Equidade de tratamento: realidade distante para a maioria dos pacientes oncológicos

O Dia Mundial do Combate ao Câncer, celebrado em 4 de fevereiro, busca orientar e educar sobre a doença, e também convida à reflexão. Qual o sentido de conscientizar, se faltam meios efetivos de diagnóstico, tratamento e cura para a maior parte da população brasileira? O oncologista Fernando Medina, do Centro de Oncologia Campinas (SP), entende que um dos principais problemas enfrentados pelos pacientes oncológicos no Brasil é a falta de equidade entre o que é ofertado pela saúde pública e pela rede privada.

Os pacientes oncológicos do Brasil vivenciam o abismo que separa as realidades das redes privada e pública. Menos de 25% da população brasileira têm acesso a planos de saúde médico-hospitalares. Todo restante depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Fernando Medina lembra que mesmo os moradores da região de Campinas – que está entre as mais desenvolvidas do país e que oferece melhores acessos à saúde – têm dificuldade para receber um atendimento oncológico de qualidade.

“Há apenas três instituições públicas que atendem esses pacientes na região de Campinas, uma população de quase 4 milhões de pessoas. Infelizmente na nossa região o acesso ao diagnóstico e tratamento é muito ruim. Muitos pacientes vão buscar radioterapia e quimioterapia em lugares distantes, como Barretos ou Guarulhos. É inadmissível para o paciente que tem câncer, que está enfraquecido pela própria doença, ter que viajar”, afirma o oncologista.

Medina mostra em números a realidade discrepante. “Um terço dos casos de câncer pode ser prevenido, e mais um terço pode ser curado, desde que exista acesso, tratamento e exames adequados e diagnóstico mais precoce possível”, reforça. Cerca de 10 milhões de pessoas morrem anualmente no mundo de câncer. “É mais do que aids, malária e tuberculose, juntos. Se a gente não fizer nada, em 2030 a mortalidade vai para mais de 13 milhões de pessoas. Aumentará quase um terço em oito anos”, alerta.

A origem dos problemas de equidade de tratamento está nas próprias diretrizes que regem as orientações de detecção precoce – a arma mais valiosa para cura do câncer. Há divergências de protocolo e diretrizes. “O Ministério da Saúde, pelo viés de custo, adota diretrizes diferentes. Segundo a American Cancer Society, a recomendação é fazer a mamografia depois dos 40 anos até os 70, anualmente. O Ministério da Saúde usa a diretriz de exames após os 50 anos e a cada dois anos”, exemplifica.

Na escala seguinte da linha de diagnóstico do câncer, as barreiras da rede pública também se erguem na comparação com o serviço privado. Medina observa que muitos dos especialistas da linha de frente de atendimento da saúde básica não recebem o devido treinamento para poder detectar precocemente casos de câncer. “Os médicos não têm uma formação adequada de prevenção, diagnóstico e tratamento de câncer.”

Esses profissionais, opina, deveriam ser treinados a detectar mais rapidamente os sinais do câncer. “Hoje temos conhecimento de uma série de sintomas indicativos do câncer. Por exemplo, ferida que não cicatriza há mais de 15 dias, uma rouquidão por mais de 15 dias, qualquer nódulo pelo corpo, dificuldade de engolir, alteração do hábito intestinal. São todos sinais importantes que devem ser levados a sério a fim de possibilitar uma detecção precoce do câncer”, diz Medina.

Já na fase de tratamento, a lacuna se torna ainda maior para os pacientes oncológicos sem acesso a planos privados de saúde. Terapia alvo-dirigida, imunoterapia e mapeamento genético, atualmente os principais recursos de êxito na cura de muitos tipos de câncer, não são opção para os pacientes do SUS. “Hoje temos tumores tratados exclusivamente com imunoterapia e com terapia alvo, como por exemplo o melanoma e tumor renal, só que esses tipos de tratamento não existem no SUS”.

Orientação

Apenas a equidade, que inclui orientação, facilidade de acesso ao diagnóstico e de tratamento, será capaz de trazer prognósticos melhores à grande maioria dos pacientes oncológicos do país, acredita Medina. “Na maioria das vezes, o diagnóstico é tardio por falta de programas de prevenção adequados. É preciso direcionar o público, de uma maneira geral, às ações de prevenção. E permitir que todos tenham acesso às melhores técnicas e tratamentos, não somente a pequena parcela que pode pagar um plano de saúde”.

Redação

Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.