecnologia de última geração.

Para receber essa certificação, o H9J foi analisado pela HIMSS Analytics, que avaliou o sistema de prontuário eletrônico, onde são integradas, parcialmente, as informações dos pacientes que podem ser acessadas por médicos que realizam atendimento nas diversas áreas do hospital, como emergência e internação ou mesmo após a alta, no acompanhamento ambulatorial. O objetivo é chegar ao nível máximo da certificação para se tornar um hospital 100% digital nos próximos anos.

“Como somos um hospital focado em alta complexidade, oferecer todo o conforto ao paciente com o menor impacto ambiental foi um desafio. A certificação é o resultado deste trabalho”, descreve a diretora de operações.

As principais ações sustentáveis realizadas pelo hospital foram:

  • Aquisição de uma máquina lavadora/extratora, que remove a cera sem uso de removedor, utilizando o disco especial, garantindo a desinfecção e gerando baixo consumo de energia elétrica e água. Além disso, promove benefícios à saúde humana pela menor exposição ao removedor de cera e pela redução do risco de queda devido ao piso molhado;
  • Instalação de dispositivos nas torneiras de lavatórios, válvulas de descarga e chuveiros nos quartos, e uso de água das chuvas nos vasos sanitários, que geraram uma economia de 30% nas contas de água;
  • Ar condicionado com sistemas centrais por expansão direta, no qual não é mais necessário utilizar a água como meio de eliminação do calor dos ambientes internos (condensação);
  • O sistema de vácuo clínico, utilizado para aspirações de secreções dos pacientes – consumindo em média 600 m³ de água por mês, foi substituído, em 2013, por um novo equipamento, que trabalha em circuito fechado e utiliza óleo sintético atóxico para formar o anel líquido e produzir o vácuo, de forma a não utilizar mais água;
  • A troca da caldeira por aquecedores de passagem e bomba de calor foi responsável pela redução de 50,34% no consumo de gás natural, de 2013 para 2014;
  • Troca de lâmpadas comuns pelas de led;
  • Adoção de um novo sistema elétrico com uso de energia solar e aproveitamento da luz natural, que permite economia de 20% em energia;
  • Iluminação com sensor de presença;
  • Redução de impressão, adotando documentos digitais dentro do possível;
  • Implantação de projeto de segregação dos resíduos cirúrgicos, que gerou ambientes das salas cirúrgicas mais organizados, o que significou a segregação de 27 toneladas de resíduos recicláveis limpos, entre embalagens de SMS, papel e plásticos.

Sobre os desafios encontrados, Andrea diz que o principal é o engajamento das pessoas com relação às mudanças de processo e à nova consciência ambiental. O H9J trabalha essa questão por meio do esclarecimento das equipes, campanhas internas e informativos, buscando o envolvimento das equipes de colaboradores e equipes médicas, salientando a importância do engajamento de cada um.

Para outros hospitais que pretendem investir em sustentabilidade, a dica é rever processos e observar não só as grandes ações, mas detalhes que muitas vezes são cruciais na adoção de uma nova cultura. “A sustentabilidade vai muito além de água, energia, papel e lixo. É a conquista de uma nova consciência, na qual a preocupação com o meio ambiente prevalece”, expõe Andrea.

Redução de consumo de energia em 50%

Em junho de 2016, o HU-UFMA investiu R$ 145 mil em sua primeira usina fotovoltaica, composta por 80 painéis

Um dos itens mais utilizados pelas instituições de saúde é a energia elétrica. Assim, pensando na sustentabilidade e na economia de recursos públicos, o HU-UFMA – Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão, gerido pela Ebserh – Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, passou a utilizar a energia solar, tão abundante na região Nordeste.

Em junho de 2016, a instituição investiu R$ 145 mil em sua primeira usina fotovoltaica, localizada na cobertura do prédio-anexo dos setores de Tecnologia da Informação e Infraestrutura Física Hospitalar (Bloco G). São cerca de 80 painéis que ocupam uma área aproximada de 130 m² no telhado.

“Até 25 de janeiro de 2019, foram economizados, por meio da usina, aproximadamente 75.000 kWh em consumo de energia elétrica, o que significa, em média, 50% do que é gasto pelo Bloco G”, revelam Bruno Lindoso da Nóbrega, engenheiro eletricista; Daniela Lima Leal, analista administrativa; e João Inácio N. Moraes, engenheiro clínico, todos do setor de Infraestrutura Física.

Eles contam que o primeiro desafio para implantação da usina foi a obtenção do recurso orçamentário e financeiro. A segunda dificuldade enfrentada foi o processo de contratação de empresa para instalação do sistema, o que abrangeu desde a confecção do projeto até o acompanhamento do processo licitatório. “A competência e o empenho da equipe administrativa do hospital foram fundamentais para a transposição dessas barreiras burocráticas”, garantem os profissionais entrevistados.

Para Nóbrega, Daniela e Moraes, o sucesso da usina fotovoltaica abriu portas para a futura viabilização de outras usinas dentro do complexo hospitalar e a implementação de diferentes medidas de redução de consumo energético, tais como: a substituição da tecnologia fluorescente pela led (aproximadamente 5.000 lâmpadas) e o uso racional de sistemas de climatização.

Para trabalhar o engajamento nos projetos de sustentabilidade, uma das ações do hospital é orientar os colaboradores sobre a segregação correta dos resíduos: lixo comum, infectante e reciclável. Além disso, pacientes e colaboradores têm livre acesso à área de atendimento do setor de infraestrutura para abrir chamados relacionados a não conformidade, como torneiras e bacias sanitárias com vazamento de água e lâmpadas queimadas, por exemplo. A empresa de manutenção contratada também é consciente quanto à utilização e aplicação de materiais de boa qualidade, de forma a garantir maior tempo de vida útil aos equipamentos.

Para outros hospitais que pretendem investir em sustentabilidade, as dicas dos profissionais do HU-UFMA são:

  • Investir na elaboração de Termos de Referência com critérios de qualificação e seleção de empresas de prestação de serviços e manutenção que tenham responsabilidade e compromisso ambiental;
  • Utilizar materiais de reposição e de manutenção de primeira linha;
  • Adquirir ou substituir máquinas e equipamentos que não utilizem ou usem o mínimo de água em seu processo operacional. Exemplos: desinfecção das tubulações do sistema de hemodiálise por meio de bomba de ozônio e utilização de bombas de vácuo com compressor a parafuso e isento de água;
  • Criar equipe de inspeção (camareiras) para notificação de quaisquer irregularidades nas áreas assistenciais;
  • Confeccionar cartazes e divulgar periodicamente, por meio de quadros de avisos e/ou tela de descanso dos computadores, dicas de uso racional de água e energia.

O HU-UFMA é um complexo hospitalar formado por duas grandes unidades hospitalares: Presidente Dutra e Materno Infantil, possuindo 668 leitos. Conta com nove unidades externas ambulatoriais, com mais 43.000 m² de área construída. Realiza, em média, 13.250 cirurgias por ano, tendo feito 210.850 consultas ambulatoriais em 2018.

Conteúdo originalmente publicado na Revista Hospitais Brasil edição 95, de janeiro/fevereiro de 2019. Para vê-la no original, acesse: portalhospitaisbrasil.com.br/edicao-95-revista-hospitais-brasil

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