Anvisa aprova o registro da primeira terapia gênica no Brasil

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou o registro da primeira terapia gênica de dose única no Brasil para pacientes com perda de visão decorrente da Distrofia Hereditária da Retina (DHR) causada pela presença de uma mutação em ambas as cópias do gene RPE65, que tenham ainda suficiente quantidade de células de retina viáveis. Este é um marco para a medicina nacional, já que representa a entrada da terapia gênica como um tratamento disponível no país.

Terapia gênica é uma modalidade inovadora, que poderá apoiar principalmente pacientes de doenças genéticas raras que, anteriormente, não possuíam opções terapêuticas disponíveis; como os pacientes com DHR com mutação em ambas as cópias do gene RPE65.

Essa técnica age fornecendo o gene saudável no paciente, visando à correção da mutação causadora de doença presentes no DNA do paciente, com a introdução do material genético em tecidos e em células com fins terapêuticos. Ela pode atuar simplesmente na adição de genes ativos (porções do DNA responsáveis pela síntese de proteínas para o bom funcionamento do organismo), ou na modificação ou supressão de genes defeituosos no código genético, visando à produção de proteínas funcionais. Para que a técnica seja possível, são utilizados vetores virais recombinantes (tornando o vírus completamente inofensivo e sem potencial patogênico) que permitem o transporte do gene terapêutico saudável para o interior das células e dos tecidos alvo.

“A terapia gênica representa uma nova era na medicina. Talvez a melhor oportunidade que a ciência pode oferecer para as doenças raras, fundamentada em mais de quatro décadas de pesquisas científicas, durante as quais o processo foi desenvolvido, testado e aperfeiçoado por especialistas”, afirma o médico geneticista Roberto Giugliani, Professor Titular do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira de Genética Médica.

“Traçando um paralelo com grandes marcos da inventividade humana, podemos dizer que, com a terapia gênica, está se iniciando um novo capítulo na história da medicina. Hoje, de fato, o Brasil entra no século das terapias avançadas, inaugurando uma nova fronteira da medicina, da biologia e da genética”, complementa.

Uma nova alternativa para o tratamento de doença rara da retina

No Brasil, as DHRs são a segunda causa de baixa visão em crianças até 15 anos de idade. A perda de visão decorrente da mutação em ambas as cópias do gene RPE65 é uma doença genética hereditária que afeta a retina causando cegueira noturna e perda de sensibilidade à várias condições de luminosidade. Pessoas nascidas com essa condição podem experimentar significativa perda de visão desde muito cedo, com a maioria dos pacientes diagnosticados com cegueira lega até os 18 de idade, progredindo para a cegueira total. A cópia correta do gene RPE65 fornecida por meio da terapia gênica, permite ganho de visão funcional e dá mais autonomia a crianças e adultos que tenham quantidade suficiente de células de retina viáveis.

“Trabalho há muitos anos estudando as doenças da retina e os genes envolvidos em seu funcionamento. No processo de desenvolvimento dessa terapia gênica, passamos por uma etapa de identificação das mutações nos genes relacionados a essas doenças e chegamos à estratégia de inserir na célula da retina uma cópia correta do gene que está mutado”, diz a Dra. Juliana Sallum, oftalmologista e geneticista, professora afiliada da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Universidade Federal de São Paulo. “Vários genes estão sendo pesquisados, mas o RPE65 é o primeiro a ter uma medicação aprovada para aplicação através de uma cirurgia. Certamente a forma mais adequada de tratar uma doença genética é corrigir o defeito genético e restabelecer a função, neste caso, a visão”, define.

Com a aprovação do registro pela Anvisa, um dos próximos desafios é a conscientização quanto à importância do diagnóstico assertivo das DHRs. No início da doença, os pacientes podem sofrer de cegueira noturna (nictalopia) e perda da visão periférica. O bebê acometido tem dificuldade de fixação do olhar e apresenta movimentos repetitivos e involuntários dos olhos, chamado nistagmo. Estes pacientes podem ser diagnosticados, por exemplo, com subtipos de amaurose congênita de Leber ou retinose pigmentar, sendo necessário um teste genético para confirmar que a perda de visão é causada por mutações no gene RPE65.

Para os pacientes, a chegada da tecnologia traz nova esperança no tratamento da doença. “Esse é um momento especial. É quase inacreditável que estejamos falando da chegada dessa terapia tão esperada, devido à complexidade dessa doença rara. Aguardamos há décadas por isso”, salienta Maria Júlia Araújo, presidente da Retina Brasil, ONG destinada a apoiar e informar pessoas com doenças da retina e seus familiares.

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