Artigo – Desmistificando o Suicídio

Precisamos falar sobre suicídio, e desmistificar esta que é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Esse dado estatístico alarmante é suficiente para ressaltar a importância do tema e para que possamos compreender o suicídio como um problema de saúde pública, que necessita de intervenção.

Esse assunto, que ainda é um tabu em nossa sociedade, remonta aos primórdios da história humana, uma vez que existem reflexões sobre o suicídio na obra do filósofo grego Platão (428 A.C-328 A.C) e também nos ensinamentos de Siddhartha Gautama, o Buda (563 A.C-483 A.C.). Ao longo da chamada Idade Média – período em que predominou o pensamento religioso no Ocidente – o ato de tirar a própria vida era considerado uma falha moral, e aqueles que assim morriam eram proibidos de serem enterrados; sendo seus corpos abandonados ao ar livre.

No entanto, sob o ponto de vista psiquiátrico, não cabem julgamentos morais nem religiosos, e, deste modo, a ideação suicida é considerada pela medicina como um sintoma de um transtorno mental. E, com isso, passível de tratamento. Isto posto, iremos gradativamente elucidar mitos e verdades a respeito do suicídio.

A primeira informação importante que cabe ressaltar é a de que nem todas as pessoas que se matam ou pensam em tirar a própria vida estão deprimidas. Ou seja, existem diversos contextos e motivações para essa atitude, o que na psiquiatria chamamos de “crise suicida”. Por exemplo, há pessoas que apresentam tal crise quando se deparam com algum tipo de frustração, e, de modo impulsivo, tentam tirar a própria vida. Nestes casos, a pessoa não apresentava um planejamento prévio, nem ruminava em sua mente pensamentos de morte. Exemplos disso são indivíduos que são surpreendidos com a falência de sua empresa; com a notícia de uma doença grave ou incapacitante; com a informação de que um ente querido faleceu; com a n otícia de alguma traição conjugal, entre outras decepções.

Outra motivação para o suicídio é a psicose. Há pessoas que, imersas em algum delírio, buscam patologicamente no suicídio a fuga da situação em que acreditar viver. Por exemplo, um indivíduo  pode estar delirando que existem pessoas que o vigiam e que querem matá-lo, que existem câmeras escondidas o filmando e que seus pensamentos podem ser lidos por outros. Tais pacientes, em franco episódio psicótico, podem cometer o suicídio na tentativa desesperada de escapar de uma perseguição ilusória. Há também aqueles que ouvem vozes que outras pessoas não ouvem, as quais, muitas vezes, ordenam que o paciente se mate; outro exemplo de um episódio psicótico. Tais casos s&at ilde;o muito graves e exigem internação imediata, uma vez que são os pacientes psicóticos com ideação suicida os que mais se matam.

Há também o paciente que apresenta o chamado episódio misto do transtorno afetivo bipolar, o qual manifesta pensamento acelerado, discurso eloquente, explica os assuntos que aborda com detalhes e, paradoxalmente, pode se apresentar com um humor contagiante e dar a falsa impressão de que está feliz. Porém, associado a estas características, o paciente também tem ideações suicidas, muitas vezes com planejamento, e pensamentos recorrentes de autodepreciação. Tais casos exigem grande perícia do profissional que o avalia, pois, num primeiro momento, a ideação suicida pode passar despercebida.

Por fim, há o indivíduo que está deprimido, o qual apresenta sentimentos de desesperança, com frequência pensa que a vida não vale a pena, sente-se inútil e abandonado, mostra-se triste, cabisbaixo e não tem mais prazer em realizar atividades que antes lhe eram agradáveis. Pode apresentar dificuldade para dormir, despertar no meio da madrugada e não conseguir retomar o sono ou, pelo contrário, dormir durante longos períodos. Tais pacientes podem também apresentar alterações do apetite, passam a comer de mais, ou deixam de comer. Muitos que sofrem de depressão apresentam dores pelo corpo, sentem como se ele fosse um fardo a ser carregado e há a sensação de que lhe falta energia. Além disso, podem surgir pensamentos de morte, os quais gradativamente vão ganhando protagonismo psíquico até surgir o planejamento de como se matar, este um sinal de alarme para o risco de suicídio.

Cabe também relatar alguns mitos acerca da ideação suicida. Há quem diga que se o indivíduo afirmou que vai se matar é porque não o fará, alegando que quem se mata não avisa. Isso é mentira, pois a maioria das pessoas que se suicida avisa que irá se suicidar. Outro mito é que o médico ou psicólogo não deve tocar neste assunto durante a consulta, justificando que isso pode despertar uma ideia de morte. Não é verdade; o profissional da saúde mental sempre deve questionar se o paciente cogita se suicidar, e as repercussões dessa pergunta são sempre positivas.

Caso haja alguma identificação com o que foi dito, ou caso conheça alguém que possa se identificar com o que foi exposto, é de suma importância que se busque um atendimento psiquiátrico assim que possível. Quanto mais cedo ocorrer a intervenção terapêutica maiores são as chances de evitar o suicídio.

Dr. Ricardo Patitucci é psiquiatra e vice-diretor clínico da Casa de Saúde Saint Roman

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