Artigo – Choosing Wisely: precisamos mesmo fazer tantos exames médicos?

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Apesar de ser comum encontrarmos pessoas resistentes e até mesmo contrárias à realização de exames médicos, já é grande e preocupante o número de análises laboratoriais que estão sendo solicitadas sem necessidade.

Uma pesquisa promovida pela American Board of Internal Medicine (ABIM Foundation) revelou que 48% dos médicos solicitam exames em caso de insistência dos pacientes, por exemplo. Outro estudo, realizado pela Harvard Medical School, juntamente com o Beth Israel Deaconess Medical Center, apontou que 30% dos exames no mundo são desnecessários, enquanto outros 30% podem ser reavaliados.

Por isso, alguns centros de referências, com o objetivo de reduzir o gasto em saúde pública e de energia da equipe médica, desenvolveram tratativas conhecidas como Choosing Wisely, ou “Escolhendo com Sabedoria”, em tradução livre.

“Entender essas normas e aplicar no cotidiano garante ao médico uma melhor fluência da sua rotina, ao paciente, menos preocupações e, ao Estado, uma economia de processos e verba”, explica Raul Canal, presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (ANADEM).

No Brasil, por exemplo, o número de procedimentos que buscam sinais de nódulos na tireoide, realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), aumentou de 384 mil para 570 mil entre 2010 e 2017, e a proporção do valor de verbas públicas subiu de R$ 9 milhões para R$ 14 milhões. Esses são os dados mais recentes dos SUS.

No entanto, o número de diagnósticos de câncer na tireoide sequer era estimado em 2010 pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA). Atualmente, a entidade prevê cerca de 10 mil casos por ano no país, sendo que menos de 2% dos exames realizados encontram sinais da doença.

O aumento de exames também não representa uma necessidade de alerta de saúde, pois os casos graves, que culminaram em mortes, não tiveram grande representatividade entre os óbitos gerais no país no mesmo intervalo de tempo.

Ainda segundo o SUS, a alta de mortes por câncer de tireoide, de 2010 para 2017, passou de 617 para 805, o que significou algo em torno de 0,05% das mortes gerais no Brasil nos dois períodos analisados.

Novos rumos

Novas práticas e ideias no atendimento médico estão surgindo com a intenção de selecionar com precisão quais exames e procedimentos deverão ser feitos. Para Raul Canal, é preciso que este tipo de discussão passe pelos órgãos oficiais, além das sociedades.

“É necessário que o médico consiga reunir argumentos legais e técnicos para explicar ao paciente o porquê de não realizar determinado procedimento, sendo esse um zelo pela saúde e não desdém médico, como a população pode entender”, finaliza.

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